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Memória

Lições de anatomia

Dicionário de 1613 escrito por jesuíta brasileiro registrou o conhecimento dos Tupi sobre o corpo humano

Índio tupi, Albert Eckhout, 1643 / Museu Nacional da Dinamarca

Na língua dos povos Tupi, que ocupavam a região próxima ao litoral quando os portugueses chegaram ao Brasil, moape é a unha dos dedos da mão, enquanto a dos do pé é miçãpê. Com vocábulos como esses e os agregados à ilustração ao lado, o primeiro dicionário brasileiro de anatomia humana, publicado no Brasil em 1613 com o título Nomes das partes do corpo humano, pella lingua do Brasil, registrou a visão dos Tupi sobre o corpo humano.

A obra de 25 páginas foi escrita pelo padre jesuíta Pero de Castilho, que nasceu na região onde é hoje o estado do Espírito Santo em 1572 (a data de sua morte é incerta). Os leitores visados eram os demais missionários que viviam no Brasil. Reforçando o propósito do primeiro dicionário da língua tupi, escrito pelo jesuíta espanhol José de Anchieta (1534-1597) e publicado em 1595 com o título de Arte de gramática da língua mais falada na costa do Brasil, Castilho argumentava que os termos de seu trabalho poderiam ser “muito necessários aos confessores que se ocupam no ministério de ouvir confissões” dos índios.

“Por que um padre no confessionário precisaria de um dicionário?”, indaga a linguista Lídia Almeida Barros. Professora aposentada da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de São José do Rio Preto, ela examinou o trabalho de Castilho e, como parte de sua pesquisa nessa área, organizou o Dicionário de dermatologia (Editora Unesp, 2009), com 3.697 termos. A seu ver, o apelo religioso poderia ser uma forma de eliminar eventuais restrições à publicação da obra, considerada a primeira nomenclatura anatômica do Brasil e um registro valioso do português escrito no século XVII.

“Durante a Idade Média, a Igreja proibia o estudo do corpo humano por quem não era autorizado por ela”, reitera o médico anatomista Jackson Bittencourt, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP). Segundo ele, foi por essa razão que o artista italiano Leonardo da Vinci (1452-1519) fazia dissecações às escondidas e à revelia do poder papal.

O dicionário tem duas partes – a primeira com 257 verbetes do tupi com os termos ou explicações correspondentes em português, a segunda com 181 verbetes do português vertidos para a língua dessa etnia indígena. “Talvez o autor da obra não soubesse o termo exato em português para denominar as partes do corpo que os índios indicavam”, comenta Barros. Além disso, ela acrescenta, “o modo português de olhar o corpo humano era diferente do do indígena”.

Naquela época, não havia equivalentes em português de muitos termos em tupi, que eram explicados, em vez de apresentados com um sinônimo, na primeira parte do dicionário. É o caso de bopitéraiçâba, descrito como “os riscos da palma da mão”, hoje chamados de pregas palmares; de iurumopi, o equivalente a “cantos da boca de fora”, hoje conhecidos como comissuras labiais, os pontos de união dos lábios no canto da boca; e de moataçâba, que em tupi designava o espaço entre as duas escápulas, atualmente definido como espaço interescapular.

Plínio Marques da Silva Ayrosa (1895-1961), primeiro professor de tupi da Universidade de São Paulo (USP), ao examinar o dicionário em uma edição comentada publicada em 1937 pelo Departamento de Cultura do Estado de São Paulo (http://bit.ly/PlinioAyrosa), concluiu que a diferença entre o número de verbetes poderia ter outra razão: as duas partes teriam sido escritas por pessoas diferentes, a primeira pelo próprio Castilho e a segunda por algum escriba não identificado, que não conheceria todos os termos equivalentes em português.

Léo Ramos Chaves / Reprodução do livro Os Nomes das partes do corpo humano pella lingua do Brasil de Pero de CastilhoPágina da primeira parte do livro de Pero de CastilhoLéo Ramos Chaves / Reprodução do livro Os Nomes das partes do corpo humano pella lingua do Brasil de Pero de Castilho

Em sua análise, ele registrou “divergências ortográficas nas expressões portuguesas e tupis, erros grosseiros, incoerências e variantes incompatíveis com o preparo de um homem como Pero de Castilho e inadmissíveis na pena de quem conhecia a língua dos Brasis profundamente”. Segundo ele, o dicionário deve ter sido escrito na Bahia ou em alguma cidade da região Norte, chegou a São Paulo e foi recopiado, como era comum, por volta de 1622. Ayrosa recebeu o manuscrito em 1936 das mãos do bibliófilo Rubens Borba de Moraes (1899-1986), então chefe da Divisão de Bibliotecas da cidade de São Paulo, depois de a prefeitura ter comprado o original de outro bibliófilo, Félix Pacheco (1879-1935), que o adquiriu em Paris.

Vesalius
Quando o dicionário de Castilho começou a circular, a obra de referência sobre anatomia humana era De humani corporis fabrica (Da organização do corpo humano), escrita pelo médico belga Andreas Vesalius (1514-1564), da Universidade de Pádua, na Itália. Publicado em latim em 1543, o livro de 663 páginas contém descrições detalhadas de estruturas internas do corpo humano, ilustradas pelos artistas italianos Ticiano Vecelli (1490-1576) e Domenico Campagnola (1500-1564) e o próprio Vesalius. Os desenhos partiram da observação da dissecação de cadáveres, “em geral de criminosos, muitas vezes feita em praças públicas”, afirma o cirurgião cardíaco Pedro Carlos Piantino Lemos, professor da Faculdade de Medicina da USP.

“Com base no conhecimento anterior dos árabes e gregos, Vesalius organizou e aprofundou a terminologia anatômica, com termos adequados  para cada parte do corpo humano”, comenta Lemos. “A anatomia moderna começou com ele.” Pesquisador de textos históricos da medicina, Lemos, com a tradutora Maria Carnevale, coordenou a publicação de Andreas Vesalius de Bruxelas – De humani corporis fabrica. Epitome. Tabulae sex (Ateliê Editorial, Unicamp e Imprensa do Estado, 2003), com as 96 gravuras e respectivas explicações da edição original.

A obra fundadora da medicina tropical foi publicada em latim em 1648 na Holanda com o título de Historia naturalis Brasiliae (História natural do Brasil). Nesse livro, o médico holandês Guilherme Piso (1611-1678) – um dos autores, ao lado do naturalista alemão George Marcgraf (1610-1644) – descreve as principais doenças da época, como a cólera, a disenteria e as doenças venéreas, e as formas de tratá-las, por meio de remédios à base de plantas. Esse livro sobre o Brasil foi publicado em português apenas em 1942, quase 300 anos depois.

Depois de uma época de criatividade desenfreada – no final do século XIX havia cerca de 50 mil nomes para 5 mil estruturas anatômicas –, a Nomina anatômica de Basiléia, de 1895, elaborada em latim por anatomistas alemães, ganhou a adesão ampla dos especialistas e tornou-se uma referência internacional. A terminologia anatômica não parou de evoluir, em busca de termos simples, precisos, informativos e descritivos.

Embora cada país tenha a liberdade de adotar seus próprios termos, o latim persiste como a língua comum da terminologia anatômica, “para que possa ser compreendida em qualquer país”, diz Bittencourt. Segundo ele, uma tendência nessa área é a adoção de termos que expressem a forma e a função das estruturas anatômicas e não mais o nome de quem as descreveu pela primeira vez.

Na versão mais recente da terminologia anatômica internacional, a Nomina anatômica de São Paulo – assim chamada porque resultou de uma reunião de especialistas internacionais realizada na capital paulista em 1997 –, substituiu-se a expressão anatômica trompa de Falópio, assim chamada em homenagem a seu descobridor, o anatomista italiano Gabriele Falloppio (1523-1562), por tuba uterina. Pomo de adão, a saliência da cartilagem faríngea mais comum em homens, foi convertido para proeminência laríngea, já que algumas mulheres também podem tê-la.

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