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Comunicação

O desafio dos portais acadêmicos

Falta divulgação acessível de resultados científicos na maior parte dos sites de universidades brasileiras

Sites da Unicamp e da USP serviram de exemplo para outras iniciativas no país

Reprodução

O reconhecimento público de cientistas e de suas contribuições para a sociedade depende, em boa medida, dos esforços de comunicação das universidades públicas, hoje responsáveis por mais de 95% da produção científica brasileira. Porém a divulgação de resultados de pesquisas não parece ser uma prioridade para a grande maioria das instituições, conforme aponta um levantamento preliminar feito em junho por um grupo da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná. Salvo exceções, observou-se que a maior parte das informações veiculadas nos sites oficiais de aproximadamente 300 instituições de ensino superior municipais, estaduais e federais trata de assuntos de interesse da própria comunidade acadêmica, como assinaturas de convênios, lançamento de editais e solenidades. “Por mais que os reitores tenham de prestar contas de suas atividades de gestão, há um desequilíbrio nos conteúdos veiculados pelas assessorias de imprensa das universidades”, afirma André Azevedo da Fonseca, professor e pesquisador do Centro de Educação, Comunicação e Artes da UEL e coordenador da pesquisa.

Para ele, as assessorias deveriam se ocupar mais da divulgação dos resultados de trabalhos acadêmicos desenvolvidos por professores e alunos do que de assuntos de interesse exclusivamente interno. “É preciso mobilização das universidades para comunicar a sociedade sobre a importância da pesquisa científica na vida das pessoas”, diz Fonseca, que utilizou as conclusões do levantamento para embasar o desenvolvimento do portal Brasil Ciência que será lançado oficialmente em setembro. Trata-se de uma plataforma para apoiar a divulgação de notícias sobre pesquisas realizadas em instituições públicas do país. “O objetivo é fazer uma curadoria dos press releases publicados nos sites das instituições, facilitando o acesso da imprensa e da sociedade em geral a esses conteúdos”, explica Fonseca. Entre as iniciativas divulgadas de maneira experimental no site, há um sistema de bombeamento de água usando energia solar, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Piauí, e um projeto de reintrodução de animais na natureza conduzido por grupos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Entre as exceções apontadas por Fonseca estão as universidades de São Paulo (USP) e Estadual de Campinas (Unicamp), cujos sites dedicam espaço considerável para a divulgação científica, segregando, por meio de editorias, as notícias sobre pesquisas daquelas voltadas exclusivamente ao público interno, diz Fonseca. De acordo com ele, o levantamento se concentrou nos portais, por considerá-los a principal ferramenta de acesso a informações oficiais sobre cada universidade. Os sites das duas instituições paulistas costumam dar destaque para manchetes que atraiam a atenção do público e de jornalistas. “Recentemente, divulgamos reportagens e conteúdo audiovisual para explicar à população a importância do investimento público em pesquisa e desfazer mitos sobre a universidade pública”, diz o jornalista Luiz Roberto Serrano, superintendente de Comunicação Social da USP, órgão responsável pelo Jornal da USP, publicado em versão on-line, e a Rádio USP, cujos conteúdos alimentam o portal da universidade. O objetivo, explica ele, foi ajudar a combater a onda de desinformação sobre instituições de ensino e pesquisa.

“É preciso encarar a comunicação institucional como um serviço público destinado a atender os interesses da sociedade e não apenas da comunidade acadêmica”, afirma o físico Peter Schulz, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp e secretário executivo de Comunicação da mesma instituição. Nos últimos anos, o site da Unicamp passou por reformulações a fim de privilegiar a publicação de notícias produzidas pela equipe do Jornal da Unicamp, lançado em 1986 pelo jornalista Eustáquio Gomes (1952-2014). Disponível apenas na versão on-line desde 2016, a publicação divulga diariamente resultados de pesquisas feitas por professores e alunos da Unicamp em todas as áreas do conhecimento. O jornal também publica entrevistas com especialistas abordando assuntos da atualidade e mantém seções de resenhas de livros e links para conteúdo da Web Rádio Unicamp e o canal da instituição no YouTube.

ReproduçãoInstituições norte-americanas já têm mais tradição em divulgar resultados de pesquisaReprodução

Para André Fonseca, da UEL, instituições como USP e Unicamp realizam ações de divulgação científica tais como as observadas nos Estados Unidos, onde instituições como as universidades Harvard e de Princeton e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) destacam-se na produção de conteúdo noticioso sobre pesquisas e projetos de extensão realizados em cursos de graduação e programas de pós-graduação. Quando não é replicado por veículos de mídia, boa parte dos textos e vídeos divulgados por essas universidades ajuda a pautar jornalistas de todo o mundo. Há também espaço para a publicação de artigos de opinião escritos por especialistas, tratando de temas da atualidade. “Essa é uma estratégia de comunicação interessante, porque insere a universidade em debates públicos do momento”, ressalta Serrano. Além de ter a participação de professores como colunistas, o Jornal da USP, diz Serrano, também produz reportagens sem necessariamente divulgar resultados de pesquisas, mas expondo a visão de estudiosos sobre assuntos como reforma da previdência, surto de sarampo e desmatamento da Amazônia. “É uma forma de mostrar como o conhecimento gerado na universidade pode contribuir para a solução de problemas concretos da sociedade.”

A atuação das universidades paulistas no campo da divulgação da ciência tem inspirado outras instituições, como a Universidade Federal de Goiás (UFG), que reformulou seu site em 2018 a fim de dar mais destaque aos trabalhos de professores e alunos. “O portal da UFG continua fazendo o papel de disseminar informações institucionais, mas também traz o Jornal UFG que busca em sua produção valorizar a divulgação científica”, conta Carolina Melo, editora do Jornal UFG, que veicula notícias e conteúdos audiovisuais produzidos pela TV UFG e a rádio universitária. “Uma vez por mês publicamos uma reportagem especial, utilizando recursos multimídia como vídeos e infográficos, para discutir temas como a crise da educação no Brasil”, explica Kharen Stecca, também editora do Jornal UFG. A iniciativa, diz ela, tem ajudado a impulsionar o acesso ao site da universidade. “As reportagens têm maior circulação na sociedade e são mais compartilhadas nas mídias sociais quando abordam grandes temas em discussão na esfera pública.”

Dar mais ênfase à divulgação científica, porém, não é garantia de que o site de uma universidade será mais acessado pelo público externo, avisa André Fonseca. “Muitos portais estão obsoletos do ponto de vista tecnológico, o que prejudica seu acesso”, diz. “Também é fundamental que o portal tenha um mecanismo de buscas internas eficiente.” Em abril, a Universidade Federal Fluminense (UFF) lançou uma plataforma inteiramente voltada a facilitar a busca de especialistas por jornalistas e pela sociedade em geral. Por exemplo, ao fazer uma busca por autismo no portal Pesquisadores UFF é possível identificar quais pesquisadores da instituição tratam desse tema e o que eles já publicaram sobre autismo.

Outra iniciativa foi lançada em julho pelas universidades federais de São Paulo (Unifesp), de São Carlos (UFSCar) e do ABC (UFABC). O portal, batizado de Federais SP, pretende apresentar pesquisas de ponta realizadas pelas três instituições em diferentes áreas do conhecimento. Hospedado na plataforma Medium, dos Estados Unidos, o Federais SP estreou com a divulgação de estudos oncológicos. Um deles investigou uma molécula do gengibre capaz de matar células cancerígenas; outro, propõe um teste portátil para detectar tumores em estágio inicial.

Novas iniciativas, porém, não escondem o fato de que, em linhas gerais, universidades não fazem planejamento estratégico na área de comunicação. Uma dissertação defendida em 2016 pelo jornalista Cristiano Alvarenga, então mestrando na Universidade Estadual Paulista (Unesp), apresentou um cenário um tanto desolador. Após avaliar as políticas de comunicação de 63 universidades federais brasileiras, ele concluiu que a falta de investimentos, a carência de recursos humanos e de estrutura física dificultam a implementação de estratégias mais efetivas de comunicação nessas instituições. “Há urgência na criação de direcionamentos que guiem os rumos da comunicação praticada pelas universidades”, alertou Alvarenga.

ReproduçãoPortal da Universidade de São Paulo reúne vários canais de comunicação, além de colunistasReprodução

A ideia de reunir universidades e institutos de pesquisa em torno de iniciativas em comum de comunicação ganhou força nos últimos anos no cenário internacional. Criado na Austrália em 2011 pelo jornalista britânico Andrew Jaspan, o The Conversation é uma plataforma sem fins lucrativos que congrega artigos de divulgação científica produzidos em universidades de países como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Reino Unido, França e Espanha. O portal recebe apoio de diversas entidades, entre elas as fundações Ford e Bill e Melinda Gates, além de doações. O braço do The Conversation nos Estados Unidos mantém parcerias com cerca de 625 instituições de ensino e pesquisa, entre elas universidades de prestígio como a Johns Hopkins, a de Boston e a da Califórnia, e já publicou mais de 9 mil artigos de divulgação científica em áreas como meio ambiente, energia, medicina e economia.

Outra iniciativa parecida é o site Massive Science, lançado em 2017, fruto de um consórcio envolvendo mais de mil cientistas de 500 universidades e instituições de pesquisa de aproximadamente 50 países. A plataforma oferece um serviço de newsletter com artigos de divulgação científica e de opinião – a maioria escrita por estudantes de pós-graduação ou pesquisadores em início de carreira. O Massive Science cobra uma taxa de adesão de US$ 10. Como contrapartida, os autores recebem instruções sobre produção e edição de texto, além de oficinas de treinamento em comunicação para organizações científicas. “Realizamos um trabalho que está entre o jornalismo e a comunicação científica”, disse a neurocientista e documentarista norte-americana Nadja Oertelt, cofundadora do Massive Science, em entrevista ao site Undark em julho.

Um dos méritos de iniciativas como essas é a possibilidade de capacitar pesquisadores a escrever para não acadêmicos. “Mesmo com as assessorias de imprensa dedicadas a atividades de divulgação científica nas universidades, os cientistas precisam saber como comunicar seus trabalhos. Até porque, quem concede entrevistas são eles, e não os assessores”, ressalta a jornalista Sabine Righetti, pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp. Ela e a biomédica Ana Paula Morales são as idealizadoras da Agência Bori, iniciativa que pretende centralizar e articular a divulgação de resultados de pesquisas para a imprensa – semelhante ao serviço de notícias EurekAlert, dos Estados Unidos. A ideia é disseminar press releases, com embargo de aproximadamente uma semana, acompanhados de contatos do autor principal do estudo e de material audiovisual para facilitar o trabalho dos jornalistas. “Estamos firmando parceria com universidades e instituições de pesquisa”, diz Righetti. Uma das primeiras colaborações consolidadas foi com a biblioteca virtual brasileira SciELO (Scientific Electronic Library Online). O desenvolvimento da plataforma teve apoio da FAPESP e do Instituto Serrapilheira, e a previsão é de que entre em funcionamento em outubro.

Treinamentos desse tipo têm se tornado mais comuns nos últimos anos. Uma experiência realizada no Brasil há seis anos é a etapa nacional da Euraxess Science Slam, competição internacional de comunicação científica promovida pela Comissão Europeia, em que pesquisadores devem apresentar seus trabalhos de maneira criativa para um público leigo. Os participantes passam por um treinamento para desenvolver habilidades de comunicação. “Já trouxemos bailarinos e artistas cênicos para falar aos cientistas da importância da linguagem corporal na comunicação”, explica a economista francesa Charlotte Grawitz, responsável pela iniciativa no Brasil.

Para André Fonseca, da UEL, a crescente participação de pesquisadores em atividades de divulgação científica é bem-vinda e imprescindível para levar ciência a públicos mais amplos. Ele ressalta que projetos individuais e coletivos de divulgadores de ciência, como o Science Vlogs Brasil, no YouTube, os diversos podcasts que tratam de ciência e eventos como o festival Pint of Science (ver Pesquisa FAPESP nº 280) são importantes, mas ainda insuficientes. “Não podemos atribuir apenas a essas iniciativas voluntárias a responsabilidade pela divulgação científica no país. É preciso que os gestores das universidades entendam que essa é uma das funções mais importantes das assessorias de imprensa”, afirma.

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