O mosquito Aedes aegypti é um transmissor de vírus muito bem-sucedido. Com seu corpo escuro tingido por pintas e listras brancas, ele se adaptou bem às cidades e se espalha pelas zonas tropical e subtropical de praticamente todo o planeta. Das Américas à Ásia, da Europa à da África, sem deixar de lado a Oceania. A distribuição por um território tão vasto contribuiu para tornar esse inseto uma das maiores ameaças à saúde pública mundial. Hoje, 4 bilhões de pessoas vivem em áreas onde existe A. aegypti e correm o risco de serem infectadas por um dos muitos vírus que ele transmite com competência, como o da dengue, da febre amarela, da zika e da chikungunya.
Há tempos, especialistas em insetos tentam descobrir quando e como surgiram as adaptações que permitiram ao mosquito se tornar tão cosmopolita. As respostas mais recentes e precisas sugiram em um estudo publicado em setembro na revista Science. Elas indicam que o inseto, de certo modo, contou com a colaboração humana.
No trabalho, do qual participaram dois pesquisadores brasileiros, a equipe liderada pelo entomologista norte-americano Jacob E. Crawford, do Google LLC, sequenciou o genoma completo de 1.206 mosquitos capturados em 73 locais do mundo e retraçou a história evolutiva dessa espécie.
A primeira conclusão é que o mosquito Aedes aegypti não é originário da África continental, como muitos especialistas imaginavam. Ele surgiu em ilhas da região sudoeste do oceano Índico por volta de 7 milhões de anos. O mosquito só alcançou o continente africano bem mais tarde, cerca de 85 mil anos atrás. Era um inseto de coloração mais escura, que colocava seus ovos em ocos de árvores e se alimentava do sangue de uma variedade de animais – só as fêmeas consomem sangue, o que favorece a geração dos ovos; os machos se alimentam de néctar e frutos. Os pesquisadores classificaram a variedade que entrou na África como sendo uma subespécie: Aedes aegypti formosus.
Por dezenas de milhares de anos, essa variedade espalhou-se pelo continente africano até que mudanças ambientais severas favoreceram o surgimento de outra, mais adaptada a conviver com os agrupamentos humanos no extremo oeste da África. Com o clima mais quente e seco, por volta de 5 mil anos atrás, na porção ocidental do Sahel, próximo ao atual Senegal, sobreviveram as populações do mosquito adaptadas a colocar ovos em cisternas e recipientes de água mantidos perto das habitações e a se alimentar de sangue humano. Dali, elas se espalharam pela costa oeste da África e, a partir do século XVI, chegaram às Américas por meio do tráfico de africanos escravizados. Os pesquisadores a chamaram essa variedade de proto Aedes aegypti aegypti.