Até agora, apenas animais mortos encontrados em praias denunciavam, no país, a existência de baleias-bicudas, da família Ziphiidae. Agora uma equipe de zoólogos do Instituto Aqualie, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) realizou o primeiro levantamento visual e sonoro desses animais, vivos, na costa brasileira. As observações ocorreram no extremo norte da bacia da foz do Amazonas, a cerca de 150 quilômetros (km) da costa do Amapá, próximo da área onde a Petrobras está perfurando um poço exploratório em busca de petróleo e gás natural.
A pesquisa foi financiada pela própria Petrobras, como um dos requisitos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para a licença ambiental do empreendimento, concedida no último mês de outubro. Embora a biodiversidade dos manguezais e de outros ambientes costeiros da região seja relativamente bem conhecida, pouco se sabe sobre os animais que habitam seus 350 mil km2 de águas oceânicas.
A estatal contratou a empresa de consultoria Mineral Engenharia e Meio Ambiente para organizar um projeto de monitoramento da vida marinha. Entre 2022 e 2023, especialistas em aves, tartarugas, baleias e golfinhos embarcaram oito vezes no Urano, um rebocador de 25 metros (m) de comprimento adaptado para pesquisa científica. Cada viagem durou cerca de 15 dias, partindo de Belém em direção ao alto-mar, até o norte do Amapá. A rota incluía 42 pontos por onde podem vir a circular navios de exploração petrolífera.
Em uma plataforma no alto da embarcação, pesquisadores observavam continuamente a superfície do mar com binóculos e câmeras fotográficas, do nascer ao pôr do sol. Também mediam propriedades da água e faziam gravações acústicas. Em cada um dos pontos, o Urano desligava os motores e um microfone projetado para captar sons de cetáceos descia até 150 m, gravando entre 30 e 60 minutos. Cetáceos são o grupo que engloba as 93 espécies conhecidas de baleias e golfinhos.
O biólogo Raphael Machado, estudante de doutorado orientado pelo zoólogo Artur Andriolo – professor da UFJF e diretor do Instituto Aqualie –, integrou o monitoramento de cetáceos. “Registramos vários golfinhos, como o golfinho-pintado-pantropical, o golfinho-rotador e o golfinho-de-dentes-rugosos”, ele conta. “Também baleias-piloto e um avistamento da baleia-jubarte.”
Nada, porém, chamou tanto a atenção quanto as baleias-bicudas. “Esperávamos encontrar uma ou outra, mas ficamos surpresos com a quantidade”, lembra Machado. Ao todo, foram quatro avistamentos delas descansando por poucos minutos na superfície, além de nove gravações acústicas com 1 a 22 minutos de duração. Apenas um dos relatos visuais coincidiu com uma gravação, mas foi rápido demais para ser fotografado.
Também chamadas de baleias-de-bico, as baleias-bicudas costumam ter um par de dentes em forma de presas que medem entre 5 e 10 centímetros (cm) e um focinho alongado, semelhante ao dos golfinhos. Vivem em bandos de cinco a 10 indivíduos em todos os oceanos, exceto nas regiões polares. Embora formem a segunda família mais diversa dos cetáceos, com 24 espécies (atrás apenas dos golfinhos oceânicos, que têm 37 espécies), pouco se sabe sobre elas. O principal motivo é viverem longe da costa, fazendo mergulhos longos e profundos para caçar lulas, peixes e crustáceos.
Em 2014, pesquisadores norte-americanos conseguiram implantar transmissores em algumas delas no sul da Califórnia, confirmando que podem permanecer quase duas horas submersas, atingindo profundidades próximas de 3 mil metros – dois recordes para mamíferos marinhos. Ficam pouco tempo na superfície, raramente saltando ou fazendo outro movimento. Seu comportamento tímido é uma estratégia para evitar chamar a atenção de seus principais predadores, as orcas.
Assim como as orcas e outros cetáceos com dentes, as baleias-de-bico também emitem estalidos ou cliques de ecolocalização – uma série de sons de alta frequência, inaudíveis ao ouvido humano, que refletem nos obstáculos ao seu redor e substituem a visão na escuridão do fundo do mar. Seus cliques, porém, têm uma característica peculiar. “As baleias-de-bico são as únicas que modulam a frequência sonora dos cliques enquanto nadam”, explica Machado.
Cada espécie vocaliza com uma frequência máxima que funciona como uma assinatura sonora, o que já permitiu a identificação só com base nas propriedades acústicas, em outros estudos. A biblioteca sonora desses cetáceos ainda tem muitas deficiências: um grupo de pesquisadores norte-americanos e mexicanos levou cinco anos para descobrir que gravações de 2020, na Baixa Califórnia, se referiam à baleia-bicuda-de-ginkgo, uma espécie que nunca havia sido vista viva. Além disso, alguns sons de baleias-de-bico registrados nas últimas duas décadas no Havaí, no golfo do México e na costa atlântica da África permanecem um completo mistério.
Machado e colegas não conseguiram identificar todos os animais avistados. De acordo com os pesquisadores, um deles deve ser uma baleia-bicuda-de-gervais (Mesoplodon europaeus). As demais parecem pertencer à mesma espécie ou a duas outras, a baleia-bicuda-de-blainville (Mesoplodon densirostris) e a baleia-bicuda-de-cuvier (Ziphius cavirostris). As três são consideradas as mais comuns da costa brasileira.
A análise dos sons, no entanto, indica terem sido emitidos por três espécies diferentes, embora os registros acústicos não sejam idênticos aos obtidos em outras partes do mundo. Segundo Machado, variações geográficas são comuns. “A frequência de pico da baleia-bicuda-de-cuvier pode ser uma no Pacífico e outra no Atlântico, onde os animais enfrentam pressões ecológicas diferentes”, explica ele, que não descarta a possibilidade de serem espécies ainda não descritas. “Mas como não existe registro acústico confirmado no Brasil de espécie identificada, tomamos o cuidado de não atribuir os sons a nenhuma delas.”
“Não sabemos quase nada sobre as baleias-bicudas no Brasil”, afirma o zoólogo Eduardo Secchi, da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e autor de um guia de identificação de cetáceos, que não participou do estudo. Secchi considera que uma pesquisa preliminar como essa traz informações importantes para o planejamento. “Esses estudos podem apontar áreas preferenciais para espécies dessa família e, portanto, ajudar no planejamento espacial de atividades humanas potencialmente impactantes.”
Baleias-de-bico são muito sensíveis às explosões sonoras usadas na prospecção sísmica de petróleo e gás. Estudos mostram que elas evitam áreas ruidosas e mudam seu comportamento. “Ainda há poucas pesquisas no Brasil sobre o impacto de atividades sísmicas nos cetáceos”, diz Machado, preocupado com o futuro.
Artigo científico
MACHADO, R. B. et al. Finding beaked whales in the Foz do Amazonas basin: Visual and acoustic records of a deep diving cetacean. The Journal of the Acoustical Society of America. 9 set. 2025.
