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Os impactos da globalização sobre São Paulo

Em 1973, 1,5% da população do município de São Paulo vivia em favelas; hoje, 19% moram nessa condição. A taxa de desemprego na Região Metropolitana de São Paulo era de 9,5% em maio de 1987; 10 anos depois, essa taxa alcançou 16%. Mas a mesma metrópole que apresenta esses índices de degradação é o lugar onde estão instaladas 96,6% das sedes dos bancos privados estrangeiros que atuam no país e 66,7% das sedes dos bancos comerciais privados brasileiros. São Paulo também abriga 67,5% das sedes de grupos privados estrangeiros no país e 43% das sedes de grupos privados nacionais.

Esses dados, que evidenciam, mais que simples contrastes, os abismos que separam as diferentes realidades circunscritas por essa metrópole – considerada a cidade global da América Latina -, são apenas exemplos das informações que vão estar reunidas e disponíveis, a partir do próximo ano, no primeiro banco de dados geo-referenciado já elaborado para uma capital brasileira.

É justamente na palavra geo-referenciado que está contida a grande inovação do banco. Ela indica que, além de reunir dados sócio-econômicos e urbanísticos reveladores das transformações sofridas por São Paulo entre os anos 70 e 90, antes dispersos, o novo banco os interliga ao espaço geográfico concreto da cidade. Um exemplo: a evasão da população de baixa renda para as áreas periféricas da capital paulista, nas últimas décadas, poderá ser, não só quantificada, mas visualizada em mapas animados, disponibilizados inicialmente em CD-ROM e possivelmente na Internet, mais adiante.

O inovador banco de dados é o principal produto do projeto temático São Paulo: Globalização da Economia e Impactos na Estrutura Urbana (1970-1990), apoiado pela FAPESP (R$25 mil) e desenvolvido por um grupo de nove pesquisadores da USP, ligados às áreas de Planejamento Urbano, Engenharia, Economia e Geografia, sob a coordenação da professora Sueli Ramos Schiffer, livre-docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP.

Outro resultado do projeto é uma reflexão crítica sobre as transformações urbanas vividas por São Paulo desde os anos 70. O pressuposto central da pesquisa era que tais mudanças foram e vêm sendo fortemente influenciadas pela globalização da economia. E, de fato, há fenômenos examinados no estudo em que se evidenciam efeitos desse processo, como a constituição de centros empresariais altamente especializados nas avenidas Paulista, Luís Carlos Berrini e Nova Faria Lima ou a vinda de lojas de grandes grifes internacionais para a capital paulista, em anos recentes.

Ainda assim, segundo Sueli Schiffer, “será impossível recortar com precisão quais transformações devem-se à globalização e quais decorrem exclusivamente das especificidades do desenvolvimento nacional”, porque os efeitos de uma coisa e outra aparecem muito imbricados no cenário urbano.

Teoria e prática
Toda a parte prática do projeto, iniciado em 1996 e com conclusão prevista para início de 1998, desdobrou-se numa espécie de contraponto ao estudo crítico da globalização. A análise teórica permitiu conceituar o que são cidades globais e, sobretudo, explicar porque São Paulo pode ser incluída entre elas – apesar de ser uma metrópole subordinada e dependente.

Nessa conceituação, os pesquisadores utilizaram os mesmos parâmetros propostos por uma pesquisa da Columbia University sobre cidades líderes da globalização – Nova York, Londres e Tóquio -, coordenada por Saskia Sassen, uma especialista em estudos urbanos. Nela, identifica-se entre as características da cidade global a centralização do controle do capital, o crescimento acelerado do setor de serviços (financeiros, inclusive) em detrimento do setor secundário, um processo de desindustrialização acelerado, o crescimento do desemprego para trabalhadores não qualificados, o crescimento do setor informal de trabalho e a maior valorização das áreas imobiliárias onde se instalam atividades e empresas inseridas no processo de globalização.

“Na verdade, a globalização determina a formação de uma rede de cidades que funcionam como nós, hierarquicamente dispostos, das transações comerciais e financeiras globalizadas”, diz Sueli Schiffer. Com base nessas definições é que São Paulo foi situada como cidade global, embora o lugar que lhe caiba na “rede hierarquizada” seja o de auxiliar do processo de globalização, e não o de líder. “Esta cidade funciona como um centro regional de decisões no processo econômico mundial”, diz Sueli Schiffer. Em São Paulo podem ser tomadas as decisões sobre o capital relativas ao Mercosul, à América do Sul e mesmo à América Latina.

Quanto à parte empírica do projeto, ela se baseia em grande medida em dados já levantados por várias fontes, principalmente IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, SEADE, Prefeitura Municipal de São Paulo, Companhia Metropolitana de São Paulo e a publicação Balanço Anual, da Gazeta Mercantil, entre outros.

Os pesquisadores trabalharam com informações sobre evolução das áreas construídas, verticalização, favelização, valorização da terra e densidade demográfica. Também usaram dados de produção industrial, do comércio e serviços das últimas décadas, indicadores de desconcentração industrial e de crescimento do setor terciário, dados sobre renda e emprego, entre outros – todos sempre articulados a sua ocorrência no espaço geográfico da metrópole.

Verticalização e evasão
“A globalização não é um processo novo nem é sinônimo necessariamente de modernidade ou qualidade de vida”, diz a professora da FAU. O lado positivo da cidade global, acrescenta, só existe em partes da cidade, mesmo entre as líderes da globalização. “Estamos falando de Manhattan e da London City. Ou, quando se trata de São Paulo, da Paulista, da Oscar Freire, dos Jardins, da Berrini”, diz.

Em áreas desse tipo, os índices de verticalização – um dos indicadores de impacto urbano da globalização – são com freqüência bem mais elevados que as médias das cidades. Assim, em São Paulo, enquanto os índices globais foram de 31,73% do total da área construída, em 1990, e de 34,31%, em 1995, de acordo com o cadastro TCPL, no distrito da Consolação eles foram de, respectivamente, 81% e 83%; no Itaim Bibi, de 58,8% e 64,1%; no Jardim Paulista, de 78,4% e 79,9%.

Indicador oposto à verticalização é a evasão da população mais pobre das áreas centrais para a periferia ou para municípios vizinhos. E há dados eloqüente em São Paulo retirados dos censos do IBGE pelos pesquisadores da USP. Pode-se verificar, por exemplo, que no distrito da Barra Funda, na área do centro de São Paulo, que tinha um contingente significativo de moradores de baixa renda, o número de domicílios decresceu 7,4% entre 1980 e 1991 e a taxa geométrica de crescimento da população, no mesmo período, foi negativa em 1,59% ao ano. Em contrapartida, no distrito de Guaianazes, periferia da zona leste, no mesmo período, o número de domicílios cresceu 163% e a população cresceu à taxa anual de 8,24%.

“É difícil determinar até que ponto isso resulta mais da evolução normal da estrutura da sociedade brasileira ou da globalização”, diz Sueli Schiffer. Mas tudo indica que há uma influência da globalização, na medida em que ela afeta fortemente o número de empregos, principalmente nos de menor qualificação (segundo a SEADE, 25% da população economicamente ativa de São Paulo já sobrevivem de atividades informais). “O desemprego força a migração para as periferias, a concentração maior de pessoas por domicílio (encortiçamento), a favelização, a invasão de áreas de mananciais, observando-se, por fim, um aumento da violência urbana”.

A questão que São Paulo deve enfrentar, nos próximos anos, é se manterá ou não sua posição especial na América Latina . “Queremos saber até que ponto a degradação da qualidade de vida e a dramática insuficiência de infra-estrutura moderna para uma cidade desse porte não deslocará o papel exercido por São Paulo para outro centro urbano”, diz ainda a coordenadora da pesquisa.

Seminário discute globalização

Está previsto para os dias 9 e 10 de setembro, no auditório da FAU, o seminário Globalização e Estrutura Urbana, ligado ao projeto de pesquisa sobre impactos da globalização em São Paulo. Mais de uma dúzia de conferencistas vai falar sobre diferentes aspectos dos efeitos da globalização sobre as cidades, entre eles a pesquisadora Saskia Sassen, da Columbia University, coordenadora de uma pesquisa sobre as principais cidades globais, Nova York, Londres e Tóquio.

Os temas das palestras e debates do primeiro dia são Características do processo atual da internacionalização da economia e As transformações nas relações regionais. No segundo dia serão apresentados e discutidos Os Impactos na infra-estrutura urbana e As transformações no mercado de trabalho.

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