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Avaliação

Academias da internet

O Brasil tem boa colocação no ranking das universidades que sabem divulgar sua produção na web

BUENOPara ser realmente considerada boa, uma universidade deve disponibilizar ao público a sua produção acadêmica através da internet. Este conceito provocativo norteia um ranking mundial de instituições de nível superior criado pelo laboratório Cybermetrics, do Centro de Informação e Documentação (Cindoc) do Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha (CSIC). Nesta classificação, lançada pela primeira vez em 2004 e atualizada a cada seis meses, levam-se em conta o volume, a visibilidade e o impacto do conteúdo científico abrigado nos domínios da web de cada universidade.

A lista das universidades boas de internet reitera a dianteira das instituições norte-americanas, mas Harvard, a número 1 do mundo nos rankings mais consagrados, aqueles publicados pelo jornal inglês The Times e pela universidade chinesa Shangai Jiao Tong University, aparece apenas na terceira posição, superada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e pela Universidade Stanford. Já a situação das universidades européias é francamente desfavorável – resultado da escassa preocupação em divulgar na rede sua prolífica produção científica. A maior discrepância atinge as universidades francesas. A Universidade Claude Bernard Lyon 1 é a instituição da França que aparece em melhor posição na lista do Cybermetrics – e está num desvantajoso 298º lugar. Já a École Normale Supérieure, 18a posição no ranking do The Times, despenca para 334º lugar na classificação do laboratório espanhol.

No vácuo aberto pela Europa, sobrou espaço para países como o Brasil. A Universidade de São Paulo (USP), em 97º lugar, e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), na 190ª posição, aparecem na lista do Cybermetrics mais de cem postos à frente de suas colocações no ranking da Universidade Shangai Jiao Tong. O zelo com que cuidam de seus domínios na web ajuda a entender a boa colocação. A Unicamp, por exemplo, determinou que as referências à instituição em páginas pessoais e em trabalhos dos docentes fossem padronizadas para facilitar a tarefa dos ranqueadores. “Mas a questão mais relevante é que a nossa produção científica está fortemente vinculada aos melhores periódicos e a maior parte deles está na internet”, diz o pró-reitor de Pesquisa da Unicamp, Daniel Pereira.

Parte significativa dos pesquisadores da Unicamp criou  pessoais em que divulgam suas atividades acadêmicas. A universidade não apenas dá suporte à iniciativa, como está tentando tornar mais visíveis e acessíveis essas páginas. Uma experiência está em curso na página da Pró-Reitoria de Pesquisa, com a criação de um link para “redes temáticas virtuais na Unicamp”. Tais redes nada mais são do que listas de pesquisadores e de suas páginas pessoais envolvidos em grandes áreas de pesquisa como nanotecnologia, bioenergia, saúde pública e tecnologia de informação, entre outras. “Queremos dar visibilidade aos pesquisadores dessas áreas para identificar novas parcerias e oportunidades”, diz Pereira. A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) é outro destaque positivo. Desponta como a terceira instituição brasileira no ranking, em 281º lugar na classificação geral. “A internet nasceu cedo em nossa universidade e logo todos os laboratórios, grupos e subgrupos de pesquisa tinham suas homepages vinculadas à da instituição”, diz o vice-reitor da UFSC, Ariovaldo Bolzan. “Fomos a primeira instituição a disponibilizar todas as teses em formato pdf, isso lá pelos idos de 1999.”

Ferramentas
O índice obtido pelas instituições resulta da ponderação de quatro fatores. Um deles é a quantidade de páginas da instituição identificadas por quatro grandes ferramentas de busca. O segundo envolve a visibilidade e avalia o número de links externos que remetem à página da universidade. O terceiro mede a produção acadêmica avaliando o número de arquivos word, pdf, powerpoint e postscrip, um sintoma da disponibilidade na web de teses, seminários e apresentações. Por fim, recorre-se à ferramenta Google Scholar para saber o número de artigos científicos da instituição disponíveis na web em publicações eletrônicas de acesso aberto. Harvard foi a primeira apenas no quesito do Google Scholar, sendo superada pelas rivais nos três primeiros fatores.

A metodologia, naturalmente, não rivaliza com a dos rankings convencionais, aqueles que efetivamente auferem a consistência acadêmica da instituição ao contemplar variáveis como a existência de vencedores do Prêmio Nobel, o impacto dos artigos científicos e a opinião de acadêmicos. “Duas grandes instituições inglesas, a Universidade de Manchester e o Imperial College, aparecem em situação muito desfavorável, apesar da alta qualidade de sua produção acadêmica”, observa Daniel Pereira, da Unicamp. “É interessante estar bem colocado no ranking cybermetrics, mas nosso objetivo continua a ser o de estar entre as cem melhores do mundo – nos rankings tradicionais -, afirma.

Os responsáveis pelo laboratório Cybermetrics dizem que sua intenção não é desvalorizar universidades consagradas. “Se o desempenho de uma instituição está abaixo da posição esperada de acordo com sua excelência acadêmica, seus gestores devem reconsiderar a política em relação à web e melhorar a qualidade e a quantidade de suas publicações eletrônicas”, afirma Isidro Aquillo, um dos pesquisadores que fazem o ranking. “Nosso objetivo é apenas dar uma motivação extra para pesquisadores de todo o mundo publicarem conteúdo científico na web em maior abundância e qualidade”, diz.

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