Número de cursos de mestrado e doutorado com notas 6 e 7 aumentou 21% no ciclo de 2021-2024
Ana Matsusaki
O número de programas de pós-graduação com notas 6 e 7, considerados de excelência, aumentou 21% no país, de acordo com a Avaliação Quadrienal 2021-2024 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), cujos resultados foram divulgados em fevereiro. No total, 808 programas stricto sensu alcançaram esse patamar, ante 667 no quadriênio anterior (2017 a 2020). Eles se concentram nas universidades públicas: 18,6% dos cursos dessas instituições receberam notas 6 e 7, ante 13,1% nas privadas.
Adotada desde a década de 1970, a avaliação mede a qualidade dos cursos de mestrado e doutorado stricto sensu, tanto acadêmicos quanto profissionais, e orienta a distribuição de bolsas e recursos financeiros para eles. Os responsáveis preenchem periodicamente um relatório com informações sobre vários quesitos: a proposta do programa, a qualificação do corpo docente, o perfil dos estudantes e a produção intelectual, além da inserção internacional. Ao todo, 4.555 programas em 50 áreas de avaliação foram analisados por 1.980 membros da comunidade científica.
O desempenho é mensurado por meio de uma escala de 1 a 7, em que as notas 1 e 2 são insuficientes, 3 é o padrão mínimo de funcionamento, 4 e 5 sinalizam boa qualidade e consolidação e 6 e 7 representam níveis de excelência, com destaque internacional. No balanço geral, 28% (1.272) dos programas subiram de nota, 60% (2.721) mantiveram-se estáveis e 8% (382) pioraram. Segundo a Capes, os 48 programas que receberam notas 1 ou 2 serão descredenciados pelo Ministério da Educação (MEC).
Na comparação com a avaliação anterior, houve uma queda no número de programas que receberam notas 3, passando de 928 para 622. Já os classificados com nota 4 aumentaram de 1.752 para 1.859, e os de nota 5, de 1.032 para 1.218. Para o físico Antonio Gomes, diretor de Avaliação da Capes, a redução no percentual de notas 3 é um movimento importante. “Avaliamos que isso se deve, em parte, a uma iniciativa da Capes chamada Programa de Redução de Assimetrias da Pós-graduação, que fez um investimento em cerca de 100 programas que historicamente apresentavam dificuldades. Como resultado, 70% deles aumentaram suas notas”, diz ele, que também é pesquisador da Universidade Federal do Ceará (UFC). É possível que esse panorama ainda mude, porque 18% dos programas entraram com pedido de reconsideração das notas e os recursos vão ser analisados até o final de maio. “A avaliação pode apresentar eventuais falhas ou gerar dúvidas de interpretação, seja por falta de cristalinidade nos pareceres ou por dificuldades na compreensão por parte dos programas”, pondera.
Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP
Cursos com desempenhos melhores reforçam sua reputação, atraem o interesse de mais alunos e têm acesso a oportunidades extras de financiamento. “Os que recebem notas 6 e 7 passam a ser contemplados pelo Proex [Programa de Excelência Acadêmica]. O problema é que o orçamento da Capes não tem aumentado ao longo dos últimos anos, o que pode limitar a expansão do apoio”, observa Roberto Goulart Menezes, decano de pós-graduação da Universidade de Brasília (UnB). Esses recursos podem ser investidos em bolsas, custeio de material de laboratório, passagens e diárias, e na realização de eventos, com a vantagem adicional de que os programas de excelência podem aplicá-los de forma flexível, seguindo suas próprias prioridades. Cursos com notas entre 3 e 5 também recebem apoio da agência federal via Programa de Apoio à Pós-graduação (Proap), com repasses mais modestos e autonomia menor.
Cláudia Wasserman, pró-reitora de Pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), conta que, embora quase três quartos dos programas da instituição tenham sido classificados com notas 5, 6 e 7 na avaliação de 2020, houve uma redução do número de bolsas, inclusive em programas de excelência, como bioquímica e genética, nos últimos anos. “Isso tem impacto direto na formação, já que alguns estudantes acabam deixando a pós-graduação por falta de recursos”, observa. Na avaliação recente, o número de programas da UFRGS com as três notas mais elevadas subiu de 73% para 79%. “Temos atuado de forma estratégica, apoiando os programas na construção de planos de curto, médio e longo prazo.”
Gomes, da Capes, reconhece a importância de ampliar o orçamento da agência. “Em 2025, a Capes concedeu o maior número de bolsas da sua história. Mas o fomento e a avaliação caminham juntos. Outras fontes de financiamento também utilizam a nossa avaliação de qualidade dos programas como referência. O fluxo de financiamento federal, estadual e até privado para esses programas tende a aumentar a partir desse reconhecimento”, complementa.
O Norte e o Centro-Oeste foram as regiões que mais se destacaram por aumentar as notas de seus programas. “Isso mostra uma capilarização da pós-graduação, com maior distribuição da qualidade pelo território do país”, destaca Gomes. A Universidade Federal do Pará (UFPA), que mantém a maior quantidade de programas de pós-graduação na região Norte, viu 38% de seus 92 programas subirem de nota, 42% se manterem estáveis e 9% apresentarem queda. Iracilda Sampaio, pró-reitora de Pesquisa e Pós-graduação da UFPA, conta que a ampliação de programas que tiveram notas 4 e 5 – 30 no total – deve permitir a abertura de novos doutorados. “Isso tem impacto direto no desenvolvimento regional, especialmente na Amazônia”, afirma. O número de programas de excelência dobrou para 14 – um dos exemplos foi o de ecologia, no campus de Belém, cuja nota saltou de 5 para 7, uma novidade na avaliação deste ano, que permitiu ascensões ou quedas abruptas.
Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP
Na UnB, pela primeira vez, um programa de pós-graduação em educação alcançou nota 6. “Isso é inédito na região Centro-Oeste e bastante significativo”, afirma o decano Menezes. “Outro exemplo relevante é o mestrado profissional voltado a povos e territórios tradicionais, majoritariamente composto por indígenas, ribeirinhos e quilombolas, que passou de nota 3 para 4 e agora poderá abrir doutorado, ampliando o impacto social e regional.” Ele destaca que, dos 90 programas da UnB, 26 subiram de nota e agora 54 deles (60%) atingiram conceitos 5, 6 e 7.
“Hoje, cerca de 54% dos nossos 94 programas têm notas 5, 6 e 7, um avanço em relação aos cerca de 50% da avaliação anterior”, conta a pró-reitora de Pós-graduação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Carol Leandro. Um dos fatores que contribuíram para esse resultado foi um programa de ações estratégicas criado em 2022. “Com recursos próprios da universidade, promovemos um modelo de mentoria em que programas com notas 5, 6 e 7 apoiaram aqueles com notas 3 e 4. Esse trabalho coletivo teve impacto direto nos resultados: conseguimos reduzir o número de programas com nota 3 de 24 em 2017 para 10 em 2025.
A Universidade de São Paulo (USP) permanece na liderança das instituições com o maior número de programas com notas 6 e 7 – 125 no total –, seguida pela Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com 50, UFRGS, com 45, Estadual Paulista (Unesp), com 44, e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com 42. “Nesse ciclo, tivemos um crescimento de cerca de 42% nos programas de excelência, com notas 6 e 7, acima da média nacional”, observa Maria Valnice Boldrin, pró-reitora de Pós-graduação da Unesp. Ela avalia que um dos fatores que explicam esse desempenho foi o esforço para aumentar a internacionalização dos cursos. Em 2020, havia cerca de 50 alunos estrangeiros na universidade, hoje são mais de 500. Já na Unicamp, 55% dos programas acadêmicos foram classificados com notas 6 e 7. “Nos programas profissionais, também há um desempenho relevante, com 50% dos mestrados atingindo a nota máxima”, observa Claudia Morelli, pró-reitora de Pós-graduação da instituição.
Gomes, da Capes, destaca que os parâmetros de avaliação devem sofrer modificações importantes no próximo ciclo, relativo ao período de 2025-2028. Uma das principais diz respeito a exigências para que programas recebam notas 6 e 7. Antes, a elegibilidade para esse patamar estava centrada na internacionalização, ou seja, em sua inserção em redes de pesquisa internacionais, um sinal de que seus pesquisadores e estudantes atuam no estado da arte de seus temas de estudo. “Na nova abordagem, os programas nota 7 vão precisar apresentar desempenho excelente em várias dimensões ao mesmo tempo, incluindo impacto na sociedade, destaque na internacionalização, contribuição para os ODS [Objetivos de Desenvolvimento Sustentável], capacidade de nuclear outros programas, interdisciplinaridade e boas práticas de pesquisa nos processos formativos”, explica.
Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP
Já para alcançar a nota 6, os programas também deverão ser muito bons nesses quesitos, obtendo excelente na maioria dessas dimensões. “Isso permite que programas com forte impacto regional sejam reconhecidos como de excelência, mesmo que a internacionalização não seja sua principal estratégia.” As mudanças devem deve tornar mais complexo o processo de avaliação.
Outra novidade será o aumento do peso de quesitos como planejamento e autoavaliação. E haverá uma transformação na avaliação de qualidade da produção científica dos programas. Em vez de se basear apenas em uma classificação de revistas em que os artigos científicos são publicados, o Qualis Periódicos, passa-se a considerar também de forma individualizada o impacto e os indicadores de cada paper. Há também a introdução dos chamados casos de impacto, que buscam valorizar contribuições específicas dos programas de pós-graduação para a sociedade, além de um olhar mais atento para políticas de inclusão e permanência.
“O grande mérito da avaliação da Capes é ser um sistema nacional único e consolidado, que influencia diretamente a produção científica e a formação de pesquisadores no país. Sem ele, a pesquisa no Brasil não seria o que é”, avalia Sergio Salles-Filho, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Organização da Pesquisa e da Inovação da Unicamp. Ele observa que a Capes tem procurado aprimorar o processo de avaliação, identificando pontos de ajuste. Em sua visão, no entanto, há variações significativas e crescentes nos critérios adotados pelas diferentes áreas do conhecimento. “Embora essa situação possa ser justificada pelas especificidades das áreas e subáreas, seria preciso entender melhor como isso vem reposicionando critérios de qualidade.”
Salles aponta a necessidade de incorporar parâmetros externos de avaliação dos programas, e cita como exemplo o Research Excellence Framework (REF), modelo de avaliação do Reino Unido que analisa o impacto e a qualidade da pesquisa nas instituições de ensino superior britânicas. “Lá, há avaliação feita por pessoas que não estão envolvidas diretamente no mesmo trabalho”, observa. “O sistema brasileiro, apesar de sua inegável importância, tem uma dinâmica endógena, em que a comunidade científica define seus critérios e se autoavalia.” Gomes concorda que os critérios precisam evoluir. “A avaliação hoje é muito focada em nós mesmos”, diz. “A participação de avaliadores externos com experiência internacional é desejável e poderá nos ajudar a qualificar ainda mais os nossos parâmetros e contribuir para o aprimoramento da pós-graduação.”
A reportagem acima foi publicada com o título “Desempenho mais robusto” na edição impressa nº 362, de abril de 2026.
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