A queniana-britânica Patricia Kingori, professora da Universidade de Oxford, é uma especialista em sociologia da medicina – suas pesquisas se concentram nas experiências e nos valores de profissionais da área da saúde no continente africano – e também estuda desinformação e pseudociência na medicina. Um de seus projetos recentes inovou na forma e no conteúdo. Trata-se do documentário The shadow scholars, dirigido pela inglesa Eloise King, no qual as câmeras acompanham Kingori em uma viagem a Nairóbi, capital do Quênia. Por meio de entrevistas com jovens altamente instruídos da região, ela traz à luz uma história nada louvável: a indústria de trabalhos acadêmicos feitos por encomenda.
Milhares desses jovens, formados em universidades do Quênia, mas subempregados, escrevem desde trabalhos de graduação até dissertações e teses sobre assuntos diversificados, principalmente para estudantes de universidades dos Estados Unidos e da Europa. Os ghostwriters que se dedicam com mais afinco podem ganhar tanto quanto um médico em Nairóbi.
O documentário, que levou três anos e meio para ser concluído, mostra como o Quênia se tornou um polo desse mercado global. A força de trabalho freelancer se dedica à “escrita e tradução”, um eufemismo para a produção em grande escala de ensaios e trabalhos vendidos em plataformas on-line para clientes que se apropriam da autoria.
A socióloga contou à revista Nature que não foi difícil encontrar acadêmicos especializados nesse tipo de serviço e fazê-los compartilhar suas experiências no documentário. “Eles queriam que o mundo soubesse que existiam, porque se orgulham do seu trabalho, mesmo que não seja creditado. Muitos disseram que gostaram de ver seus textos usados em dissertações e artigos reais, ainda que com o nome de outra pessoa. O desafio não foi convencê-los a falar, mas decidir quais histórias incluir”, afirmou. Segundo ela, quem contrata esse tipo de serviço fraudulento muitas vezes imagina que os textos estão sendo escritos por pesquisadores desempregados no Reino Unido ou nos Estados Unidos. “As pessoas não conseguem imaginar que venham de jovens brilhantes do Quênia, que talvez nunca tenham saído do país, e ainda assim possuem habilidade para escrever trabalhos até de nível de doutorado.”
Em entrevista ao jornal The Guardian, o cientista da computação Thomas Lancaster, pesquisador do Imperial College London, no Reino Unido, lembra que o comércio de trabalhos acadêmicos, como o descrito no documentário de Kingori, está proibido na Inglaterra desde 2022, mas afirma que alunos ainda utilizam esses serviços. Ele conta que o advento da inteligência artificial generativa está mudando esse panorama. “Está surgindo um mercado para alunos que usam o ChatGPT na criação de um primeiro rascunho, mas que depois contratam um redator para revisar o conteúdo e reescrevê-lo, a fim de que não seja detectado como resultado de inteligência artificial”, diz. Um redator fantasma, entenda-se.
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