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Impactos de uma nova realidade de trabalho

Expansão da Indústria 4.0 deverá criar novas demandas de formação no Brasil

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 259 | SETEMBRO 2017

 

A chamada Indústria 4.0 engloba uma ampla variedade de inovações tecnológicas aplicadas à manufatura. Estima-se que nos próximos anos essa tendência atue na criação de novos modelos de negócios, com fábricas inteligentes, baseadas na automação e digitalização dos processos de produção e no uso e análise de grandes quantidades de dados (ver reportagem). A incorporação desse conceito como parte dos processos industriais no Brasil deverá exigir a formação de indivíduos com habilidades técnicas e interpessoais específicas. Estar atento aos impactos dessas mudanças pode ajudar os atuais e futuros profissionais a se antecipar às demandas dessa nova realidade.

O conceito de Indústria 4.0 surgiu na Alemanha em 2011 como um projeto de iniciativa estratégica do governo para promover a automatização da manufatura e aumentar a produtividade das linhas de produção. Espera-se que, com a incorporação desse conceito, os trabalhos manuais e repetitivos sejam progressivamente substituídos por mão de obra automatizada. As máquinas serão equipadas com sistemas e sensores inteligentes que irão informar como elas devem operar em cada estágio do processo de manufatura, transmitindo os dados às centrais de análise das empresas.

“Esse fenômeno criará novas demandas de pesquisa e desenvolvimento, oferecendo oportunidades para profissionais tecnicamente capacitados, capazes de trabalhar com diferentes tipos de tecnologias”, afirma o engenheiro de sistemas Paulo Eigi Miyagi, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP). Ele explica que a nova realidade de trabalho que desponta com a evolução da Indústria 4.0 – ou manufatura avançada, como é conhecida fora da Alemanha – demandará profissionais com senso de urgência, flexibilidade e capacidade de desenvolver soluções inovadoras a partir da convergência de conhecimentos diversos.

Ainda segundo Miyagi, a formação específica continuará sendo valorizada. No entanto, os futuros profissionais terão de ser capazes de integrar conceitos de outras áreas em sua atividade profissional. Também a disseminação de sistemas inteligentes instalados nas máquinas permitirá aos funcionários interferir a distância no andamento dos processos de produção. “Os sistemas de controles industriais serão descentralizados, de modo que será comum um grupo de profissionais ser responsável por todo o processo de manufatura, e não por apenas uma parte específica da linha de montagem”, diz. Isso desencadeará mudanças nas dinâmicas de trabalho. Para Miyagi, à medida que o acesso às informações sobre esses processos seja feito por dispositivos móveis, a qualquer hora e em qualquer lugar, a tendência é de que os funcionários sejam notificados para fazer o acompanhamento e modificar esses processos sempre que necessário, o que lhes demandará mais flexibilidade em relação à sua jornada de trabalho.

Na avaliação do engenheiro mecânico Marcosiris Amorim de Oliveira Pessoa, também da Poli-USP, todas as áreas do conhecimento serão impactadas com a expansão da Indústria 4.0. No entanto, as engenharias se destacam. Algumas universidades já trabalham na readequação de seus currículos. A própria Poli-USP pretende criar um novo curso, chamado engenharia da complexidade, para formar profissionais capazes de desenvolver estratégias voltadas à concepção de produtos, processos produtivos e atividades de inovação e de pesquisa a partir de abordagens multidisciplinares (ver Pesquisa FAPESP nº 253).

De acordo com o relatório Future of Jobs and Skills, do Fórum Econômico Mundial, outras áreas também deverão se tornar mais importantes nos próximos anos. Uma delas é a de analista de dados, que ajudará as empresas a avaliar a enorme quantidade de informações e, assim, oferecer suporte à gestão de suas estratégias de negócios. Já os coordenadores de robótica serão responsáveis por supervisionar o funcionamento dos robôs, atuando na manutenção preventiva dessas máquinas. Também os representantes de vendas deverão ganhar destaque. “Como as empresas estarão com ofertas de produtos e serviços mais especializados, seus profissionais terão de conhecer a natureza técnica e inovadora dos produtos que irão vender”, diz Clemente Hungria, da empresa AGR Consultores.

Para Miyagi, os indivíduos preocupados em se antecipar a essas e outras novas demandas de trabalho podem recorrer à formação acadêmica nas áreas de engenharia mecatrônica e computação, que proporcionam o domínio teórico e prático de operação de sistemas fundamentais na Indústria 4.0. Já estudantes que pretendem ingressar no ensino técnico podem procurar os cursos do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), que já há alguns anos se debruçam sobre a Indústria 4.0 e estão familiarizados com o tema.

Para quem deseja fazer graduação, o ideal seria procurar instituições que, como o IFSP e o Senai, tenham experiência prévia em áreas associadas à Indústria 4.0. Para achá-las, Pessoa cruzou informações de trabalhos científicos que tratam de aspectos da manufatura avançada na base de dados Scopus com a de pesquisadores e universidades ou institutos de pesquisa aos quais estavam ligados. Verificou que os cursos mais indicados são os de engenharia mecatrônica da Poli-USP, de engenharia de produção da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e de tecnologia em análise e desenvolvimento de sistemas do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), entre outros. Os que não têm como ingressar em alguma dessas instituições podem procurar outras, menos tradicionais, desde que ofereçam cursos ligados à Indústria 4.0.

Segundo Miyagi, o impacto da manufatura avançada também alcançará as humanidades, abrindo caminho para novos campos de pesquisa voltados à análise das novas relações sociais e de trabalho. Para Pessoa, o importante é o indivíduo identificar o campo que mais lhe atrai e depois se aprofundar no assunto.


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