Imprimir PDF Republicar

carta da editora | 360

Abridores de letras

Os primeiros registros conhecidos de infecções em hominídeos datam de centenas de milhares de anos atrás, e há evidência do uso de compostos para combater essas formas de contágio em civilizações como o Egito Antigo, há 3.500 anos. No final do século XIX, bactérias foram identificadas como causadoras de diversas infecções, o que direcionou a busca por curas. E foi na década de 1910 que cientistas observaram a existência de vírus que atacam bactérias. Dos bacteriófagos – do grego phago, devorar – nasceu uma forma de tratamento chamada fagoterapia.

Demorou pouco para que a novidade chegasse ao Brasil: no Instituto Oswaldo Cruz, no Rio, o médico paraense José da Costa Cruz isolou esses vírus especializados em infectar, parasitar e destruir células bacterianas. Estudando o comportamento dos fagos, em 1921 testou com sucesso seu uso em pacientes durante surtos de disenteria. Costa Cruz analisou características como especificidade, estabilidade, resistência e adaptação dos bacteriófagos, comparando resultados obtidos em distintas regiões do país.

A descoberta e o uso em massa dos antibióticos no tratamento de infecções bacterianas, a partir dos anos 1940, levaram ao gradual abandono dessa forma de terapia, exceto em alguns países, como a Geórgia. O interesse pelos fagos vem sendo retomado, em decorrência do avanço da resistência bacteriana e das limitações do arsenal disponível de antibióticos para tratar infecções graves.

Nosso colaborador Guilherme Costa conta que, a partir de uma biblioteca de fagos, se pode montar coquetéis com vírus diferentes, capazes de atacar as espécies bacterianas mais comuns ou as identificadas nos pacientes. Por invadirem células específicas, com o fim da infecção esses vírus desaparecem do organismo humano, sem que tenham sido identificados efeitos colaterais. As complexidades desse tipo de terapia e o estado da arte das pesquisas no Brasil e no exterior são apresentados na reportagem de capa.

Em muitos momentos, o fazer jornalístico se entrelaça com o ofício historiográfico. A seção Memória traz a história de Galdino Ramos – tal como Costa Cruz, um médico originário de regiões mais distantes do centro político e econômico brasileiro na virada para o século XX. O piauiense foi pioneiro na datiloscopia, ciência das impressões digitais, e sua trajetória fascinou o perito Gabriel Gomes, da Polícia Federal do Paraná.

Integrante do grupo de pesquisa em papiloscopia forense da Academia Nacional de Polícia, Gomes “descobriu” Ramos durante o mestrado em estatística na UnB. Com seu orientador, o físico e estatístico Raul Matsushita, e a historiadora e bibliotecária da Fiocruz Maria Cláudia Santiago, ele localizou a tese de Galdino Ramos, “Da identificação”, defendida em 1906 na então Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e realizou um trabalho sistemático de resgate da memória científica do médico.

Ao ser procurado por Pesquisa FAPESP, Gomes aproveitou a solicitação de imagens para ilustrar a reportagem e entrou em contato com a família de Ramos, o que resultou na ampliação do acervo público de fotografias do médico, algumas das quais reproduzidas nesta edição. Essa história foi contada por nossa colaboradora potiguar Mariana Ceci. Em um sentido poético, são todos abridores de letras – termo usado em regiões do país para definir o ofício de traçar, com um pincel, letras que formam nomes, dizeres e palavras em barcos, muros e fachadas.

Republicar