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Música

Na onda da música e da tecnologia

Eventos dedicados à sonologia mostram que som e ciência encontraram um novo ritmo

Móbile feito com vergalhões de construção e ossos de vaca, de autoria de Augusto Piccinini, João Mascaro e Vinícius Fernandes, transmite mensagens motivacionais e frases de autoajuda

Léo Ramos Chaves

A relação entre música e ciência, já milenar, vem se tornando mais sólida nos últimos anos com o desenvolvimento de recursos tecnológicos, dando origem a novas áreas de pesquisa no campo da sonoridade – até meados do ano 2000 estudada principalmente por meio de teorias da própria música. “Havia um predomínio de pesquisas voltadas apenas para questões que são internas à linguagem musical”, explica Fernando Iazzetta, pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Sonologia (NuSom) da Universidade de São Paulo (USP). “Foram os equipamentos criados em laboratório, ainda no século passado, por engenheiros de áudio franceses e alemães que deram novos rumos para a forma como fazemos e pesquisamos música”, completa Iazzetta, também professor do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP).

O interesse crescente por esse campo do conhecimento pode ser conferido durante a segunda edição do Sonologia – International Conference on Sound Studies, realizado em meados de abril, em São Paulo. O encontro reuniu dezenas de pesquisadores de diversas partes do mundo para discutir e expor trabalhos relacionados a políticas de som, crítica cultural e tecnológica, arte sonora, fonografia urbana, ecologia acústica, nova musicologia e outras epistemologias sonoras, evidenciando a interdisciplinaridade do tema. Na mesma linha, a arte sonora é o tema da exposição Sons de silício – Luteria experimental, aberta ao público até 26 de abril, no Espaço das Artes na Cidade Universitária.

Léo Ramos Chaves Sons de voz pré-gravados permitem ao visitante criar composições na obra Opus V, para teclado de vozes (2018), de autoria de Marina MapurungaLéo Ramos Chaves

Dessa nova abordagem sobre os estudos musicológicos surgiu o conceito de “sonologia”. Criado no Brasil em 2006, o termo trata da reflexão sobre processos interativos de produção musical levando-se em consideração os recursos tecnológicos da chamada computer music. “Essa é uma área de pesquisa bastante recente, que, além da forte conexão com o fazer musical por meio do computador, também está ligada aos programas de análise e de síntese sonora, hoje responsáveis pelas recomendações musicais que recebemos, por exemplo, em nossos smartphones”, diz Iazzetta. Foi a partir do interesse científico em torno dessa temática que nasceu o NuSom, coordenado pelo pesquisador. Na pesquisa acerca dos processos interativos de produção musical, o NuSom se baseia nos princípios da gestualidade, que envolve os estudos dos movimentos aplicados à performance musical, nos processos analíticos, com investigações de repertórios musicais e sonoros e na produção sonora propriamente dita, com trabalhos que exploram questões teóricas e conceituais de maneira mais ampla.

A sistematização dos estudos de sonologia remete ao início da década de 1950. Foi nessa época que ganhou fôlego o movimento da chamada música eletroacústica, representada pela musique concrète francesa e o trabalho pioneiro do compositor francês Pierre Schaeffer (1910-1995) e da elektronische Musik alemã, representada por nomes como o do compositor alemão Herbert Eimert (1897-1972) e o do físico belga naturalizado alemão Werner Meyer-Eppler (1913-1960), fundadores do estúdio de Colônia, e o compositor Karlheinz Stockhausen (1928-2007), também alemão. Tais experimentações resultaram na produção de um gênero musical que desafiou a maneira como os espectadores recebiam as informações.

Em vez de instrumentos tradicionais, na elaboração de suas peças esses compositores utilizavam gravações de sons da natureza, de ruídos resultantes da manipulação de objetos ou do uso de equipamentos industriais. Marco importante na história da música contemporânea, a partir desses experimentos tornou-se possível não apenas produzir novos tipos de concertos, mas também reproduzi-los de maneira sintética, com equipamentos eletrônicos. “Boa parte do aparato tecnológico que conhecemos hoje, como sintetizadores, gravadores e mixers, vem dessa época”, conta Iazzetta. As experimentações da música eletroacústica também constituem a base do que hoje conhecemos como música eletrônica.

Sem compromisso com o entretenimento, como observa o ensaísta, poeta e tradutor Augusto de Campos em Música de invenção (1998, Editora Perspectiva), que trata, dentre outros assuntos, do que denomina de pós-música, esse tipo de produção exige aprofundamento da sensibilidade e ampliação do conhecimento. “A música experimental se contrapõe aos valores estabelecidos comercialmente. Não é uma música para dançar ou para ouvir durante as refeições porque demanda um pouco mais de atenção”, diz Iazzetta. Na originalidade dessa categoria de produção reside um de seus desafios à ciência. “Por envolver transformação de linguagem, novas tecnologias e a quebra da relação palco-plateia, estando mais para o campo da performance instalativa, pesquisá-la demanda um novo tipo de investigação”, completa.

Léo Ramos Chaves A visualização de dados astronômicos por meio do som é a proposta da obra R Scuti (2018), do Grupo RealidadesLéo Ramos Chaves

Exposição sonora
Com curadoria do sonólogo colombiano Julian Jaramillo Arango, a mostra Sons de silício – Luteria experimental reúne 20 trabalhos artísticos, muitos deles produzidos em laboratório a partir de pesquisas científicas. “O que quisemos apresentar aqui foi o encontro entre música, ciência e pesquisa, considerando o caráter interdisciplinar dos estudos do som e reunindo elementos da acústica, física, matemática e arquitetura”, explica Arango. O evento faz parte da 15ª edição da série ¿Música?, organizada desde 2006 pelo NuSom com o objetivo de apresentar trabalhos musicais baseados no experimentalismo e no caráter crítico das tecnologias de produção sonora. “Foi a forma que encontramos de aproximar o público do que se produz na academia”, completa Arango, que reuniu o acervo como parte de sua pesquisa de pós-doutorado recém-concluído na ECA-USP.

Destaque da exposição, a obra Buzu transformou em arranjos sonoros e visuais os deslocamentos realizados durante uma semana pela frota de ônibus que circula na cidade de São Paulo. O trabalho foi feito em parceria com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Internet do Futuro para Cidades Inteligentes (INCT-InterSCity), que utiliza informações geradas pelo sistema de transporte em uma de suas linhas de pesquisa. “A partir desses dados, conseguimos calcular como se comporta o sistema de transporte em relação à quantidade de ônibus em cada horário e de acordo com seus percursos, regiões com maior trânsito e, por consequência, maior lentidão”, explica Fabio Kon, do Instituto de Matemática e Estatística (IME-USP) e coordenador do INCT. Reunidas em uma base de aproximadamente 70 gigabytes, as informações de tais arquivos foram convertidas por Arango em estruturas acústicas que representam o trajeto, a direção e a velocidade de cada um dos veículos das 2.183 linhas de ônibus mapeadas.  “Todo ônibus tem um GPS que gera dados novos a cada momento. A partir dessas informações criamos uma sonificação que corresponde à movimentação da frota entre 22 e 28 de outubro de 2017”, diz Arango.

Léo Ramos Chaves Julian Jaramillo Arango, curador da exposição Sons de Silício, em instalação da obra Buzu (2019), que transforma em sons a movimentação da frota de ônibus da cidade de São PauloLéo Ramos Chaves

Definida como uma técnica de transposição de dados visuais ou físicos em estruturas audíveis, a sonificação é um dos principais conceitos trabalhados atualmente nos estudos da sonologia. As pesquisas nesse campo vão desde a área médica, com a obtenção de diagnósticos microbiológicos a partir de ondas sonoras, até prognósticos de clima e de sismologia, devido à capacidade que a sonificação possui de transformar vibrações e tremores em estruturas perceptíveis à audição. “A sonificação materializa o aspecto híbrido entre arte e ciência”, sintetiza Arango.

A concepção também está presente em Sonhofonias, obra realizada por Arango em parceria com o musicólogo Pedro Paulo dos Santos, pesquisador do Grupo de Práticas Interativas (GPI) do NuSom. A partir da sonificação de uma polissonografia (exame feito durante o sono) realizada no filho de Santos, a instalação traduz em sons os conteúdos do inconsciente humano. Para ouvi-los misturados a relatos do Livro vermelho, de autoria do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), o visitante da mostra é convidado a acomodar-se em um divã.

Léo Ramos Chaves A obra Sonhofonias (2018/2019), de Pedro Paulo Santos e Julian Jaramillo Arango, que traduz em sons os conteúdos do inconsciente humanoLéo Ramos Chaves

Ouça um trecho da obra Buzu, de autoria de Julian Jaramillo Arango, Fernando Iazzetta e Esteban Viveros. O registro corresponde à movimentação de todos os ônibus da cidade de São Paulo em 25 de setembro de 2017, entre 9 h e 12h30.

     

Projetos
1. INCT 2014: InterSCity – Internet do futuro (nº 14/50937-1); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Alfredo Goldman vel Lejbman (USP); Investimento R$ 1.252.910,29.
2. MCTI 2015: InterSCity – Internet do futuro aplicada a cidades inteligentes (nº 15/24485-9); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Alfredo Goldman vel Lejbman (USP); Investimento R$ 1.039.615,59.
3. Sonologia 2019 – I/O: International Conference on Sound Studies (nº 18/24572-7); Modalidade Organização de Reunião Científica; Pesquisador responsável Fernando Iazzetta (USP); Investimento R$ 24.576,00.
4. Networked music: criação e performance musical colaborativa no âmbito das redes de informação (nº 10/12514-0); Modalidade Bolsas no Brasil – Doutorado; Pesquisador responsável Fernando Iazzetta (ECA-USP); Bolsista Juan Jaramillo Arango; Investimento R$ 140.719,95.

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