A socióloga Anna Abalkina, pesquisadora da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, e especialista em investigação de fraudes científicas, identificou um novo tipo de trapaça na comunicação acadêmica. Ela rastreou pelo menos 20 artigos publicados em 2025 em periódicos da área de química de editoras conceituadas como Taylor & Francis, Springer Nature e Elsevier, cujo conteúdo é fabricado e os nomes dos autores são fictícios. Segundo Abalkina, o golpe provavelmente é perpetrado pelos chamados cartéis de citação, serviços obscuros que vendem a pesquisadores menções a seus artigos nas referências bibliográficas de trabalhos fabricados – dessa forma, os “clientes” aumentam artificialmente os indicadores de impacto de sua produção científica. Esses cartéis de citação cobram dos pesquisadores de US$ 5 a US$ 10 por referência, de acordo com a pesquisadora. Nos casos descobertos por Abalkina, autores sem histórico de publicações apresentaram um aumento repentino no número de artigos em periódicos. Em alguns casos, a socióloga conseguiu confirmar que esses autores não existem.
A atuação dos cartéis já era conhecida, mas a fraude nas revistas de química tem uma inovação: os papers falsos são assinados por cientistas supostamente baseados em instituições de países de baixa renda ou habitantes de zonas de conflito, como Senegal, Quênia, Somália, Iraque e Ucrânia. Com isso, os fraudadores também tiram vantagem de isenções de pagamento de taxas de publicação de artigos oferecidas por editoras a pesquisadores de regiões vulneráveis. “É um modelo de negócios perfeito”, disse Abalkina à revista Chemical & Engineering News (C&EN).
Ela explicou que o novo tipo de fraude foi identificado graças a um descuido dos fraudadores que levantou suspeitas: um investigador de integridade em pesquisa, o cazaquistanês Alexander Magazinov, deparou com papers de autores ucranianos cujos nomes tinham uma grafia incomum. Na Ucrânia, o nome feminino é tradicionalmente seguido por um primeiro sobrenome com uma terminação específica (ivna), que indica “filha do pai”. Isso não acontecia nas identidades inventadas pelos cartéis. Ao aprofundar sua investigação, Abalkina encontrou artigos falsos com autores supostamente residentes em países com direito à isenção de taxas de publicação.
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