Ao criar no Recife, em 2000, a Associação Respeita Januário, com seus colegas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e outros pesquisadores, o etnomusicólogo carioca Carlos Sandroni sugeriu batizá-la com o título da canção de Luiz Gonzaga (1912-1989) e Humberto Teixeira (1915-1979). Para ele, o clássico do forró que celebra Januário, pai de Gonzaga, conhecido mestre sanfoneiro que nunca abandonou seu instrumento de oito baixos nem o sertão onde nasceu, era uma metáfora do respeito à tradição musical brasileira. A letra pede que Gonzaga, mesmo famoso e com um acordeom de 120 baixos, não menospreze os oito baixos do instrumento de seu progenitor. Baixos são os botões acionados pela mão esquerda que fazem o acompanhamento da melodia tocada pela mão direita.
A busca pela salvaguarda da tradição musical, principalmente nordestina, foi uma das missões que nortearam a trajetória de Sandroni, que faleceu no dia 28 de outubro, aos 66 anos, no Rio de Janeiro. Ele contribuiu, por exemplo, para que gêneros da música brasileira, caso do samba de roda e do forró, fossem reconhecidos como patrimônio cultural. Além disso, ajudou a criar as bases da etnomusicologia no Brasil e escreveu livros que se tornaram referência – um deles sobre a história do samba e outro a respeito do escritor modernista Mário de Andrade (1893-1945).
Formado em sociologia, em 1981, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Sandroni fez sua pesquisa de mestrado em ciência política no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), que hoje é o Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj). A dissertação, defendida em 1987, serviu de base para o livro Mário contra Macunaíma – Cultura e política em Mário de Andrade, lançado um ano depois e reeditado pela Edições Sesc em 2024. Na obra, o pesquisador aborda a experiência do modernista como gestor cultural na cidade de São Paulo na década de 1930.
“Sandroni leu Mário de Andrade como intérprete do Brasil a partir das chaves da etnomusicologia e da sociologia. A palavra e o conceito ‘etnomusicologia’ datam da década de 1950, mas Mário já colocava em prática essa ideia desde os anos 1930”, relata a musicóloga Flávia Toni, do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP). “No livro, Sandroni joga luz naquilo que tempos depois seria entendido como gestão da cultura. Ele estuda o projeto de Mário de Andrade à frente do recém-fundado Departamento de Cultura de São Paulo, órgão da prefeitura paulistana, e na conjuntura política do Brasil na Era Vargas [1930-1945].”
Um dos aspectos abordados pelo pesquisador foi o papel da etnóloga francesa Dina Dreyfus [1911-1999] nesse processo. Ela teve participação fundamental na criação do curso Etnografia e Folclore, ministrado pela Discoteca Pública de São Paulo, que formou os pesquisadores que participaram da Missão de Pesquisas Folclóricas de 1938. A missão foi idealizada por Andrade, com o objetivo de percorrer os estados do Norte e do Nordeste do Brasil para registrar manifestações culturais e folclóricas. Toni lembra que o episódio foi tema recorrente em suas conversas com Sandroni. “Quando ele voltou ao Brasil no final dos anos 1990, após o doutorado na França, uma das primeiras pesquisas que fez foi justamente em torno da memória da Missão de Pesquisas Folclóricas”, conta a musicóloga.
O trabalho resultou na gravação de Responde a roda outra vez (2005), dois CD que reúnem músicas do interior paraibano e pernambucano. Em parceria com pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Sandroni percorreu entre 1999 e 2004 as mesmas comunidades visitadas pela missão de 1938 para registrar a música tradicional nordestina. “Trata-se de um trabalho espetacular do ponto de vista metodológico, que atualizou esse marco da musicologia brasileira”, afirma a musicóloga Rosângela Pereira de Tugny, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).
A pesquisadora foi colega de Sandroni no doutorado em musicologia na Universidade de Tours, na França. Na pesquisa, defendida em 1997, o etnomusicólogo discute os padrões rítmicos formadores do samba e propõe o “paradigma do Estácio”. “Sandroni mostra que a geração dos compositores da escola de samba Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, na virada da década de 1920 para 1930, como Ismael Silva [1905-1978] e Bide [1902-1975], trouxe um novo modelo de samba”, explica o musicólogo Yuri Prado. “Esse modelo se diferenciava do samba da primeira geração, representado por composições de Sinhô [1888-1930] e Donga [1890-1974], que era mais próximo do maxixe.”
A tese de doutorado virou o livro Feitiço decente – Transformações do samba no Rio de Janeiro (1917-1933), lançado em 2001 pela editora Zahar. “É considerada uma obra essencial sobre o tema. Em sua análise, além da música, Sandroni levou em conta o panorama social e cultural da época”, acrescenta Prado, autor da tese de doutorado “Estruturas musicais do samba-enredo”. Defendida na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP em 2018, com apoio da FAPESP, a pesquisa teve o livro de Sandroni como uma das principais referências bibliográficas.
Parceiro de Sandroni na vida acadêmica por mais de 20 anos, o etnomusicólogo Climério de Oliveira Santos, do Conservatório Pernambucano de Música e do Programa de Pós-graduação em Música da UFPE, enumera os inventários que o colega ajudou a produzir por meio da Associação Respeita Januário: sobre samba de roda do Recôncavo Baiano, forró, capoeira, caboclinho, cavalo-marinho e ciranda, entre outras manifestações da cultura nordestina. Nesses documentos, fazia questão de incluir a participação dos integrantes das manifestações culturais. “Ele se debruçou sobre tradições musicais que não eram abordadas pela musicologia clássica ocidental”, diz Santos.
Em plano de ação coordenado por Sandroni, a partir de pesquisa realizada no Recôncavo Baiano, o samba de roda da região foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2004. No ano seguinte, tornou-se Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). “Em 2019 começamos a elaborar o inventário do forró em Pernambuco para transformá-lo em patrimônio imaterial pelo Iphan, o que ocorreu em 2021”, completa Santos, um dos fundadores da Associação Respeita Januário.
A musicóloga Suzel Reily, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), destaca a atuação de Sandroni na consolidação do campo da etnomusicologia no Brasil. Em 2001, ele ajudou a fundar e foi o primeiro presidente da Associação Brasileira de Etnomusicologia (Abet). “É uma instituição muito importante para a formação de profissionais e no direcionamento da disciplina no Brasil”, avalia a musicóloga.
O pesquisador era também músico e compositor, com obras gravadas por cantores como a irmã Clara Sandroni, Adriana Calcanhotto e Milton Nascimento. Professor titular de etnomusicologia no Departamento de Música da UFPE por mais de 25 anos, ele passou como visitante por instituições como a Universidade do Texas, nos Estados Unidos, onde lecionou em 2006, e foi pesquisador no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), na França, entre 2007 e 2008. Desde 2005, atuava ainda como docente no Programa de Pós-graduação em Música da UFPB. Ao saber que estava com câncer, em 2024 se transferiu da UFPE para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), de modo a ficar perto da família. Deixa a mãe, Laura, e os irmãos Clara, Eduardo, Luciana e Paula.
A reportagem acima foi publicada com o título “Navegador de ritmos” na edição impressa nº 358 de novembro de 2025.
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