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Boas práticas

Acusação retirada

Terminou de forma inesperada um rumoroso processo criminal por fraude que envolvia o neurocientista Hoau-Yan Wang, professor aposentado da City University de Nova York (Cuny) e responsável por estudos pré-clínicos do simufilam, um medicamento anunciado como promissor no tratamento da doença de Alzheimer, mas que acabou por fracassar na fase final do ensaio clínico. O pesquisador se viu livre da acusação pouco antes de o julgamento começar, em outubro. Sem explicar a razão, o Departamento de Justiça norte-americano pediu a retirada das acusações e o arquivamento do caso.

Wang havia sido indiciado em 2023 sob a acusação de fraudar em cerca de US$ 16 milhões os Institutos Nacionais de Saúde, principal agência de fomento à pesquisa biomédica dos Estados Unidos – os recursos foram gastos em bolsas de pesquisa relacionadas aos estudos iniciais do simufilam. Wang teve seu trabalho avaliado por um painel de especialistas convocado pela Cuny que apontou “má conduta flagrante” em 20 artigos de sua autoria. Alguns deles forneceram suporte para a transição do simufilam do laboratório para estudos clínicos. O painel encontrou indícios de manipulação indevida de imagens em um artigo de 2012 publicado no The Journal of Neuroscience, segundo o qual o simufilam poderia atenuar efeitos patológicos da proteína beta-amiloide, cujo acúmulo no cérebro é associado à doença de Alzheimer. Em 2022, a revista PLOS ONE retratou cinco artigos do pesquisador. Dois dos papers, assinados também por Lindsay H. Burns, cientista-chefe da Cassava Sciences, empresa produtora do simufilam, tratavam da proteína-alvo do medicamento.

A retirada das acusações, segundo a revista Science, pode ter relação com uma carta da administração da Cuny enviada em maio ao Escritório Federal de Integridade em Pesquisa (ORI) na qual afirma que, embora um painel de investigação tenha encontrado indícios de manipulação indevida de imagens em muitos estudos de Wang, a instituição concluiu que ele poderia não ter cometido má conduta científica com base no que chamou de “padrão probatório mais rigoroso”.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos raramente apresenta acusações criminais contra cientistas por falsificação de dados, como fez com Wang. Em geral, opta por mover ações civis com base em uma lei chamada False Claims Act, pedindo até três vezes o valor em dinheiro das bolsas de pesquisa pagas com recursos federais. Eugenie Reich, advogada especializada em fraudes científicas e denúncias contra pesquisadores, explicou à Science que ações civis exigem apenas a apresentação de evidências fortes para que um réu seja considerado culpado, enquanto o processo criminal demanda provas capazes de afastar qualquer dúvida razoável.

Nascido em Taiwan, Wang fez carreira como professor e pesquisador na Cuny, onde estabeleceu uma colaboração de anos como consultor da Cassava Sciences, empresa responsável pelo desenvolvimento do simufilam. O final feliz para o pesquisador não ofusca o fracasso do medicamento. No final do ano passado, a Cassava Sciences concordou em pagar US$ 40 milhões à Comissão de Valores Mobiliários norte-americana depois de ter sido acusada de enganar investidores sobre resultados dos primeiros ensaios clínicos do simufilam. O fármaco, ao contrário do que se esperava, não conseguiu neutralizar as alterações em proteínas no cérebro associadas à eclosão da doença. Os voluntários que tomaram o composto não tiveram desempenho melhor em atividades cognitivas do que os que receberam um placebo.

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