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Arte

A festa visual do barroco

Livro reúne estudos, com fartas imagens, sobre as raízes da estética colonial

Um projeto de 14 anos – envolvendo viagens, cursos, pesquisa de campo, documentação fotográfica e ciclos de palestras dos principais especialistas brasileiros em barroco – está por trás do livro Barroco Memória Viva, organizado por Percival Tirapeli, professor do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp). No centro do livro estão as igrejas, que desempenharam o papel de núcleos de difusão da cultura e da arte coloniais brasileiras.

“A organização dos capítulos sugere um dia festivo religioso, com todas as possibilidades e uso dos sentidos que envolvem a estética barroca”, diz Tirapeli. Assim, os primeiros dos 18 artigos apresentam e discutem as cidades coloniais e sua arquitetura; em seguida, os textos mergulham no interior dos templos, para depois examinar outras formas de expressão, como a música e a literatura, e também as implicações mais amplas da estética barroca, refletidas na política e na teologia. O tema rendeu o livro e um CD-ROM, ambos com apoio da FAPESP.

Um tratamento tão íntimo do assunto foi possível graças ao projeto Barroco Memória Viva, sob responsabilidade de Tirapeli desde que ele mesmo o criou em fins dos anos 80. A idéia essencial do projeto é promover viagens culturais a cidades que abrigam monumentos históricos, para estudá-los in loco. As viagens do Barrroco Memória Viva, que em 1990 foi oficializado como curso de extensão universitária e em 1994 tornou-se projeto permanente da reitoria da Unesp, são precedidas de um ciclo de palestras realizado em São Paulo. Participam das viagens professores, alunos e funcionários da Unesp e pesquisadores de outras universidades, que preenchem cerca de 40 vagas, a cada ano mais disputadas.

Os textos do livro Arte Sacra Colonial se originam das palestras do projeto. Tirapeli começou a procurar patrocínio para publicá-las em livro há quatro anos. Os textos foram revistos e reestruturados, num trabalho de atualização e adequação ao formato impresso. Entre os autores estão nomes como João Adolfo Hansen, Benedito Lima de Toledo, Wolfgang Pfeiffer e Régis Duprat, além do próprio Tirapeli. A idéia de publicação encontrou boa receptividade nas inscrições para as leis de incentivo (como as leis Mendonça e Rouanet), mas nem tanto por parte de potenciais patrocinadores. Finalmente a própria editora da Unesp se interessou em bancar o projeto. A Imprensa Oficial encarregou-se da impressão e do papel.

Século dobrado
Ao analisar a organização preliminar do acervo de textos, os pareceristas da editora da Unesp sugeriram que o enfoque do livro fosse direcionado para as manifestações barrocas no Estado de São Paulo. “O próprio título é amplo e não delimita”, observa Tirapeli, destacando o caráter abrangente do livro. “Mas se trata essencialmente de arte sacra colonial paulista”, afirma o pesquisador.

Esse aspecto específico, mas não limitador, da obra é uma de suas características mais interessantes. Como o barroco foi a estética dos séculos 17 e 18 (“o século do barroco no Brasil tem 200 anos”, brinca Tirapeli), coincide com o período em que o Estado de São Paulo desempenhava papel econômico, social e político secundário em relação às regiões mais importantes do país (Estados do Nordeste e Minas Gerais). A relativa pobreza das manifestações artísticas coloniais paulistas criou um estigma. Como Tirapeli observa, “São Paulo tem vasta bibliografia de sua arte colonial – o que faltava era essa apresentação com o status de arte barroca ou rococó como as do Nordeste e Minas Gerais”.

Entre outros objetivos, o livro pretende, segundo seu organizador, desfazer equívocos que levaram alguns estudiosos a subestimar a produção artística paulista com rótulos como “barroco caipira”. Se, de fato, não há nas cidades coloniais paulistas igrejas suntuosas como as mineiras ou baianas, no Estado se desenvolveram alguns veios genuínos da produção escultórica e pictórica colonial. Tirapeli chama atenção para o nome de João Gonçalo Fernandes – “português que fugiu para o Brasil por causa de um crime” e se radicou em São Vicente, no litoral paulista –, autor das três primeiras imagens de barro cozido produzidas no país, por volta de 1560. Além disso, o professor destaca as pinturas de tetos de igrejas paulistas, “muito pouco conhecidas”.

Algumas das mais belas ilustrações presentes no livro de Tirapeli são fotos desses tetos, de igrejas de Mogi das Cruzes, Itu e São Roque, entre outras.Ainda sobre o barroco paulista, Tirapeli observa a importância que as construções coloniais do Estado, com toda sua sobriedade e aparente modéstia, desempenha no estudo da arquitetura jesuítica brasileira empreendido por Lúcio Costa, cujo centenário de nascimento está sendo comemorado atualmente. A pesquisa do arquiteto e urbanista é uma das obras-chave no trabalho de recuperação e organização do legado barroco que foi empreendido por artistas e intelectuais dos mais variados meios, entre os anos 20 e 40 do século 20.

Ostracismo
Foi exatamente em 1924, com a excursão dos modernistas de São Paulo às cidades históricas de Minas (tema de um dos capítulos do livro), que a arte barroca brasileira saiu de um ostracismo de mais de cem anos, durante os quais representou o exemplo máximo de mau gosto. No período de predominância do neoclassicismo na arquitetura, que opunha pureza geométrica e cromática ao rebuscamento de formas do barroco, fachadas entalhadas de algumas igrejas chegaram a ser cobertas de branco e telhados foram cercados com platibandas, como a “cobrir vergonhas”, nas palavras de Tirapeli.

Tendo Mário de Andrade à frente, iniciou-se na terceira década do século passado um amplo e profundo movimento de reconstrução do passado artístico brasileiro, ironicamente sob inspiração do futurismo e da procura de uma expressão genuína nacional. Estimulados por essa inquietação, pensadores fundamentais da cultura brasileira, como Manuel Bandeira, Gilberto Freyre e Lúcio Costa, arregaçaram as mangas para tirar do esquecimento (e da iminência de extinção) a arte produzida no Brasil colônia. Momento fundamental dessa movimentação intelectual foi a fundação, em 1937, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), pelo ministro Gustavo Capanema. O projeto do Iphan, “uma verdadeira universidade”, segundo Tirapeli, foi encomendado por Capanema a Mário de Andrade.

Rei ausente
A arte colonial assumiu, então, uma proeminência quase natural no panorama histórico, na medida em que muitos estudiosos consideram o barroco a tradução estética da alma brasileira, pelo que tem de opulento e intenso. O período de vigência do barroco coincide no Brasil com a ausência do rei, que exerce a função de chefe de igreja. O padre era não só a autoridade moral, mas também um funcionário público, diz Tirapeli. É uma época ambígua, em que as fronteiras do religioso e do secular, do público e do privado são bastante flexíveis.Tirapeli acredita que a principal herança desse tempo é a tolerância do brasileiro, seja a que permite conviver com as diferenças, seja a que faz vista grossa à corrupção. “Nasceu daí um espírito de busca, mas que sabe que nunca vai achar o fim”, diz o professor. “Ele dá a todos a liberdade de completar as regras, adaptá-las e floreá-las.”

O fato de ter se enraizado tão profundamente na cultura brasileira não significa que o barroco local tenha gerado características próprias. “Ele já nasce sendo o primeiro estilo internacional, como palavra de ordem no Concílio de Trento (1545)”, diz Tirapeli, mencionando o vínculo fundamental entre o surgimento do barroco e as diretrizes da Contra-Reforma, a reação violenta efetivada pela Igreja Católica ao movimento protestante liderado por Martinho Lutero. “A estética é a mesma, mostrada com maior ou menor esplendor”, acrescenta o professor.

Tirapeli admite, no entanto, que existe um traço distintivo no barroco brasileiro: “A simplicidade externa das construções em contraste com a complexidade dos ornamentos internos”. Isso decorre da fartura, no Brasil, de certos materiais de talha, como madeira e ouro, e da escassez de outros, como o mármore. A oposição entre o interior e o exterior dos templos corresponde a uma das principais características do barroco, o jogo de contrastes, presente, por exemplo, no claro-escuro das pinturas que decoram as igrejas.

Turismo
Com a autoridade de quem conhece de perto o objeto de seu estudo, Tirapeli, que aos 14 anos já cuidava de um pequeno museu no seminário em que estudava no interior de São Paulo, faz uma avaliação positiva dos atuais esforços de preservação do patrimônio histórico brasileiro. O professor – autor também dos livros As Mais Belas Igrejas do Brasil e Patrimônio da Humanidade do Brasil, e que prepara agora para a editora da Unesp um volume sobre todas as igrejas coloniais paulistas – percebe o surgimento de “um sentido de história” na população, criando pressões sobre o poder público para que se preservem os monumentos históricos. Além disso, acrescenta, “todos estão vendo que o turismo é um grande negócio”, afirma o pesquisador.

O projeto
Barroco memória viva (nº 99/12615-0); Modalidade Auxílio publicação; Pesquisador Percival Tirapeli – Instituto de Artes da Unesp; Investimento R$ 6.000,00

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