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Popularização

A emoção da descoberta

Centros de difusão científica, como a Estação Ciência, ganham recursos e freqüentadores

MIGUEL BOYAYANA réplica do Dmoiselle, na Estação Ciência: o desafio é atingir jovens sem afinidade com temas científicosMIGUEL BOYAYAN

A Estação Ciência, centro de difusão científica e tecnológica vinculado à Universidade de São Paulo, deve encerrar 2006 com um público de 450 mil pessoas, um recorde em 19 anos de atividade. Em 2005 esse contingente, que reúne os visitantes de exposições e também pessoas atendidas em outros espaços, além do acesso ao site, alcançou 400 mil pessoas. Em 2004, 220 mil. O desempenho crescente é o resultado de uma conjunção de fatores. O governo federal, agências de fomento e fundações têm ampliado os investimentos em espaços de difusão científica como a Estação Ciência, cuja área de 6 mil metros quadrados abriga exposições e experimentos lúdicos e interativos que abordam temas vinculados a áreas como a física, biologia, astronomia, matemática, meteorologia, urbanismo e geologia, entre outros. Mas a estrutura e a reputação do centro foram vitais para atrair tais oportunidades. “É um momento favorável”, diz o diretor da Estação Ciência, Wilson Teixeira, professor titular do Instituto de Geociências da USP. “A divulgação científica vem conquistando mais recursos e temos sido procurados por empresas e instituições para fazer projetos em parceria. Isso atrai a atenção da mídia e faz o público aumentar.”

A Estação Ciência foi criada pelo CNPq em 1987 num galpão onde funcionou uma fábrica junto à estação de trens metropolitanos do bairro paulistano da Lapa. O espaço foi incorporado, em 1990, pela Universidade de São Paulo. Com estabilidade orçamentária, criou-se o caminho para a idéia florescer. Hoje a Estação Ciência tem um orçamento de R$ 750 mil anuais para investimento em infra-estrutura, custeio e manutenção – o que não inclui o salário dos funcionários e despesas como luz e água, que também são pagos pela USP. Mas recebe contribuições de todo tipo. A Petrobras, por exemplo, investiu R$ 980 mil numa nova exposição sobre o planeta Terra e o meio ambiente, além de apoiar há vários anos o projeto de ressocialização Clicar, que leva crianças e adolescentes em situação de rua aos experimentos do centro. Muitas das atrações temporárias não têm nenhum custo para a Estação.

No mês passado, a programação da Semana de Ciência e Tecnologia incluiu a exposição de uma réplica do avião Demoiselle, criado em 1907 por Santos-Dumont e confeccionado pelo aviador Ruy de Azevedo Sodré Sobrinho. “Também fomos procurados pelo astronauta Marcos Pontes, que se ofereceu para dar uma palestra gratuita”, diz Wilson Teixeira. A Fundação Vitae até recentemente destinou verbas que permitiram reformar o espaço. Há três anos, a Estação Ciência decidiu cobrar ingresso. “Era necessário requalificar o espaço e deu certo. O público aumentou depois que passamos a cobrar ingresso”, afirma Teixeira. Os recursos advindos dos ingressos são reinvestidos na infra-estrutura e nas exposições. Mas em um sábado e em um domingo por mês a entrada é franca. A Estação Ciência conta com 32 funcionários e 115 estagiários – estudantes universitários que recebem bolsas para trabalhar como monitores.

O exemplo e o desempenho da Estação Ciência não são um dado isolado. Na década de 1990 surgiram no país dezenas de centros de difusão científica, entre eles o Museu da Vida, da Fundação Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro, ou o Espaço Ciência, entre as cidades de Olinda e Recife, em Pernambuco. A Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciências (ABCMC) tem um cadastro de mais de cem instituições, em geral pequenas e fundadas há menos de 15 anos. O advento da Semana de Ciência e Tecnologia, criada pelo governo federal, também evidencia um público crescente atingido pela divulgação científica. Em 2004, a primeira edição da semana reuniu 1.840 eventos. Na mais recente, realizada no mês passado e que teve como tema o centenário do vôo do 14-Bis, o número de eventos chegou a 9 mil.

A questão que se coloca é o impacto que iniciativas como esta estão obtendo no despertar de crianças e jovens para a ciência. A resposta não é simples. “Em comparação com o passado avançou-se muito. Mas os museus de ciência ainda atingem uma fração muito pequena do público que precisaria ser abordado”, diz Ernst Hamburger, professor do Instituto de Física da USP, ex-diretor da Estação Ciência e ainda um colaborador nas atividades do centro. É possível que a experiência de visitar um museu lúdico e interativo crie uma referência na vida de jovens estudantes e, eventualmente, até os ajudem a definir sua carreira – embora não existam estudos no país que dimensionem esse fenômeno. Mas a maioria dos freqüentadores desses centros é de estudantes que já demonstram algum interesse por assuntos científicos.

O desafio, observa Ernst Hamburger, é atingir estudantes que não apresentam afinidade com a ciência e, para isso, a existência de um centro de difusão não é suficiente. A Estação Ciência busca enfrentar essa questão indo às escolas. O projeto ABC na Educação Científica – Mão na Massa, coordenado pela Estação Ciência em parceria com a Academia Brasileira de Ciências, busca suprir essa lacuna com a capacitação de professores das redes estadual e municipal de ensino de São Paulo e atinge mais de 500 mil alunos. Nos dias 9 e 10 de outubro foram apresentadas em São Carlos (SP) dezenas de experiências ligadas ao programa, desde a observação de fenômenos naturais, como a transformação do girino em sapo e da lagarta em borboleta, até a construção de protótipos de foguetes usando sucata.

O Museu de Ciências e Tecnologia da PUC de Porto Alegre deu outra solução para este problema. Montou um museu itinerante. Trata-se de um caminhão que percorre cidades levando 60 kits de experimentos lúdicos. “Perguntamos às crianças o que elas querem ser antes e depois de visitarem o museu”, diz Jeter Bertoletti, diretor do museu. “É gratificante ver respostas como a de uma menina da cidade de Novo Hamburgo que, na entrada, disse que gostaria de trabalhar na indústria de sapatos como os pais e, na saída, informou que havia resolvido ser professora”, afirma.

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