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Carta do editor | 67

AsGa, um caso exemplar

Desde que o antigo boletim Notícias FAPESP tornou-se Pesquisa FAPESP, em outubro de 1999, ainda não havíamos encontrado uma oportunidade para transformar em objeto da reportagem de capa da revista um caso de sucesso de pequena empresa, baseado em suas atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D). Foram muitos, é verdade, os bons resultados de projetos apoiados pela FAPESP, dentro do Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE), apresentados na seção de Tecnologia. Mas, ao longo das 20 edições anteriores, outros temas terminaram se impondo como assunto da capa. E ainda que os critérios para eleger o que merece a capa pareçam sempre óbvios a qualquer editor, trata-se, de fato, de escolha nem sempre fácil.

Nesta edição, no entanto, as dúvidas não prosperaram. Tínhamos a reportagem com uma charmosa pesquisa mostrando que forças atuam nos movimentos do corpo humano e indicando até a forma ideal de bater na bola de tênis. Tínhamos uma outra reportagem importante sobre o lançamento, em breve, do primeiro livro contemporâneo sobre a flora fanerogâmica do Estado de São Paulo, que reúne informações sobre quase 500 espécies de gramíneas nativas ou originárias de outros países. Seriam, em outras ocasiões, possibilidades de capa, mas não desta vez: o caso da AsGa se impôs porque ele é, no mínimo, emblemático do potencial de um setor – o das pequenas empresas – que o senso comum, pelo menos no Brasil, nem sempre associa à capacidade de inovar e fazer tecnologia de ponta. Essa pequena empresa de Paulínia, a 15 minutos da Unicamp, fabricante de multiplexadores e modens ópticos, conseguiu elevar seu faturamento de R$ 16,5 milhões, em 1999, para R$ 31,5 milhões, em 2000 e, finalmente, para os esperados R$ 100 milhões deste ano. Está obtendo essa marca impressionante, com certeza, graças à visão estratégica, à capacidade empreendedora, à saudável teimosia, até, de seus criadores, mas também e talvez principalmente por sua determinação inarredável de investir em P&D, e pelo apoio financeiro que para isso obtiveram – no caso, apoio do PIPE que, lançado em 1997, hoje financia 165 projetos de inovação em pequenas empresas, das quais muitas deverão repetir o sucesso comercial da AsGa.

Vale deter-se um pouco sobre esse exemplo da AsGa num momento em que o país propõe-se a discutir, sob os auspícios do Ministério da Ciência e Tecnologia e da Academia Brasileira de Ciências, uma política de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) para os próximos dez anos. Ora, nas conferências regionais preparatórias para esse debate nacional, entre os múltiplos diagnósticos sobre o setor, mostrou-se à exaustão que um dos mais sérios problemas da CT&I no país é sua parca capacidade de transformar conhecimento em riqueza, por uma razão fundamental: é muito baixa ainda a participação das empresas nos investimentos totais do setor, algo em torno de 30%. Será por distorções da cultura empresarial brasileira, porque faltam mecanismos suficientes de apoio ao investimento em P&D, por dificuldades conjunturais que barram os investimentos de retorno mais longo e alto risco, seja pelo que for, o que o exemplo da AsGa indica é que, com os apoios adequados, há chances, sim, de se criar no país um ambiente empreendedor novo, fundado na nítida compreensão de que conhecimento é a grande fonte de riqueza nas sociedades contemporâneas.

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