CARREIRAS

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Uma engenharia mais ampla

Novo curso da Poli-USP pretende formar engenheiros especializados na resolução de problemas de grande amplitude a partir de abordagens multidisciplinares

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 253 | MARÇO 2017

 

095-098_Carreiras_253-1A Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) planeja lançar um novo curso chamado engenharia da complexidade. Por ora aprovado pela Congregação, órgão consultivo e deliberativo da faculdade, o curso está sendo estruturado com pesquisadores do Groupe des Écoles Centrales, formado por cinco das principais escolas de engenharia da França, e deve ter um caráter mais amplo que os outros cursos oferecidos pela Poli. “A ideia é que o engenheiro da complexidade desenvolva estratégias voltadas à concepção de novos produtos, processos produtivos e atividades de inovação e de pesquisa a partir de abordagens multidisciplinares”, explica Laerte Idal Sznelwar, do Departamento de Engenharia de Produção da Poli e coordenador da equipe responsável pela concepção do curso, que ainda precisa ser aprovado pelo Conselho Universitário da USP, órgão colegiado de maior poder dentro da instituição.

Como as demais engenharias, a engenharia da complexidade da Poli terá como base as ciências físicas e matemáticas. No entanto, a constituição de sua grade também deverá permitir a integração de conceitos de outras áreas do conhecimento, as quais, segundo Sznelwar, devem ser levadas em conta pelo engenheiro em sua atividade profissional. “Cada vez mais esses profissionais vão se deparar com situações que exigirão soluções fundamentadas em conhecimentos que eles nem sempre dominam”, diz o engenheiro naval Bernardo Andrade, do Departamento de Engenharia Naval e Oceânica da Poli e membro da comissão executiva responsável pelo projeto do novo curso. “Nossa proposta é investir na formação de engenheiros capazes de combinar conhecimentos diversos para desenvolver soluções mais integradas para problemas de grande amplitude.”

O curso de engenharia da complexidade deverá ser oferecido no campus da Poli na Baixada Santista, no litoral paulista, próximo ao porto e ao complexo industrial de Cubatão. Pretende-se, com isso, aproximar os estudantes e os professores dos desafios das empresas daquela região. Os alunos deverão desenvolver projetos, de modo a aplicar o conhecimento adquirido ao longo do curso na resolução de problemas e na concepção de projetos em áreas como planejamento e integração de ações de mobilidade urbana, recuperação e preservação ambiental, desenvolvimento de centros de inovação tecnológica e processos de exploração dos recursos do mar.

Carreira em expansão
As engenharias se consolidaram como uma das carreiras mais atrativas nos últimos anos no Brasil. Em 2000, o número de profissionais formados no país foi de quase 18 mil; em 2014, esse número saltou para quase 68 mil, de acordo com o Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais do Ministério da Educação (MEC). Apesar do aumento expressivo, quando comparado com outros países, nota-se que o Brasil ainda enfrenta um déficit em relação à formação desses profissionais.

Carreiras_graf 1Segundo dados do Instituto de Estatística da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a Rússia foi o país que mais formou engenheiros em 2015, com 454.436 profissionais. Os Estados Unidos ficaram em segundo lugar, com 237.826, e o Irã, em terceiro, com 233.695. A Coreia do Sul, quinto lugar no ranking, apresenta números impressionantes em relação à formação de engenheiros. Nos anos 1980, o país reestruturou seu sistema educacional de modo a estimular a formação desses profissionais. Em 2015, o país formou 147.858 engenheiros.

No Brasil, os cursos de engenharia ainda precisam lidar com o alto índice de evasão. Em 2013 ele foi de 28% nos cursos privados, bem acima dos 10% registrados no âmbito do ensino público no mesmo período, segundo relatório do Observatório da Inovação e Competitividade (OIC) da USP. “Não sabemos as causas que levam os alunos ao abandono porque não há estudos investigando o fenômeno a fundo”, explica o professor Mario Sergio Salerno, coordenador do Laboratório de Gestão da Inovação da Poli e um dos autores do estudo.

Uma avaliação possível envolve o modo como os cursos estão estruturados. “Muitos são integrais e exigem boas noções do aluno em disciplinas como matemática e física, essenciais para a formação de um bom engenheiro”, explica Salerno. “No entanto, muitas vezes o estudante precisa trabalhar e não consegue conciliar suas atividades com as obrigações do curso.” No caso das universidades privadas, além do curso de engenharia ser caro, muitos alunos ingressam sem ter um bom conhecimento de disciplinas importantes para a área. “Diante das dificuldades crescentes, muitos abandonam a faculdade”, diz o engenheiro.

Outro aspecto observado por Salerno diz respeito à relação entre a procura pelos cursos de engenharia e o ritmo de atividade econômica no Brasil. Segundo ele, isso se dá porque a engenharia costuma ser sensível à conjuntura dos investimentos realizados na economia. O estudo do OIC indica que entre 2009 e 2010 houve um crescimento de 19% no número de ingressantes em cursos de engenharia no Brasil. Em 2011 o crescimento foi de 26% em relação a 2010. O período entre 2011 e 2012 registrou o maior percentual de crescimento de novos ingressantes, 31%. Os cursos de maior procura foram os de engenharia civil e engenharia de produção. No ano 2000, 5.220 indivíduos se formaram em engenharia civil, e 344, em engenharia de produção.Mais de uma década depois, em 2013, 13.619 pessoas se formaram em engenharia civil, e 12.181, em engenharia de produção.

Em relação ao mercado de trabalho, o relatório verificou um aumento sistemático de contratações de engenheiros no Brasil nas últimas três décadas. Em 1985 havia 156.584 engenheiros empregados. Em 2013 esse número subiu para 272.110. Os picos de contratação de engenheiros se deram em dois períodos, 2007-2008 e 2009-2010. Apesar da predominância dos engenheiros civis (cerca de 30%), observou-se um crescimento no número de contratação também de engenheiros de produção. Em 2003, esses profissionais representavam 10% dos cerca de 150 mil engenheiros contratados e, em 2013, 15% do total.

Carreiras_graf 2Os empregos no campo das engenharias tendem a se recuperar mais rapidamente após períodos de desaceleração econômica, voltando a crescer com maior velocidade do que outras categorias, segundo o engenheiro eletrônico e economista Carlos Américo Pacheco, ex-reitor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e atual diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP. “O desafio agora é garantir uma melhor perspectiva de trabalho para os engenheiros, de modo que o mercado seja capaz de absorver os profissionais que se formam no país”, comenta.

As discussões associadas ao perfil desses profissionais, à melhoria da qualidade do ensino e ao preparo dos estudantes para o mercado de trabalho têm sido constantes entre professores e pesquisadores da área. “Não estamos formando o tipo de engenheiro de que o Brasil precisa”, afirma o engenheiro eletrônico Edson Watanabe, diretor do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ). Ele se refere a engenheiros capazes de desenvolver soluções inovadoras em área distintas, criando novas tecnologias para produtos e processos, gerindo a inovação em empresas de diversas áreas, inovando e empreendendo.

“Aquela fase do engenheiro superespecializado está acabando”, avalia o engenheiro eletricista João Zuffo, professor aposentado da Poli (ver seção Entrevista). “Ele tem que se aprofundar rapidamente em uma área, ter uma boa base de matemática, de física e uma formação mais humanística. O mundo de amanhã não vai ter lugar para um profissional puramente técnico. Tem que ter uma educação com flexibilidade para poder se adaptar às mudanças”, completa.

Segundo o engenheiro metalúrgico Ericksson Rocha e Almendra, ex-diretor da Escola Politécnica da UFRJ, a ideia de interdisciplinaridade não pode mais ser desassociada do processo de desenvolvimento da ciência, sendo necessário estimulá-la também entre as engenharias. “É impensável hoje um engenheiro ambiental não trabalhar com sociólogos em grandes obras em áreas florestais envolvendo a desapropriação de moradores da região”, afirma. Uma estratégia nesse sentido, segundo Pacheco, é investir em inovações pedagógicas. “É importante também ficar atento às experiências de fora do Brasil e investir na internacionalização das escolas brasileiras”, afirma.


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