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Educação

De casa, pelo computador

Pesquisa investiga técnicas de ensino a distância para comprovar resultados e disseminar seu uso

RAFAEL JACINTO / VALORComputadores na escola: ensino a distância não deve substituir a atividade convencionalRAFAEL JACINTO / VALOR

A educação a distância (EAD) é uma metodologia de ensino difundida no Brasil desde a década de 30 e sua eficácia vem sendo comprovada com o passar dos anos no mundo todo. No sistema educacional brasileiro, esse sistema concretizou-se depois de experiências bem-sucedidas, como a criação do Movimento de Educação de Base, que tinha como objetivo iniciar o processo de alfabetização de jovens e adultos das regiões Norte e Nordeste por meio de “escolas radiofônicas”. O avanço da tecnologia, principalmente no setor da comunicação, e o surgimento de sistemas altamente interativos permitiram o aprimoramento das técnicas de educação a distância e o surgimento de outros sistemas.

O mais polêmico deles, talvez por ser também o mais ousado, é a Educação a Distância Mediada por Computador (EDMC). Esse sistema já é bastante difundido nos Estados Unidos, mas no Brasil está apenas em fase inicial em algumas universidades e ainda provoca muita discussão no meio acadêmico. Para investigar a metodologia EDMC e sua proposta no âmbito do ensino profissional, desenvolver e aprimorar suas técnicas, consolidar experiências que deram certo e comprovar sua eficácia, Maurício Prates de Campos Filho elaborou o projeto Pesquisa sobre a Metodologia Educação a Distância Mediada por Computador e Sua Aplicação às Necessidades de Formação Profissional no Estado de São Paulo, que contou com o apoio da FAPESP.

Prates é engenheiro aeronáutico e professor das Faculdades Integradas de São Paulo (Fisp). Coordena desde abril do ano passado dez professores, que estão recebendo treinamento para ministrar aulas a distância para, em seguida, desenvolverem novos programas de ensino. A pesquisa está sendo desenvolvida em parceria entre a Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCamp) e o Centro de Estudos Paula Souza (CEETEPS). A primeira fase deve ser encerrada em abril de 2003 e a segunda, que se inicia em maio do mesmo ano, está prevista para ser concluída em 2007. A FAPESP financiou parte do projeto – orçado em R$ 60.200 – concedendo bolsas de desenvolvimento técnico para os estudantes. “A primeira etapa já está praticamente concluída”, diz Prates. “Os professores do CEETEPS que foram treinados atuarão como multiplicadores do sistema”, explica o pesquisador.

A metodologia EDMC (já registrada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial do Ministério do Desenvolvimento e na Biblioteca Nacional) é formada por um conjunto de métodos pedagógicos construtivistas com interação educacional a distância, mediada e suportada por redes de computadores. “O conceito fundamental dessa metodologia é a Unidade de Aprendizado (UA), base para o aluno a distância ‘aprender a aprender’ e ‘aprender a fazer’, em vez daquela abordagem puramente cognitiva que domina os processos convencionais de ensino presencial”, explica o professor. “O primeiro uso oficial desse sistema no Brasil será feito pelo Centro Paula Souza quando terminarmos a pesquisa.”

Eficiência
A polêmica que a metodologia EDMC ainda causa deve-se, grande parte, à crítica que ela faz ao sistema educacional convencional. Esse novo método propõe discutir a eficiência pedagógica no sistema baseado no uso exclusivo da sala de aula, de forma sincronizada e exigindo presenças física e simultânea de um instrutor de alunos. A EDMC baseia-se em condições assíncronas de aprendizado, que podem ser combinadas parcialmente com o sistema convencional. O aluno é o gestor de sua aprendizagem e escolhe os horários e ambientes mais adequados para estudar. “Mas o meio acadêmico brasileiro mostra um ranço desmesurado com relação à educação a distância”, diz. “Nos Estados Unidos já são oferecidos mais de mil cursos de pós-graduação de MBA, mestrado e doutorado a distância ou semipresenciais.”

Apesar disso, os defensores da educação a distância ressaltam que essa metodologia não deve – nem pode – ser vista como substituta da educação convencional e presencial porque são duas modalidades diferentes de um mesmo processo. A EAD apresenta como diferencial a separação física e temporal entre os processos de ensino, e o desafio dos educadores é combinar a ação de uma e outra metodologia. A EDMC tem ainda mais uma característica, que é a possibilidade de dispor de modernas tecnologias que permitem o oferecimento de várias combinações de ferramentas pedagógicas. De acordo com Prates, não existem desvantagens para a sua aplicação. Esse sistema pode contribuir até mesmo para tornar viáveis redes acadêmicas cooperativas, que poderão agrupar em um mesmo curso alunos e docentes distantes geograficamente.

“Nossa intenção é abrir essa metodologia para o uso do CEETEPS para desenvolvê-la e ajustá-la ao ensino técnico.” Em boa parte do mundo, principalmente nos países desenvolvidos, a adoção da metodologia EDMC está em crescimento. A maior universidade on-line do planeta é norte-americana. A Electronic University Neework fica na Califórnia e foi fundada há mais de 15 anos. Seus cerca de 300 cursos já formaram mais de 25 mil alunos. No Brasil, antes da elaboração desse projeto, professores especializados treinaram cerca de uma centena de outros professores em vários pontos do Estado de São Paulo. Por isso, já há alguns cursos universitários disponíveis em metodologia EDMC.

Informática
A PUCCamp oferece uma opção nessa metodologia nas disciplinas de mestrado em Informática, voltada para a área gerencial de sistemas de informação. O sistema foi implantado formalmente nesse curso em 1998 e, a partir daí, a universidade registrou um aumento na procura. Atualmente, esse mestrado atende a mais de 150 alunos que vivem em diferentes Estados do Brasil e têm de comparecer à universidade apenas três vezes por semestre letivo.

A Universidade Católica de Brasília (UCB), depois do sucesso alcançado pela PUCCamp, implantou o sistema em um curso de mestrado em Gestão de Tecnologias da Informação. Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) já há um programa de pós-graduação com mestrado e doutorado em Engenharia de Produção que envolve uma rede estadual de mais oito universidades oficiais e privadas. O Centro de Informática na Saúde da Universidade Federal de São Paulo oferece pela Internet programas de educação em Biologia Molecular e Engenharia Genética.

A pesquisa que está sendo coordenada por Prates tem como interesse principal a implantação dessa metodologia apenas no ensino técnico do Estado de São Paulo. “Inicialmente, não temos pretensões nacionais”, diz. Apesar de estar ainda na primeira fase do estudo, o pesquisador diz que já foi possível tirar a primeira – e talvez mais importante – conclusão de sua análise. “A metodologia EDMC permitirá a democratização do acesso aos cursos técnicos.”

O projeto
Pesquisa sobre a metodologia EDMC (Educação a Distância Mediada por Computador) e sua aplicação às necessidades de formação profissional no estado de São Paulo (nº 00/11567-1); Modalidade Projeto temático; Coordenador Maurício Prates de Campos Filho – Faculdades Integradas de São Paulo (Fisp); Investimento US$ 5 mil

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