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Boas práticas

Carta de recomendação

Repositório só aceitará manuscritos de novos autores com o endosso de um pesquisador consagrado na área

Desde 21 de janeiro, o tradicional servidor de preprints arXiv impôs uma exigência extra para pesquisadores que submetem um manuscrito pela primeira vez ao repositório. Agora é necessário que o novato apresente o endosso de um autor de sua mesma área do conhecimento que já seja consagrado no arXiv. Até então, era possível publicar trabalhos no repositório sem esse tipo de carta de recomendação. Bastava ter um endereço de e-mail vinculado a uma instituição de pesquisa reconhecida.

Em entrevista à revista Science, Ralph Wijers, astrônomo da Universidade de Amsterdã, nos Países Baixos, e presidente do conselho editorial do arXiv, afirmou que a medida visa refrear a avalanche de submissões de artigos de baixa qualidade gerados por inteligência artificial.

Há algo de pedagógico na proposta. “Queremos desencorajar pessoas muito jovens e sem experiência a enviar trabalhos de baixa qualidade para o arXiv”, disse à Science. De acordo com Wijers, estudantes e jovens pesquisadores recorrem ao repositório para divulgar trabalhos ainda não revisados por pares a fim de melhorar seu histórico de publicações para conseguir um emprego ou uma vaga em um programa de pós-graduação. Mas, segundo o astrônomo, alguns deles não se dão conta de que o arXiv dispõe de 300 voluntários especialistas que analisam previamente os textos submetidos e removem manuscritos com plágio ou propostas que fogem ao escopo da ciência.

Lançado em 1991, o repositório abrigava inicialmente preprints de física, mas se expandiu para a astronomia, matemática, ciências da computação, ciência não linear, biologia quantitativa, finanças quantitativas e, mais recentemente, estatística. Hoje hospeda quase 3 milhões de manuscritos e recebe em média 20 mil novos trabalhos por mês.

Wijers afirma que, antes do advento do ChatGPT, os moderadores rejeitavam, em média, 4% dos manuscritos apresentados. Em anos recentes, o número de submissões que ele classifica como “lixo de IA” aumentou exponencialmente, começando na área de ciência da computação e se expandindo para os outros campos. O índice de rejeição subiu para até 12% em 2025 desde que o chatbot desenvolvido pela OpenAI se consolidou. “E quase todo o conteúdo ruim gerado por IA vem de autores que submetem artigos pela primeira vez”, disse. Ele avalia que os programas de inteligência artificial generativa se tornarão cada vez mais eficientes, dificultando o trabalho dos moderadores de distinguir estudos legítimos e falsos. A exigência do endosso cria uma camada extra de segurança.

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