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Obituário

Competência cirúrgica e inventividade

O médico e professor Domingo Braile, criador de dispositivos cardíacos, morre aos 81 anos

Trabalhando em sua empresa, Braile Biomédica, em 2010

Marlon Figueiredo

Na notável trajetória do cirurgião Domingo Marcolino Braile havia espaço para a cardiologia, a criação de dispositivos médicos, as atividades acadêmicas e a aviação. Desde os anos 1960 ajudou a criar serviços cardiológicos em hospitais de várias cidades. No dia 22, domingo, Braile morreu em consequência de uma pneumonia, aos 81 anos, em São José do Rio Preto (SP), cidade onde cresceu.

“Braile foi um sujeito fantástico porque uniu, coisa rara, capacidade empresarial à vida acadêmica de professor e era muito respeitado em ambas”, testemunha o bioquímico Walter Colli, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) e colega da turma formada em 1962 na Faculdade de Medicina (FM) da mesma instituição. “Foi ele que levou os transplantes cardíacos que aprendeu com Euryclides Zerbini [1912-1993] para o interior de São Paulo e fez muito sucesso.”

Natural de Nova Aliança, interior paulista, Braile cresceu em Rio Preto, onde frequentou oficinas mecânicas e aprendeu sobre motores. O interesse pela mecânica não o fez optar pela engenharia, como seria de esperar, mas pela medicina – o pai, Lino Braile, era um médico italiano que imigrou para o Brasil. “A influência de meu pai foi muito forte”, contou Braile em 2010, em entrevista a Pesquisa FAPESP. Em 1957, ele entrou na FM-USP. 

A habilidade com máquinas o levou a integrar a equipe que organizou a oficina experimental do Serviço de Cirurgia Cardíaca de Zerbini, o cirurgião que viria fazer o primeiro transplante de coração na América Latina, em 1968. Braile também participou do time de experimentação de equipamentos e válvulas para cirurgia cardíaca do Departamento de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental. Em 1960-61, tornou-se assistente do serviço cirúrgico particular de Zerbini e decidiu se especializar em cardiologia.

“Em 1960, estava entrando no elevador da Faculdade de Medicina quando apareceu um sujeito grande, que eu não conhecia pessoalmente. Ele me apontou o dedo e perguntou se eu era o Braile. Assenti. Ele disse que era o Adib Jatene – que já tinha nome na faculdade – e me perguntou se era eu que estava fazendo uma bomba extracorpórea. Respondi que sim. Ele pediu: ‘Podemos trabalhar juntos?’”, contou Braile na entrevista a Pesquisa FAPESP.

A determinação para construir uma máquina de circulação extracorpórea partira de Zerbini. As duas máquinas que existiam na FM-USP eram importadas, muito caras, e o cirurgião achava que seria possível fazê-las no Brasil a um preço muito inferior, o que se mostrou viável. Esses equipamentos são fundamentais para manter o sangue circulando enquanto se opera o coração. Jatene (1929-2014) compartilhava dos mesmos interesses do então jovem estudante: medicina e mecânica. “O Adib é muito bom mecânico e um torneiro extraordinário, embora não saiba muito de eletrônica”, lembrou Braile na mesma entrevista.

Recém-formado, o jovem cirurgião retornou para São José do Rio Preto em 1963, onde fez residência na Casa de Saúde Santa Helena, até 1965. A experiência na equipe de Zerbini o levou a criar, nesse período, o Serviço de Cirurgia Cardíaca no mesmo hospital, onde realizou a primeira operação cardíaca com circulação extracorpórea do interior de São Paulo. Em 1972, criou serviço igual na Santa Casa de Misericórdia da cidade. No total, Braile contabilizava a instalação de 21 serviços semelhantes em hospitais de cidades do interior.

Em 1967, liderou o grupo que fundou o Instituto de Moléstias Cardiovasculares (IMC) em São José do Rio Preto, e em 1977 criou a IMC Biomédica, atual Braile Biomédica. A empresa começou produzindo válvulas biológicas cardíacas e enxertos de pericárdio bovino destinados a operações cardiovasculares e hoje tem 35 patentes e depósitos de produtos desenvolvidos.

“Braile fez de maneira pioneira a combinação da pesquisa com a aplicação prática. Veja alguns exemplos: fabricou máquinas de circulação extracorpórea, oxigenadores, válvulas cardíacas artificiais, stents de aorta e implante de válvulas por cateter, estas últimas de avançada tecnologia e premiadas por organismos oficiais com reconhecimento internacional”, diz o cirurgião cardíaco Enio Buffolo, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Desenvolvendo tecnologia nacional, viabilizou no país a cirurgia cardíaca sem o alto custo dos equipamentos importados.”

Atual diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP e professor da FM, o patologista Paulo Saldiva conta que procurou Braile quando trabalhou na coordenação do projeto de autópsia minimamente invasiva, em meados desta década. “Quando fui procurá-lo para nos ajudar a montar o sistema de perfusão post-mortem para o projeto, notei claramente que o professor Braile se mantinha jovem e não reduziu as suas esperanças, seu idealismo e sonhos com o passar da idade”, conta. “Ajudou-nos de forma generosa e desprendida. Homens como ele e Adib Jatene souberam combinar competência cirúrgica com inventividade.”

O trabalho como cirurgião e empresário não impediu as atividades acadêmicas. Em Rio Preto, foi um dos fundadores da Faculdade de Medicina (Famerp), em 1968, onde exerceu vários cargos. Fez o doutorado em 1990, em cirurgia cardiovascular, na Unifesp. A partir daí deu aulas na pós-graduação da Famerp, na Faculdade de Medicina de Catanduva e na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

Um dos colegas da turma de 1962 da FM-USP, Waldir Antonio Tognola, seguiu para Rio Preto a convite de Braile para ensinar neurologia na Famerp. “A ele se deve a evolução da medicina e ciência na segunda metade do século XX em Rio Preto. Domingo foi um marco na nossa geração”, afirma Tognola, hoje professor emérito da Famerp. Segundo o neurologista, suas publicações foram inovadoras no campo da biologia cardíaca. Publicou cerca de 450 artigos científicos e 25 capítulos de livros. Também era autor dos livros de crônica Millenium (2000) e Crônicas de um médico do sertão (2009). Gostava muito de voar. Pilotava planadores e aviões multimotores na categoria de voo por instrumento, desde 1955. 

Braile estava acamado havia três anos em razão de sequelas de uma cirurgia na coluna. Teve pneumonias recorrentes, mas não resistiu à última. Deixa a mulher, Maria Cecília, as filhas Patricia e Valeria e quatro netos.

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