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Saúde pública

Isolamento social reduz taxa de transmissão do coronavírus na Grande São Paulo

Restrição à circulação pode já ter evitado centenas de casos em março na região metropolitana

As medidas de isolamento social diminuíram muito o movimento na avenida Paulista, uma das principais de São Paulo

Léo Ramos Chaves

As medidas de restrição à circulação de pessoas e as recomendações de assepsia, como lavar sempre as mãos e usar álcool gel, fizeram a taxa de contágio do vírus Sars-CoV-2 cair na Região Metropolitana de São Paulo. Antes da recomendação de isolamento social – iniciadas no dia 16 de março com a suspensão das aulas em escolas e intensificadas no dia 23 com o fechamento do comércio – cada infectado transmitia o novo coronavírus para duas ou três pessoas. Agora, cada um poderia infectar 0,9, em média. As conclusões resultam de uma análise matemática publicada como artigo preprint (sem revisão por especialistas) no repositório medRxiv em 8 de abril de 2020.

“Começamos a ver o impacto positivo das medidas de isolamento social e das medidas de higiene adotadas pela população”, observou o médico infectologista Júlio Croda, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), integrante do Comitê de Contingência do Coronavírus no Estado de São Paulo e um dos autores do estudo.

O que se espera inicialmente é uma redução da velocidade de crescimento do número de casos confirmados e de mortes. “Nas próximas semanas, se a queda na taxa de contágio se mantiver, deve começar a diminuir também a taxa diária de crescimento do número de casos confirmados e de mortes”, afirmou Croda. Desse modo, segundo ele, seria possível evitar a sobrecarga de atendimento nos serviços de saúde, inevitável se o número de casos crescesse continuamente.

“A modelagem matemática de epidemias, ainda que tenha incertezas, pode ajudar os gestores públicos a prever e atender melhor às necessidades dos hospitais e das equipes médicas”, comentou o epidemiologista Wildo Araújo, professor da Universidade de Brasília (UnB) e coautor desse estudo.

Uma modelagem anterior, publicada também como preprint no medRxiv em 17 de março, estimou o alcance da Covid-19 na Grande São Paulo. Esse estudo procurou estimar o chamado curso natural da doença, sem nenhuma medida de intervenção e sem considerar a influência dos casos assintomáticos, que passam despercebidos, mas contribuem para a disseminação do vírus.

De acordo com esse trabalho, nos primeiros 30 dias de epidemia, haveria 1.368 casos – com variação estatística de um mínimo de 880 a um máximo de 2.407 – e 14 mortes – com variação de 9 a 26. De 25 de fevereiro, quando foi descoberto o primeiro caso na capital paulista e no Brasil, a 26 de março, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) registrou 998 casos na maior região metropolitana do país, que reúne 39 municípios e 21 milhões de pessoas. Portanto, as medidas de isolamento social, adotadas no meio desse período (a partir de 16 de março), teriam evitado 370 casos na Grande São Paulo.

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No estado de São Paulo, as medidas de isolamento podem evitar cerca de 3.700 mortes no estado de São Paulo até o dia 13 de abril, caindo de estimadas 5 mil para 1.300. Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan e coordenador dos testes da Covid-19 no estado, apresentou esse cálculo em uma entrevista coletiva no dia 6 de abril no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.

Segundo ele, as medidas de restrição à circulação de pessoas poderiam fazer o número de mortes cair de 277 mil para 111 mil nos próximos seis meses em todo o estado. Do mesmo modo, o número de pessoas hospitalizadas poderia diminuir nesse período de 1,3 milhão para 670 mil e as internações em unidades de terapia intensiva de 347 mil para 168 mil.

“Para as medidas serem mais efetivas”, ele enfatizou, “temos de ter mais de 70% de redução da mobilidade, como está acontecendo na Itália há mais de três semanas. Ainda não chegamos lá”. Segundo ele, a mobilidade dos moradores do estado, medida por meio de telefones celulares, atualmente é de cerca de 50%. “Precisamos reduzir ainda mais a mobilidade da população”, disse ele.

Na China, as medidas de restrição de viagens e de circulação de pessoas adotadas em 23 de janeiro teriam evitado cerca de 700 mil casos de Covid-19 em Wuhan até 19 de fevereiro, de acordo com um estudo das universidades de Beijing e de Oxford, do Reino Unido, publicado na Science em 31 de março.

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Celulares medem isolamento social
A equipe composta por Júlio Croda verificou a redução da mobilidade das pessoas em todo o país por meio das informações de aplicativos de telefones celulares. Em uma análise inicial, com dados de cerca de 60 milhões de celulares fornecidos pela empresa in loco, que registram o deslocamento das pessoas, o isolamento social passou de 37% antes da confirmação do primeiro caso de Covid-19 no Brasil, em 25 de fevereiro, para 50% em média no país em 8 de abril, indicando que metade das pessoas tinha efetivamente permanecido em suas casas. No início de abril, o menor índice foi registrado em Tocantins, 41,7%, e o maior em Goiás, 56,9%.

“Voltamos aos níveis de isolamento social de antes dos comentários desfavoráveis a essa medida feitos pelo presidente [Jair Bolsonaro], que aumentaram a circulação das pessoas nos dias seguintes, nas 10 capitais que examinamos”, afirmou.

Segundo Croda, se se mostrar viável, o acompanhamento da mobilidade das pessoas por meio dos celulares poderia indicar onde as medidas de restrição de circulação deveriam ser intensificadas ou, inversamente, amenizadas, de acordo com o risco de contágio em cada localidade. “Como os dados são agregados”, ele afirmou, “não existe a possibilidade de perda da privacidade do usuário”.

Artigos científicos
GANEM, F. et al. The impact of early social distancing at COVID-19 outbreak in the largest Metropolitan Area of Brazil. medRxiv. Pré-print. 8 abr. 2020.
ROCHA FILHO, T. M. et al. Expected impact of Covid-19 outbreak in a major metropolitan area in Brazil. medRxiv. Pré-print. 14 mar. 2020.
TIAN, H. et al. An investigation of transmission control measures during the first 50 days of the Covid-19 epidemic in China. Science. on-line. eabb6105, p. 1-7. 31 mar. 2020.
FLAXMAN, S. et al. Estimating the number of infections and the impact of non-pharmaceutical interventions on Covid-19 in 11 European countries. Imperial College. on-line. 30 mar. 2020.

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