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Obituário

Morre Maurício Peixoto, criador do Impa

Pesquisador cearense integrava a primeira geração de matemáticos profissionais do país

Divulgação ImpaMaurício Peixoto no Impa em janeiro de 2018, por ocasião do anúncio da entrada do Brasil na elite da União Matemática InternacionalDivulgação Impa

Um dos integrantes da primeira geração de matemáticos profissionais do Brasil, Maurício Matos Peixoto foi um dos articuladores da criação do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), na década de 1950, a primeira unidade de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do qual foi presidente de 1979 a 1980. Ele também presidiu a Academia Brasileira de Ciências (ABC), de 1981 a 1991. Peixoto, que nasceu em Fortaleza, no Ceará, morreu no Rio de Janeiro em 28 de abril, aos 98 anos.

“Ele acreditava na matemática quase como um sacerdócio, ao qual se dedicava de maneira plena”, contou o matemático Marcelo Viana, diretor-geral do Impa. Em 2010, Viana se prontificou a fazer uma seleção de artigos de Peixoto, já com 89 anos e então professor emérito do instituto. “Depois de fugir de mim, ele me perguntou se não poderia esperar mais um ano ou dois, porque estava fazendo um trabalho que seria culminante da obra dele. Parecia que o tempo não passava para ele.”

A habilidade de Peixoto para a matemática mostrou-se primeiramente de modo inverso, ao ser reprovado nas provas dessa disciplina na segunda série do primeiro grau (atual ensino fundamental) no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Nas aulas de reforço, porém, contagiou-se com o entusiasmo do professor, um amigo da família. Recuperou as notas, passou de ano e decidiu que seguiria alguma profissão que dependesse da matemática.

Como os cursos universitários de matemática eram raros – o primeiro fora criado em 1934 na então recém-criada Universidade de São Paulo (USP) –, Peixoto foi para a Escola de Engenharia da Universidade do Brasil, depois renomeada como Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Formou-se em 1942, terminou o doutorado em 1945 e conseguiu o registro de engenheiro, mas não quis trabalhar na área. Preferiu lecionar matemática até ser contratado em 1947 pela Escola de Engenharia. Entre 1949 e 1951 foi professor visitante na Universidade de Chicago e, entre 1957 e 1958, na Universidade de Princeton, ambas nos Estados Unidos.

Divulgação Impa No 1º Colóquio Brasileiro de Matemática, em 1957: Peixoto, de óculos, é o terceiro da fila da frente, e sua primeira mulher, Marília, está na ponta direita da mesma filaDivulgação Impa

Ao voltar do primeiro período no exterior, em 1952, foi um dos que propuseram a criação do Impa, ao lado de dois ex-colegas de faculdade: o pernambucano Leopoldo Nachbin (1922-1993) e o carioca Lélio Gama (1892-1981). Peixoto especializou-se em geometria e topologia, ramo da matemática que estuda propriedades espaciais que não se alteram quando os objetos que as possuem passam por certas espécies de transformação contínua. “Apesar de ser um matemático puro, ele sempre conseguia transformar em figuras geométricas os conceitos que pretendia passar”, observou o matemático e professor da USP Pedro Leite da Silva Dias, hoje diretor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG).

O pesquisador do Impa também criou o Teorema de Peixoto, apresentado em artigos publicados em 1959, 1962 e 1963. O teorema retomava o conceito de estabilidade estrutural de sistemas dinâmicos, proposto em 1937 por dois soviéticos, o físico Aleksandr Aleksandrovich Andronov (1901-1952) e o matemático Lev Pontryagin (1908-1988). Sistemas, fenômenos que envolvem objetos em interação causal, são dinâmicos se comportam estados que se transformam ao longo do tempo segundo uma lei matemática. Um sistema dinâmico é estruturalmente estável se uma ligeira modificação na lei de transformação de seus estados não afeta suas propriedades topológicas.

O teorema demonstrado por Peixoto enuncia condições matemáticas necessárias e suficientes para que uma espécie de sistemas dinâmicos, chamados bidimensionais autônomos, seja estruturalmente estável. Segundo o matemático Tiago Carvalho, professor da USP em Ribeirão Preto, o teorema pode ser aplicado para entender fenômenos como o funcionamento de máquinas, reações químicas, relações entre predador e presas ou evolução de doenças.

Divulgação Impa O matemático apostou na transformação por meio da educação, dedicando-se a escola no município de PetrópolisDivulgação Impa

“Esse foi o primeiro teorema de alto nível na área de sistemas dinâmicos”, afirmou Viana. Segundo ele, o trabalho de Peixoto teve também importância histórica, porque fortaleceu a interação com os matemáticos das universidades de Chicago e da Califórnia (UC), em Berkeley, nos Estados Unidos, motivando-os a trabalhar mais intensamente nessa área e a receber jovens como o mineiro Jacob Palis. O então estudante Palis fez o doutorado na UC (1967) e, anos depois, presidiu o Impa (1993-2003) e a ABC (2007-2016).

Entre 1964 e 1970 Peixoto foi professor na Universidade Brown, em mais uma temporada nos Estados Unidos. Na volta, lecionou no Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, de 1973 a 1978. Era muito amigo do matemático Candido Lima da Silva Dias, professor do IME e pai de Pedro Dias: “Eles varavam a noite conversando sobre política e matemática. Aprendi com eles a importância de as pessoas se articularem, apesar das divergências, em busca de objetivos mais amplos”, comentou.

No final de 2007, ao assumir a diretoria do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), Pedro Dias pediu para conhecer a escola rural de ensino básico de que Peixoto cuidava, no município de Petrópolis, no Rio de Janeiro, que recebia apoio do instituto desde a gestão anterior.

“Lembro do brilho dos olhos do Maurício ao mostrar a escola e falar da meninada da roça, como ele dizia”, comentou Dias. O LNCC manteve o apoio ao liberar técnicos e estudantes para instalar ou consertar equipamentos e redes de computadores na escola, que Peixoto havia herdado de sua primeira mulher, Marília Chaves (1921-1961), também engenheira e matemática – a primeira mulher a ingressar na ABC, em 1951. “Ele estava sempre bem-humorado e otimista, dizendo que havia jovens brilhantes no Impa e nas universidades”, observou Dias.

Peixoto casou-se três vezes – com Marília, Maria Lucia Alvarenga e Alciléa Augusto – e teve quatro filhos, Martha, Marcos, Elisa e Ricardo.

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