Marcos Santos / USPO cientista político José Álvaro Moisés dedicou boa parte de sua trajetória acadêmica, iniciada em 1974 na Universidade de São Paulo (USP), aos estudos sobre a democracia no Brasil. “Ele foi um dos primeiros cientistas políticos a realizar em termos acadêmicos pesquisas de opinião no país, na década de 1980, para entender a percepção dos brasileiros a respeito do sistema democrático e das instituições”, relata a cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, pesquisadora sênior do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). O pesquisador morreu no dia 13 de fevereiro, em Ubatuba, no litoral paulista, aos 81 anos.
Maria Hermínia conheceu Moisés nos anos 1960, quando ambos cursavam ciências sociais na USP. No doutorado realizado na mesma instituição, foram orientados pelo cientista político Francisco Weffort (1937-2021). Moisés escreveu a tese “Classes populares e protesto urbano”, que teve apoio da FAPESP e foi defendida em 1978. Entre suas principais referências acadêmicas na USP, além de Weffort, estavam as antropólogas Eunice Durhan (1933-2022) e Ruth Cardoso (1930-2008), e o sociólogo Fernando Henrique Cardoso.
Nascido em Campinas (SP), Moisés se mudou para a capital paulista em 1963, aos 18 anos. Antes de se dedicar integralmente à pesquisa, trabalhou também como repórter, redator e editor no jornal Folha de S.Paulo nas décadas de 1960 e 1970. Em 1974, ingressou como professor na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Mais tarde, em 1987, participaria do desmembramento do Departamento de Ciências Sociais daquela universidade. Na ocasião, foram criados os departamentos de Sociologia, de Antropologia e o de Ciência Política, que Moisés dirigiu em seus dois primeiros anos com o cientista político José Augusto Guilhon Albuquerque.
“Ele era um construtor de instituições”, diz Maria Hermínia. Ao longo de sua trajetória, o cientista político ajudou a organizar e presidiu o Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP, criado em 1990, e o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec), fundado em 1976. Além disso, participou da estruturação da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP na década de 2000, onde coordenou o curso de Gestão de Políticas Públicas (2004-2006).
A preocupação com a democracia brasileira não se limitou à produção acadêmica. A cientista política Lourdes Sola, pesquisadora sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, lembra que Moisés estava engajado na militância desde o início da década de 1960. No ensino médio fez parte da Juventude Estudantil Católica, presidiu a União Paulista dos Estudantes Secundaristas (Upes), em 1963, e entrou também na Ação Popular, organização de esquerda com raízes no catolicismo.
Em 1966, durante a ditadura militar (1964-1985) e ano de seu ingresso na graduação da USP, foi preso com outros três colegas de faculdade, acusado de articular a realização de um congresso da União Nacional de Estudantes (UNE) em Minas Gerais. “A efervescência política e intelectual do período de exceção acentuou a sensibilidade política de Moisés”, observa Sola, que atualmente coordena o Grupo de Pesquisa em Economia Política Internacional, Variedades de Democracia e Descarbonização no IEA-USP. “Nos anos 1970, ele apoiou as greves operárias do ABC paulista e participou da fundação do PT [Partido dos Trabalhadores], em 1980.”
A questão sindical inspirou seus primeiros livros. Greve de massa e crise política: Estudo sobre a greve dos 300 mil em São Paulo (1953-54) (Livraria Editora Polis, 1978) é desdobramento da pesquisa de mestrado que realizou na Universidade de Essex, no Reino Unido, defendida em 1972. O prefácio é assinado pelo sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995), da USP. Sobre a mesma temática publicou Lições de liberdade e opressão: O novo sindicalismo e a política (Editora Paz e Terra, 1982).
Antes de participar da fundação do PT, Moisés militava no Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido de oposição ao regime militar. O cientista político permaneceu no PT até a vitória de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) à Presidência da República em 1994. “Em 1995, ele aceitou o convite de Weffort, que era ministro da Cultura, para dirigir a Secretaria do Apoio à Cultura, onde ficou pelos quatro anos do primeiro mandato de Fernando Henrique. Já no segundo mandato, foi secretário do Audiovisual”, conta Maria Hermínia.
No ano em que Moisés entrou no Ministério da Cultura, foi lançado um de seus livros mais importantes, Os brasileiros e a democracia: Bases sociopolíticas da legitimidade democrática (Ática). Por meio dos estudos sobre a democracia, ingressou em redes internacionais de pesquisa, como a Associação Internacional de Ciência Política.
“No início dos anos 2000, Moisés me procurou para conversar a respeito de pesquisas sobre a política no país e dessas conversas nasceu o projeto ‘Desconfiança nas instituições democráticas pelos cidadãos brasileiros’, que teve apoio da FAPESP”, conta a cientista política Rachel Meneguello, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O estudo, que contou com uma pesquisa nacional em 2006, rendeu dois livros, Democracia e confiança. Por que os cidadãos desconfiam das instituições públicas? (Edusp, 2010) e A desconfiança política e os seus impactos na qualidade da democracia (Edusp, 2013).
Entre 2018 e 2023, Moisés e Meneguello conduziram duas novas pesquisas nacionais, dessa vez dedicada à qualidade da democracia, também com apoio da FAPESP. “Ficamos surpresos com a mudança de percepção dos cidadãos sobre a democracia a partir da ascensão da extrema direita no Brasil”, recorda Meneguello. “Antes, a democracia era entendida sobretudo como a conquista de direitos civis, sociais e políticos. Depois, passou a incorporar a ideia de liberdade sem controle, para fazer o que se quer.”
Para o cientista político Henrique Carlos de Castro, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Moisés procurava colocar no centro do debate as crenças, aspirações e percepções dos cidadãos, como ponto de partida para compreender a política e a sociedade brasileiras. “Ele defendia que as instituições tinham a obrigação de funcionar bem, mas isso não era o suficiente para haver democracia: ela mesma dependia da crença da população no seu bom funcionamento”, acrescenta.
Orientando de Moisés no mestrado e no doutorado, o cientista político Rogerio Schlegel destaca o papel do pesquisador na atualização da agenda de pesquisa sobre cultura política no país. “Ele ajudou a incorporar à agenda brasileira debates conduzidos por intelectuais como a cientista política britânica Pippa Norris, da Universidade Harvard, autora de obras como Critical citizens [Oxford University Press, em 1999]”, diz Schlegel, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Em sua avaliação, o pesquisador sustentava que as críticas dos cidadãos poderiam fornecer elementos capazes de aprimorar as instituições e a democracia.
Meneguello ressalta o compromisso de Moisés com a mobilização em defesa da democracia e sua vocação para o diálogo. “Discordávamos em muitos pontos políticos, mas as divergências eram sempre muito produtivas e conseguimos realizar muitas coisas juntos”, afirma. Maria Hermínia concorda: “Ele era um intelectual genuinamente aberto a ideias diferentes das suas”. A pesquisadora pretende agora concluir, ao lado da cientista política Maria Tereza Sadek, da USP, o último projeto do amigo: um livro em homenagem à obra de Weffort sobre democracia. “Moisés trabalhou nesse projeto até os últimos dias de vida”, relata.
O cientista político deixa os filhos Pedro, Reinaldo e Marcelo, que teve com a ex-mulher, a atriz Thaia Perez.
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