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Resenhas

Correspondência literária

Conversa cortada: A correspondência entre Antonio Candido e Ángel Rama. O esboço de um projeto latino-americano (1960-1983) | Pablo Rocca (editor) | Ernani Ssó (tradutor) | Edusp/Ouro sobre Azul | 232 páginas | R$ 48,00

Não é incomum a correspondência de grandes intelectuais ser pouco imponente ou significativa, mas alimenta e guarnece conhecimentos dados e crescentes. Quando transcorre entre golpes, ditaduras e censuras, não cabe esperar grandes revelações.

A correspondência do uruguaio Ángel Rama (1926-1983) e Antonio Candido de Mello e Souza (1918-2017) tem ouro, mas é preciso lavrar, pois não se mostra ao primeiro olhar nem está onde se poderia imaginar: quatro ou cinco cartas de Gilda de Mello e Souza a Ángel, apresentadas ao final do volume, como anexo. Essas cartas entram para o livro de tombo da epistolografia nacional, pela dicção incomparável, a construção de uma subjetividade tecida com a mais sutil das urdiduras, que se revela de um modo muito natural, despojado, simples, sem contudo jamais perder uma certa reserva; cumplicidade e amizade, responsabilidade, dificuldades e percalços são apresentados, e o demônio que perturba a missivista (“entre o ardor e o desespero”, diz seu marido), sem ser jamais revelado por inteiro, aflora naturalmente, permanecendo no entanto em sombra. No balanço de revelar e esconder, emerge uma autora que domina a arte da carta, transformando por vezes um informe em obra de arte, um pedido em dádiva, em que nada se perde e tudo está em seu lugar; uma escrita, uma dicção, uma subjetividade encantadoras, por vezes comoventes, embora sem sentimentalismo algum.

Mas não se espera de uma resenha da publicação das cartas sobrantes de dois eminentes críticos literários que ela se demore em algum anexo, por mais excepcional que ele seja, e ainda mais de autoria de outrem. Que se leiam, então, as 87 cartas que o volume colige, correspondência incompleta e permeada de lacunas preenchidas por conversas telefônicas e encontros pessoais. O cartear não testemunha uma grande amizade, embora se considerassem amigos; não apresenta, ainda, uma discussão teórica ou analítica; não revela intimidades nem novidades. Em grande medida, é preenchida pelos trâmites editoriais da Biblioteca Ayacucho, sob a responsabilidade de Ángel. Não é só isso, decerto: é um cartear em tempos de ditaduras e repressão, em que muito não pode ser dito: “O mundo piorou muito, e a situação brasileira também”, diz o brasileiro. Há menções às dificuldades em São Paulo, com a universidade atacada e as aposentadorias compulsórias, a censura, e algo mais; sobre o golpe no Chile e seu raio de ação e impacto; sobre os sucessivos exílios e dificuldades de Ángel em Montevidéu, em Caracas, nos Estados Unidos, assim como seus sonhos europeus, interrompidos pelo fatal acidente de avião.

Antonio e Ángel conheceram-se em 1960, quando o primeiro foi a Montevidéu ministrar um curso, e até 1983, quando o uruguaio falece, mantiveram contato, sobretudo por meio de cartas. Havia muito interesse e preocupação comuns; embora Ángel fosse apenas oito anos mais jovem, considerava Antonio um mestre e procurou, em diversas ocasiões, firmar a admirada precedência. Sobretudo o esforço, enorme em Ángel, de vencer o insulamento das diversas literaturas da América Latina – buscando conhecer sempre mais e de modo mais variado, almejando uma verdadeira comunicação entre as diversas culturas e suas literaturas – é apresentado com vigor nas cartas, e a contrapartida do crítico brasileiro não se faz por esperar. Acompanhamos a colaboração na Biblioteca Acayuacho, empresa incrível, monumento, exigindo de Ángel quase tudo, de Antonio a colaboração calibrada por entre suas outras atividades e preocupações. Vê-se aí o esforço conjunto na formação de redes internacionais de pesquisadores, mobilizados em interesses comuns: o amplo projeto, nas palavras de Rama, de “pensar a nossa cultura e a nossa América. […] reescrever a história da literatura latino-americana, isso que nunca se fez e que nós estamos obrigados a fazer”.

A atividade de publicista em meio às dificuldades, Ángel em Montevidéu e Caracas, Antonio – com a revista Argumento – em São Paulo, oferece também um paralelo eloquente. Embora haja, aqui e ali, referências aos textos em elaboração e finalizados, a correspondência não joga luz nesse terreno – ressalva feita ao caso de Gilda, que revela por inteiro a gênese de seu O tupi e o alaúde (1979). Não é uma “grande” correspondência, em nenhum sentido, mas conta sua história. Que venham mais, e de todos os lados!

Leopoldo Waizbort é professor titular no Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).