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Resenha

Bento Prado Jr. interpreta Rousseau

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) tem uma obra eclética, que vai da crítica musical à teoria política, passando pelo romance, o teatro e a autobiografia. Muitas vezes, suas posturas parecem contraditórias, o que, somado ao seu temperamento difícil e um tanto paranoico, a contar pelas polêmicas e trocas de acusações em que se envolveu, lhe renderam a imagem de pensador errático e excêntrico. Isso levou muitos a tratarem sua obra como literária e não propriamente filosófica, ou então, como é comum, a pinçar em meio à diversidade dos gêneros os momentos propriamente filosóficos, como O contrato social, concentrando aí todo o interesse de Rousseau na filosofia.

A interpretação que Bento Prado Jr. faz dessa obra magistral, à beira do paradoxal, em A retórica de Rousseau, tem como marca a recusa da suposta oposição entre literatura e filosofia, assim como da pecha de excentricidade que se colou à obra. Para Bento Prado Jr., a obra de Rousseau tem um centro, que ele denomina retórico, e com alto valor filosófico, além de literário.

O livro trazido a público pela editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) é a reedição do livro organizado em 2008 por Franklin de Matos, onde se encontram pela primeira vez reunidos os escritos de Bento Prado Jr. sobre Rousseau, produzidos entre 1968 e 1977, precedidos por uma iluminadora e não menos elegante apresentação do organizador. O principal e o maior desses escritos estavam até então inéditos, outros haviam sido publicados em vida, dispersos em jornais e revistas. No conjunto, compõem o que teria sido o prometido livro de Bento sobre Rousseau, de cujo projeto seus colegas e alunos recebiam notícias, mas cuja publicação em vida, sabe-se lá por quais razões, sempre foi postergada.

O grande achado de Bento Prado Jr. está na teoria da linguagem que ele extrai do Ensaio sobre a origem das línguas, de Rousseau, para vê-la espraiada por toda a obra, como o seu núcleo e princípio de unidade. Para essa teoria, a linguagem – cuja origem está no grito, na espontaneidade do som, que, só num segundo momento, e como um desvio, se deixou ordenar pelas regras da gramática – define-se por sua função retórica, pela sua capacidade de comover, mover e conduzir à ação. Rousseau se afasta desse modo da teoria clássica, para a qual a linguagem desempenha um papel fundamentalmente figurativo ou representativo, para analisá-la a partir do que Bento Prado Jr. denomina um paradigma musical, profundamente comprometido com a força política dos discursos e com a trama intersubjetiva em que se tecem.

Feita essa análise, Bento Prado Jr. pode então mostrar como Rousseau faz ele próprio uso político da linguagem, ao explorar sua força retórica em diversos contextos, para fins específicos, sempre práticos e não propriamente teóricos, com o que se revela outro aspecto não menos original e importante do livro: o filósofo que emerge de suas páginas não é o Rousseau do direito público abstrato e idealizado dos manuais de filosofia política, mas um Rousseau atento às particularidades históricas, às variáveis geográficas, à especificidade dos costumes e às circunstâncias da ação. Essa atenção ao particular é o que permite explicar, entre outras, a aparente contradição da crítica ao teatro presente na Carta a D’Alembert da parte de um amante das artes cênicas que Rousseau efetivamente foi. É que, na Carta, trata-se de Genebra; o caso do teatro na França é outro.

Como se não bastasse, não é só uma belíssima e pungente interpretação de Rousseau o que encontramos no livro. Nele também se pode acompanhar o refinado esforço de Bento Prado Jr. para digerir as referências francesas de sua formação filosófica, em especial o existencialismo e o estruturalismo, de cujas aproximações da obra de Rousseau se vale, e as quais enfrenta, para fazer emergir desse embate um modo muito singular de compreender e fazer filosofia no Brasil. É o que se percebe já nas primeira páginas do livro, quando Bento Prado Jr. mobiliza Rousseau para contestar a universalidade do método estrutural de análise dos textos filosóficos, então em alta na Universidade de São Paulo (USP). Pois, assim como Rousseau, seu intérprete mostra-se perfeitamente consciente da situação em que se inscreve e opera o seu comentário, assim como de sua função retórica.

Maria Isabel Limongi é professora do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).