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Estratégias

Ciência do próximo século em debate

No encerramento da Conferência Mundial Sobre Ciência para o Século 21: um novo compromisso , realizada em Budapeste de 26 de junho a 1º de julho, com a participação de delegações de quase 150 países, os organizadores divulgaram duas longas relações de diretrizes e de princípios para implementar o que foi chamado um novo contrato social entre ciência e sociedade. Os documentos, incluídos no boletim da revista científica britânica Nature , divulgados em 2 de julho, trazem sugestões específicas para que os países participantes da conferência, entre outras providências, aumentem seu apoio às instituições de graduação e de pós-graduação, enfatizem a capacitação de jornalistas científicos e criem mecanismos participativos adequados ao debate sobre políticas científicas.

Duas propostas mereceram destaque. A primeira foi de que a ética e a responsabilidade social devem ser parte da formação de todos os cientistas e a segunda prega o lançamento de campanhas de conscientização sobre as contribuições das mulheres para a ciência e tecnologia, recomendando a instalação de uma rede internacional de mulheres cientistas. Estas duas idéias estão entre uma série de recomendações para fortalecer a posição das mulheres na ciência, e foram incluídas depois de um lobby vigoroso dos grupos femininos. As diretrizes estabelecidas também estimulam esforços para garantir a participação de deficientes em ciência e tecnologia e sua presença em fóruns e grupos formuladores de política científica.

No preâmbulo daAgenda para a Ciência – Estrutura para a Ação , elaborado ao final do encontro – que foi patrocinado pela Organização para Educação, Ciência e Cultura das Nações Unidas (UNESCO) e Conselho Internacional para a Ciência (ICSU) – os participantes declaram que uma das metas mais nobres é avançar nos objetivos de paz internacional e bem-estar da humanidade, enfatizando os efeitos desfavoráveis que muitas vezes acompanham as ciências naturais e a necessidade de entender seu impacto sobre a sociedade.

Além dos objetivos apresentados na introdução, os 96 pontos do documento foram divididos em três partes: ciência e conhecimento, conhecimento para o progresso; ciência para a paz e para o desenvolvimento; e ciência na sociedade e ciência para a sociedade. Em cada item, foram valorizadas questões como o papel da pesquisa fundamental, as necessidades humanas básicas relativas ao ambiente, educação, tecnologia e política, e questões éticas vinculadas à participação, exigências sociais e dignidade humana.

Outro documento, aDeclaração Sobre Ciência e o Uso do Conhecimento Científico , foi organizado a partir dos mesmos temas. Entretanto, inclui todos os campos da ciência em seus princípios: todas as culturas podem contribuir com conhecimento científico de valor universal. De acordo com aDeclaração , redigida em 46 pontos, as ciências devem estar a serviço da humanidade, contribuindo para oferecer uma profunda compreensão da Natureza e da sociedade, assim como a melhor qualidade de vida e um meio ambiente sustentável e saudável para as futuras gerações.

O documento reconhece que o futuro depende intrinsecamente da manutenção dos sistemas de apoio a todas as formas de vida e convoca as nações e chama a atenção de cientistas de todo o mundo sobre a urgência em utilizar e valorizar conhecimentos adquiridos em todas as áreas, de maneira responsável, para atender às necessidades humanas.

Antes de Budapeste, a última conferência havia sido realizada em 1979, em Viena, Áustria. Mas apesar do longo intervalo de tempo decorrido, mesmo os mais céticos admitiram que valeu a pena esperar pelo encontro deste ano, na Hungria. Aqueles que esperavam o início de uma nova era na relação entre ciência e sociedade voltaram para casa decepcionados, segundo a revista; os que temiam uma discussão inútil, entretanto, foram positivamente surpreendidos pelo conteúdo de alto nível dos debates. Agora, a tarefa é transformar as diretrizes estabelecidas nos documentos em políticas eficazes.

Para os representantes de países em desenvolvimento, de acordo com o boletim daNature , a conferência foi uma rara oportunidade de acesso direto aos formuladores de políticas científicas e às agências de financiamento de países desenvolvidos, além de uma melhor compreensão da diplomacia internacional. Entretanto, não foram concretizados muitos acordos de seu interesse, como a criação de um fundo global para a ciência. Um dos membros da delegação das Filipinas, por exemplo, afirmou que o novo compromisso proposto na conferência deveria ser acompanhado pela criação de um mecanismo de financiamento, a exemplo do que aconteceu no Rio de Janeiro, em 1992, e em Montreal, em 1987.

Outras delegações de países em desenvolvimento consideraram inadequada a preparação para a conferência. Eles expressaram sua preocupação com a falta de encontros oficiais preparatórios, semelhantes aos realizados nas conferências das Nações Unidas. Estes encontros permitem a formação de alianças para apresentar reivindicações comuns e o planejamento prévio de uma estratégia para atingir seus objetivos em assuntos como um sistema mais equitativo sobre os direitos da propriedade intelectual.

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