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História Oral

A história ensinada pelos alunos

Nos 70 anos da UNE, estudo revela papel do movimento estudantil

EDUARDO CESARNão é de hoje que os jovens fazem a hora e não esperam acontecer, batem o pé que é proibido proibir e não confiam em ninguém com mais de 30 anos. Mesmo o professor, apesar de seus mais de 30 conselhos, infelizmente, tem mais de 30 e, logo, não é digno de confiança. “Não é possível pensar em nenhum tipo de insurreição, resistência ou confronto político sem os jovens estudantes. Do século XIX, passando pelas grandes revoluções do século XX, bem como do maio de 1968 e a luta armada na América Latina, os jovens demonstram essa disponibilidade especial, difícil de ser encontrada nos adultos. Historicamente, essa situação tem gerado ações radicais, corajosas, voluntariosas. Para o bem e para o mal”, analisa Maria Paula Araújo, historiadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde coordena o núcleo de história oral, autora do recém-lançado Memórias estudantis: da fundação da UNE aos nossos dias (Relume Dumará). No ano em que a União Nacional dos Estudantes “completa” 70 anos, o livro recupera, por meio de 300 horas de depoimentos com cem militantes de ontem e de hoje, a história do Brasil contada do ponto de vista daqueles com menos de 30.

Em conjunto com o livro, o cineasta Sílvio Tendler lança dois média-metragens, Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil e O afeto que se encerra em nosso peito juvenil, documentários que, ao lado do estudo de Maria Paula, fazem parte do projeto Memória do Movimento Estudantil (www.mme.org.br), fruto de uma curiosa parceria entre a UNE, a Fundação Roberto Marinho e a Petrobras. Afinal, se o tema é o movimento estudantil nem sempre é proibido proibir polêmicas. A própria data de criação da entidade, observa a autora, é contestada: “Para uns, ela nasceu em 1937; para outros, sua verdadeira fundação ocorreu em 1938”. Esse intervalo de um ano, porém, faz toda a diferença. “O projeto de criação de uma UNE, às vésperas do Estado Novo e sob a chancela do Ministério da Educação, de Gustavo Capanema, tinha o propósito político de submeter politicamente a força desse segmento social que começava a se expandir. A idéia era criar uma entidade despolitizada que permitisse o controle dos estudantes pelo Estado”, explica a pesquisadora. No ano seguinte, o clima era bem outro: “No II Congresso Nacional de Estudantes a disposição dos estudantes era claramente de participar do debate dos grandes temas nacionais, com um compromisso expressamente político”. Quem sabe faz a hora.

O ministério Capanema valorizava o ensino universitário, visto como celeiro das elites que dirigiriam o país. “Foi o reconhecimento da importância dos estudantes pelo governo que gerou as tensões entre UNE e Estado Novo”, avalia Maria Paula.

Ao contrário do esperado, já em 1938 eles saíram nas ruas denunciando a simpatia estatal pelo nazifascismo e, mais tarde, exigindo que o governo declarasse guerra ao Eixo. Simbolicamente, em 1942, desrespeitando Capanema, a UNE fez do Clube Germânia (ponto de encontro de nazistas), no Rio de Janeiro, sua sede até 1980, quando foi demolida pelo governo militar. No mesmo ano, Vargas, esperto, legalizou a entidade. Apenas a partir de 1947 é que a UNE iniciaria a chamada “fase de hegemonia socialista”, que se estenderia até 1950, lembra a autora, quando a entidade passa a ser dirigida por estudantes udenistas. Nesse interregno “isolado e estranho à tradição da entidade”, destacou-se a figura de Paulo Egydio Martins, estudante de engenharia e, mais tarde, governador de São Paulo. “O grupo dele à frente da UNE discordava da ênfase dada às questões nacionais em detrimento dos problemas estudantis”, observa Maria Paula. A esquerda esteve alijada do comando da organização, voltando apenas em 1956, momento em que Juscelino Kubitschek pediu a colaboração da UNE para a preservação do regime. Em 1961 a entidade participou da “campanha da legalidade”, que visava garantir a posse de Jango, após a renúncia de Jânio.

JUC
Então a UNE estava sob a direção de Aldo Arantes, apoiado pela Juventude Universitária Católica (JUC), associação civil criada para difundir a doutrina da Igreja no movimento estudantil. Em pouco tempo, essa ligação inusitada, nota Maria Paula, se romperia com a ascensão da Ação Popular (AP), uma dissidência da JUC. Em 1963 a facção elegeu José Serra como presidente da UNE, agora imbuída do espírito de transformação radical da sociedade brasileira. Os militares, porém, não esperaram acontecer. “Apesar de a primeira palavra de ordem da UNE ter sido ‘resistência’ ao golpe de 1964, não houve resistência”, conta a autora. “Não houve, no movimento estudantil, nenhuma manifestação. Eu atribuo isso ao fato de que as grandes maiorias, embora penetradas pelo nacionalismo e pelo reformismo, não estavam dispostas a se arriscar para salvar o governo Jango”, afirma, em depoimento, o cientista político Daniel Aarão Reis. Segundo ele, “há uma tendência de romantizar o movimento estudantil como revolucionário. Não é fato, embora boa parte das lideranças migrou para a revolução”. Assim, as posições dos militantes de esquerda estudantis e de líderes da UNE não expressavam mais exatamente o espírito da massa dos universitários, muitos filhos das classes médias que apoiaram o golpe. “O estudante comum, a grande massa deles, se deixou levar pelo discurso anticomunista”, observa o historiador José Roberto Martins Filho em seu artigo “O movimento estudantil na conjuntura do golpe”.

Com sua sede incendiada em abril de 1964, colocada na ilegalidade em novembro pela Lei Suplicy e pelo Decreto Aragão, que proibiu a organização estudantil em nível nacional, a UNE viu-se diante de um grande dilema. “Entre os anos 1960 e 1970 havia um desejo de ação política imediata que se expressou na luta armada com muitas organizações formadas por jovens universitários que abandonaram as salas de aula para pegar em armas, inspirados pelo Vietnã, Cuba e a ‘guerra popular’ da Revolução Chinesa”, nota a autora. Até a morte do estudante Edson Luís, no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, estopim da revolta estudantil de 1968, a UNE ainda lutou contra o acordo MEC-Usaid, que, segundo a pesquisadora, queria a privatização do ensino, nos moldes americanos, em total contramão à principal bandeira da entidade. “Houve uma resposta ao trauma de 1964, quando não se agiu. Quando veio 1968, a reação foi: ‘Agora nós vamos reagir’. Luta armada até então era algo pequeno. A partir do AI-5, durante três anos há um movimento intenso de participação do movimento estudantil”, lembra Aarão Reis. Daí, a Passeata dos Cem Mil, após a morte do estudante, a invasão da Maria Antônia e o congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968, segundo Maria Paula, o “marco final de todo o processo político, de confronto e radicalização vividos pelo movimento estudantil. Depois da prisão dos estudantes a reação deles entrou em descenso”.

Reconstrução
Inusitadamente, a reconstrução da UNE, no congresso da entidade em Salvador, em 1979, deveu-se ao então governador da Bahia, Antonio Carlos Magalhães, que, desobedecendo ordens do ministro da Justiça, cedeu o Centro de Convenções da Bahia para os estudantes. Isso permitiu, no futuro, a participação da UNE na movimentação pelas eleições diretas e pelas manifestações que pediam a retirada de Collor do governo. O legado, porém, foi pesado para as novas gerações. “Quando se faz referência à juventude dos anos 1960 e 1970, focaliza-se aquela envolvida nas lutas democráticas, ignorando os demais, a grande maioria que não participava delas. Os estudantes são vistos, no geral, como uma geração combativa e revolucionária”, explica a antropóloga Regina Novaes em seu artigo “Juventude e participação social”. “O efeito dessa comparação é o de desconsiderar a possibilidade de o jovem de hoje agir motivado por interesses coletivos de transformação social.”

Daí as críticas a uma suposta “apatia social” dos estudantes atuais. “Os jovens de hoje têm outras formas organizativas que passam, em geral, longe das organizações tradicionais políticas. Eles assumiram pautas individuais e ficaram distantes de utopias revolucionárias, o que não significa que rejeitem engajar-se numa causa coletiva, desde que se respeite sua autonomia individual.” O que esperar do futuro? Talvez a resposta esteja numa pequena crônica de Drummond, em que uma garotinha exige, e consegue, do pai, lasanha: “Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem”.

Lembrete amargo
Governo reconhece atrocidades do regime militar
Quem diria que, passadas mais de quatro décadas, a célebre frase do ministro da Educação Suplicy de Lacerda iria finalmente ganhar sentido (com certeza, não o esperado pelo implacável perseguidor da UNE): “Os estudantes são homens de amanhã, mas nós somos homens de hoje”. Foi o trabalho dos “homens de amanhã” que trouxe à luz, para os verdadeiros homens de hoje, o que fizeram os homens do passado. Com a presença do presidente Lula, foi lançado, no mês passado, o livro Direito à memória e à verdade, elaborado pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e editado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), que relata os casos de 479 mortos e desaparecidos entre 1961 e 1988, prazo definido pela Lei 9.140, de 1995. O estudo, fruto de 11 anos de trabalho, descreve em detalhes casos de tortura, estupro, esquartejamento e ocultação de cadáveres, com os nomes dos militares responsáveis pelos crimes.

O levantamento inclui o nome e dados pessoais de cada vítima, com uma pequena biografia, descrição das ações políticas e de como aconteceu a prisão, perseguição e morte e que membros da comissão votaram pela aprovação ou indeferimento do direito à reparação. Este é o primeiro documento oficial do governo brasileiro reconhecendo que os órgãos de repressão do regime militar foram os responsáveis pelas mortes de centenas de militantes.

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