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Internacionalização

Conexões de longa distância

Avançam iniciativas que promovem networking e intercâmbio de conhecimento entre pesquisadores brasileiros nos Estados Unidos

Membros do PUB Boston participam de encontro que reuniu mais de 80 pesquisadores e estudantes brasileiros em 14 de dezembro

Larissa Spinelli

Pesquisadores e estudantes brasileiros que vivem ou passam períodos nos Estados Unidos encontraram um modo de manter-se em contato e estimular colaborações: participam de redes que promovem encontros regulares para troca de experiências profissionais, científicas ou ligadas ao empreendedorismo. A primeira iniciativa desse tipo foi lançada em 2010. Trata-se do PUB Boston, sigla para Pesquisadores e Universitários Brasileiros em Boston, rede criada para engajar cientistas e bolsistas do país instalados na região da Nova Inglaterra, onde se situam mais de 50 instituições de pesquisa e ensino superior como o Massachusetts Institute of Technology (MIT) e as universidades Harvard, de Boston, Yale, Dartmouth e Brown. O PUB Boston segue em atividade, promovendo reuniões interdisciplinares mensais, e pelo menos 10 redes de relacionamento de formato semelhante despontaram em outras cidades norte-americanas, como São Francisco, Nova York, Houston, Seattle, New Heaven – e também em Montreal, no Canadá.

Os encontros, na maioria em português, geralmente ocorrem em auditórios, onde os participantes das redes assistem a palestras de pesquisadores brasileiros de diversas áreas do conhecimento e a relatos de profissionais radicados nos Estados Unidos que atuam em empresas ou criaram startups. Também há espaço para a apresentação de iniciativas de divulgação científica ou de caráter social. Uma parte especialmente profícua das reuniões são os happy hours, abastecidos por salgados e doces brasileiros oferecidos por patrocinadores ou graças a alguma caixinha recolhida pelos organizadores, em que a audiência conversa e interage.

O público é composto por estudantes, estagiários de pós-doutorado, professores visitantes, jovens profissionais ou cientistas estabelecidos nos Estados Unidos. “O ponto alto das reuniões é a possibilidade de conhecer o que colegas brasileiros de diversas áreas estão produzindo por aqui, abrindo portas para contatos profissionais e pessoais. Mas é claro que não podemos menosprezar o interesse que as coxinhas e brigadeiros despertam nos brasileiros que estão há muito tempo longe de casa”, diz a nutricionista Rachel Freire, pós-doutoranda na Escola de Medicina de Harvard, atual líder do PUB Boston.

Clubes de Ciência Brasil Estudantes participam de Clube de Ciências em Belo Horizonte, um projeto organizado por cientistas do Brasil em HarvardClubes de Ciência Brasil

No caso do grupo da Nova Inglaterra, os encontros mensais acontecem sempre em uma sexta-feira. A frequência varia de 60 a 80 pessoas – e era maior até três anos atrás, quando o programa Ciência sem Fronteiras enviava milhares de estudantes para o exterior. Na última reunião, em 14 de dezembro, houve um evento especial com apresentações de cinco estudantes de mestrado ou doutorado em universidades norte-americanas de diferentes áreas do conhecimento, com a presença da consulesa-geral do Brasil em Boston, Glivânia de Oliveira.

Por meio de um grupo no Facebook, a rede mobiliza 3,7 mil brasileiros que passaram por Boston. “Não é incomum que, dessas apresentações e dos debates que acontecem antes e depois delas, surjam colaborações científicas e profissionais”, diz o cientista da computação Vitor Pamplona, coordenador da SciBr Foundation, organização não governamental criada em 2014 que, entre outras atribuições, coordena e busca disseminar essas redes. “Entre vários exemplos, me lembro de um biólogo e um engenheiro que se conheceram no PUB Boston e foram trabalhar juntos na criação de um equipamento de pesquisa”, diz Pamplona, que trocou Porto Alegre por Boston em 2009, quando fez parte de seu doutorado no MIT, e há sete anos criou uma empresa de equipamentos ópticos, a EyeNetra, na cidade de Cambridge.

As reuniões do PUB Boston inspiraram alguns de seus membros a reproduzir no Brasil um programa desenvolvido no México por pesquisadores mexicanos que atuam em Harvard: os chamados “clubes de ciência”, workshops de uma semana de duração para alunos do ensino médio ou no início da graduação promovidos por cientistas e instrutores treinados nos Estados Unidos. A iniciativa já teve duas edições no Brasil, ambas no campus da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O processo seletivo foi rigoroso: mais de mil inscritos para 80 vagas em cada edição. “A ideia é motivar jovens a seguir carreira científica. Eles colocam a mão na massa e se dedicam a assuntos de fronteira – como edição gênica e células-tronco. No último dia apresentam ao público e a suas famílias o que produziram”, diz a biomédica Bruna Paulsen, uma das organizadoras do programa – ela atualmente faz pós-doutorado no Departamento de Células-Tronco e Medicina Regenerativa da Universidade Harvard – juntamente com os biólogos David Soeiro e Rafael Polidoro e o administrador Marcos Bento. Além do Brasil e do México, o projeto também é realizado na Colômbia, Bolívia, Peru, Paraguai e mais recentemente na Espanha.

Comunidade de pesquisadores brasileiros nos Estados Unidos tem uma boa articulação, diz a socióloga Ana Carneiro

As redes também criaram estratégias para acolher recém-chegados, como a divulgação de manuais, escritos a várias mãos e disponíveis na internet, com dicas sobre como obter moradia, tirar documentos ou usar transporte público. Um guia elaborado por membros do PUB Filadélfia, por exemplo, sugere endereços de bons supermercados e alerta para o perigo de desligar o aquecedor central das casas e apartamentos durante o inverno – não há o que faça o encanamento descongelar depois.

Uma rede bastante produtiva surgiu há quatro anos em São Francisco, nos arredores do campus local da Universidade da Califórnia (UCSF). “Havia demandas dos pesquisadores brasileiros na região e também do consulado brasileiro em São Francisco para criar uma rede”, diz Tatiana Hochgreb, líder da iniciativa. “Fizemos um primeiro encontro no próprio consulado em 2014, que atraiu mais de 100 pessoas inscritas.” A experiência evoluiu e, hoje, o PUB-Tech-SF tem uma agenda de quatro reuniões por ano, sediadas em Stanford, São Francisco, Berkeley e no Vale do Silício. “Entre os palestrantes, misturam-se cientistas e profissionais de empresas da região – já tivemos palestras, por exemplo, com profissionais do LinkedIn e da Canon.” Os encontros têm apresentações curtas de projetos de impacto social – como uma iniciativa que buscava voluntários para organizar oficinas sobre ciências em eventos do projeto Histórias e Cantigas, realizado em uma biblioteca da região e destinado a crianças brasileiras. “Uma  cientista brasileira em Stanford passou uma tarde com as crianças realizando experimentos e conversando sobre densidade”, lembra Tatiana Hochgreb.

Clubes de Ciência BrasilFormada em ciências moleculares pela USP, ela foi para os Estados Unidos em 2005 fazer um estágio de pós-doutorado na UCSF e depois no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), em Pasadena, trabalhando no campo da biologia do desenvolvimento. Acabou ficando nos Estados Unidos por motivos familiares e, em 2015, resolveu mudar de área: trabalha no Lemann Center, na Universidade Stanford, em um projeto na área de educação cuja ambição é redesenhar currículos para melhorar o ensino de ciências nas escolas brasileiras. Segundo ela, o objetivo do PUB-Tech-SF é discutir temas de alto nível e “juntar gente diferente” para se conhecer. “A ideia é divulgar conhecimento de forma acessível, desmistificar a ciência e elevar o nível dos diálogos. As pessoas se sentem contentes de participar de conversas interessantes. Muitos estudantes  e também muitas pessoas de fora da academia que se interessam pelo conhecimento vão às reuniões, que são abertas e gratuitas.” Cerca de 70 mil brasileiros com formação superior vivem nos Estados Unidos, de acordo com dados do censo norte-americano de 2010. Parte desse contingente, que reúne pesquisadores e profissionais de alta qualificação, atua em universidades e empresas de tecnologia. “Há uma concentração de pesquisadores brasileiros nos Estados Unidos e essa comunidade tem boa articulação”, diz a socióloga Ana Carneiro da Silva, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da Universidade Estadual de Campinas (Nepp-Unicamp), que por encomenda da Embaixada do Brasil em Washington vai mapear as “redes de diáspora” brasileiras nos Estados Unidos (ver box) e o seu papel na cooperação em pesquisa.

Pontes para colaboração
Um levantamento divulgado pela Embaixada do Brasil em Washington mostrou que, enquanto as redes PUB se baseiam no intercâmbio de conhecimento, outras iniciativas dedicam-se a estabelecer pontes para colaboração com o Brasil, caso da BayBrazil, que promove intercâmbio entre empresas brasileiras e do Vale do Silício; a Brazilian Expert Network, formada por pesquisadores brasileiros radicados nos Estados Unidos e interessados em parcerias com o Brasil; ou a Brascon, uma plataforma de contatos entre a comunidade científica brasileira nos Estados Unidos e empresas, universidades, órgãos públicos e institutos de pesquisa do Brasil.

A SciBr Foundation, que articula as redes PUB, busca ampliar as conexões de pesquisadores brasileiros dentro dos Estados Unidos. “Nossa proposta inicial era mobilizar os bolsistas do programa Ciência sem Fronteiras e avaliar se bolsas adicionais a pesquisadores com alto potencial poderiam criar impactos científicos maiores, mas isso perdeu força com a desarticulação do programa”, explica Vitor Pamplona, diretor da SciBr. A organização trabalha para conectar pesquisadores brasileiros com empresas nos Estados Unidos. “Recebemos empresas do Brasil que querem montar escritórios ou unidades nos Estados Unidos e apresentamos pesquisadores que poderiam trabalhar para elas”, afirma.

Pamplona observa que a maior parte dos participantes das redes mantém o interesse de retornar ao Brasil após um período de estudo ou trabalho. “Eles quase sempre retornam, por questões familiares ou por interesse de fazer carreira no Brasil. Não é trivial fazer uma carreira em uma empresa nos Estados Unidos, onde a competição com profissionais de todas as partes do mundo é grande.” Pamplona calcula que, nos últimos anos, a SciBr conseguiu encaminhar cerca de 40 brasileiros para vagas em empresas nos Estados Unidos.

Mapeamento da diáspora

Até 2020, as redes de pesquisadores brasileiros nos Estados Unidos serão mapeadas em um projeto encomendado pela Embaixada do Brasil em Washington ao Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da Universidade Estadual de Campinas (Nepp-Unicamp). “Vamos levantar quem são esses brasileiros, onde estão e o que estão fazendo”, diz a socióloga Ana Carneiro da Silva, pesquisadora do Nepp-Unicamp. Ela coordena o projeto com  parceiros como Flavia Consoni, do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp, e Elizabeth Balbachevsky, do Núcleo de Pesquisas em Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP). “O objetivo é fazer um diagnóstico e propor políticas para compreender como a ciência do país pode obter ganhos com a circulação e fixação de brasileiros de alta qualificação nos Estados Unidos”, afirma. O grupo também vai fazer entrevistas com pesquisadores radicados nos Estados Unidos para entender a dinâmica das chamadas “redes de diáspora” e levantar iniciativas que eles julguem importantes para ampliar as conexões com a ciência brasileira.

O projeto começou a ser gestado no final de 2017, em um workshop sobre a diáspora brasileira em Washington, do qual o grupo do Nepp participou. Recentemente, a Embaixada do Brasil em Londres procurou a Unicamp com uma demanda semelhante. Por conta disso, Ana Carneiro e Flavia Consoni estão ajudando a organizar um workshop sobre a diáspora brasileira no Reino Unido. O encontro vai acontecer no dia 14 de fevereiro, durante uma edição do seminário FAPESP Week Londres, e reunirá especialistas em circulação internacional de talentos para discutir como o Brasil pode potencializar os benefícios de ter pesquisadores envolvidos com instituições da Grã-Bretanha. “Sabe-se que, em muitos lugares, as redes de diáspora não provocam uma perda de cérebros, mas criam conexões proveitosas para a comunidade científica do país, uma vez que a ciência trabalha cada vez mais em redes internacionais”, diz o engenheiro Euclides de Mesquita Neto, professor da Unicamp e coordenador-adjunto de programas especiais e colaborações em pesquisa da FAPESP.