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Sapinhos da Mata Atlântica são surdos à própria voz

Estudo anatômico, neurológico e comportamental sugere processo evolutivo em andamento

MARIA GUIMARÃES | Edição Online 6:00 21 de setembro de 2017

 

Revista Pesquisa FAPESP
Podcast: Luís Felipe Toledo
Quando o sapinho-pingo-de-ouro, espichado sobre uma folha seca no chão de algum pedaço de Mata Atlântica, canta discretamente seu trinado semelhante ao de um grilo, imagina-se uma fêmea por perto avaliando o possível parceiro. Essa é, pelo menos, a prática de outros sapos. Mas não necessariamente nesse gênero Brachycephalus: tanto machos quanto fêmeas de duas espécies são surdos ao próprio canto, segundo descobriu uma equipe internacional liderada pelo zoólogo Luís Felipe Toledo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “É o primeiro caso registrado de uma espécie animal que não escuta a própria voz”, afirma.

Em um experimento comportamental com Brachycephalus pitanga, o grupo verificou que nem os machos nem as fêmeas reagem ao canto gravado e transmitido por alto-falantes. “Se estão cantando, continuam cantando, se estão caminhando, continuam caminhando, se estão parados, continuam parados.”

O estudo, publicado hoje (21/9) na revista Scientific Reports, analisou em detalhes a audição de duas espécies de BrachycephalusB. ephippium e B. pitanga, ambos medindo cerca de 2 centímetros – em comparação a outro sapinho do mesmo tamanho, Ischnocnema parva, para entender a observação inusitada. A ecóloga francesa Sandra Goutte, durante estágio de pós-doutorado com Toledo, iniciou o trabalho e buscou a colaboração de especialistas na Inglaterra, na Dinamarca e no Instituto Butantan, em São Paulo – os biólogos Carlos Jared e Marta Antoniazzi. “Ficamos curiosos porque não é possível enxergar o tímpano dos Brachycephalus”, lembra Toledo. De fato, as análises anatômicas mostraram que essas duas espécies não têm tímpano – a membrana que compõe a chamada orelha externa – nem os ossículos da orelha média. O que eles mantêm são os dois órgãos auditivos da orelha interna, um capaz de detectar as frequências sonoras graves e outro as agudas.

Por meio de eletrodos no cérebro, foi possível demonstrar que as duas espécies de Brachycephalus não têm resposta neurológica na faixa auditiva do próprio canto. Eles respondem apenas os sons mais graves, transmitidos ao órgão auditivo por meio de vibração das pernas. Já a percepção dos sapinhos I. parva, que mantêm o aparelho auditivo completo, coincide com a frequência em que cantam. A reconstrução tridimensional do sistema auditivo explica a diferença entre as espécies. Em B. ephippium a papila basilar, órgão auditivo interno responsável por detectar as frequências agudas, não está em contato nem com a estrutura que conduz o som, nem com a inervação que leva os estímulos ao cérebro – situação completamente diferente de I. parva, em que todas essas estruturas estão bem conectadas. B. pitanga mostra um resquício da configuração considerada normal, com uma pequena inervação do órgão. Mas não há estímulo a conduzir, porque o contato com a estrutura condutora de som não existe.

A pergunta que fica é: por que esses sapinhos cantam? Toledo ainda não tem a resposta definitiva. Ele destaca que cantar é considerado uma atividade de risco por atrair predadores e parasitas. O dogma é que só vale a pena por uma causa maior, que é atrair pares reprodutivos ou expulsar machos rivais. Objetivos que, neste caso, obviamente fracassam. “Aparentemente pegamos no ato um processo evolutivo em andamento”, propõe o zoólogo. Talvez a comunicação nessas espécies seja visual, e o movimento do saco vocal quando eles cantam seja atraente para as fêmeas ou comunique algo aos outros machos. A emissão de som seria um efeito colateral. Quanto ao risco de predação e parasitismo, é possível que não seja um problema tão grande para essas espécies de cor marcante que indica a presença de forte toxina na pele. Por isso a seleção natural ainda não teria atuado com força para silenciar esses sapos minúsculos.

Projeto
Comunicação e sistemas sensoriais em anuros da Mata Atlântica (no 14/23388-7); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Luís Felipe Toledo (Unicamp); Investimento R$ 139.637,65

Artigo científico
GOUTTE, S. et al. Evidence of auditory insensitivity to vocalisation frequencies in two frogs. Scientific Reports. 21 set. 2017.


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