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Agricultura

Combate natural na terra cultivada

Fungos predadores de vermes danosos a várias culturas podem ser produzidos em escala

MIGUEL BOYAYANUm coquetel de cinco fungos pode se tornar em breve um importante aliado no combate a uma das pragas mais danosas ao cultivo de flores e hortifrutigranjeiros: os nematóides de galha (Meloidogyne spp.), vermes parecidos com minhocas, mas muito menores, que medem entre 0,5 milímetro na fase juvenil e 1 milímetro na fase adulta. Eles se instalam nas raízes das plantas e causam alterações visíveis na forma de caroços chamados de galhas, que reduzem a absorção e o transporte de água e de nutrientes para a planta, comprometendo ou, em casos extremos, até mesmo inviabilizando a cultura.

O agrônomo Jaime Maia dos Santos, da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Jaboticabal, comprovou que alguns fungos, encontrados normalmente no solo e inofensivos às culturas, se crescidos num preparado especial de arroz, transformam-se num poderoso predador natural desse tipo de nematóide. “Com o coquetel, podemos pensar em fazer o controle biológico dessas pragas, sem recorrer a produtos químicos para matar os nematóides”, comenta Santos, que, se arrumar um parceiro comercial, deve passar a produzir em escala o seu preparado de fungos nematófagos, de olho no crescente mercado da agricultura orgânica.

O pesquisador acredita que exista demanda por um produto barato e ecológico como a sua mistura de fungos contra nematóides. “Não sei exatamente quanto custaria o tratamento com o coquetel, mas posso garantir que é algo bem em conta”, afirma o agrônomo. Além de caros, os nematicidas químicos podem ser danosos ao ambiente. Para complicar ainda mais a vida do agricultor, as outras alternativas empregadas no combate a esses vermes – como a rotação de culturas (para reduzir a quantidade de nematóides no solo) ou o emprego de variedades de plantas mais resistentes a essa praga agrícola – estão pouco disseminadas ou não estão à mão do homem do campo.

É verdade que ainda não se pode dizer que o coquetel é a salvação da lavoura em termos de combate aos nematóides de galha. Eles atacam desde plantas como feijoeiro até árvores como a seringueira. Os maiores prejuízos são causados nas espécies vegetais que demoram cerca de 90 a 100 dias para crescer e produzir, as chamadas culturas de ciclo curto, como tomate, alface, pepino, melão e flores em geral. Isso porque, por enquanto, o produto mostrou-se eficaz apenas quando aplicado em locais onde o cultivo ocorre em estufas. “Em plantações a céu aberto, em que a temperatura e umidade variam muito, o coquetel não se deu bem”, afirma Santos, cujas pesquisas são financiadas pela FAPESP em dois projetos.

Flores e hortaliças
Outra restrição, temporária na visão dos cientistas: até agora, o preparado contra os nematóides só obteve pleno sucesso no cultivo do crisântemo (Dendranthema grandiflora). Experimentos feitos em culturas de algodão e laranja, que são costumeiramente atacadas por espécies de vermes semelhantes aos nematóides de galha, indicam que o coquetel ainda não alcançou o efeito esperado. “Mas acreditamos que o controle biológico vai funcionar em plantas ornamentais e hortaliças em geral”, diz o agrônomo. “Tanto que iniciamos testes em estufas e a céu aberto com outras espécies de flores e tomates.”

O entusiasmo de Santos com o coquetel de fungos vem dos excelentes resultados obtidos recentemente em estudos conduzidos num dos grandes pólos da floricultura nacional, o município paulista de Holambra. Testes feitos durante o verão em estufas de uma propriedade da região, o sítio Pedra Branca, mostraram que uma variedade de crisântemos de coloração branca chamada de Calábria respondeu positivamente ao controle biológico de nematóides. A produtividade dos canteiros altamente contaminados por nematóides cujo solo, antes do plantio da muda, recebeu a mistura de fungos foi no mínimo 30% superior ao rendimento dos canteiros igualmente infestados mas que não passaram pelo controle biológico.

Inovação ambiental
Outro benefício do coquetel: a área tratada com os fungos rendeu flores com hastes de melhor qualidade e maior tamanho e diâmetro. “Esse tratamento é uma das principais inovações dos últimos anos, tanto no aspecto tecnológico como ambiental”, avalia o agrônomo Jaime Motos, da Flortec, uma empresa de Holambra que presta consultoria técnica aos produtores da região e participou dos experimentos.

Nas pesquisas de campo, os agrônomos constataram que o nematicida ecológico pode ser aplicado no solo da estufa antes do plantio das flores ou no próprio substrato que vai receber a muda. Os estudos também comprovaram que o emprego do coquetel de cinco fungos – Paecilomyces lilacinus, Arthrobotrys musiformis, Arthrobotrys oligospora, Dactylella leptospora e Monacrosporium robustum, este último uma espécie registrada pela primeira vez no Brasil pela professora Arlete Silveira, ex-membro da equipe de Santos – é mais eficiente no combate aos nematóides de galha do que o uso isolado de apenas uma ou duas espécies desses microrganismos.

Esses fungos têm velocidade de crescimento e capacidade competitiva com outros microrganismos do solo. Além disso, o fato de cada fungo atacar os nematóides de uma forma diferente e, às vezes, em estágios distintos da vida do parasito, talvez contribua para o sucesso do preparado biológico. O M. robustum, por exemplo, perfura os ovos dos nematóides, destruindo-os, golpe que ajuda a quebrar o ciclo reprodutivo do verme. Algumas espécies de Arthrobotrys formam anéis nos poros do solo por onde os nematóides migram. Ao penetrarem nesses anéis, esses se contraem estrangulando os nematóides. O A. oligospora produz redes adesivas para capturar os nematóides, romper a parede do corpo e consumir o seu conteúdo.

O palco dessa luta é o solo próximo às raízes da planta infestada – e não o interior do vegetal. Após a eclosão dos ovos, os vermes deixam o solo, penetram nas raízes das plantas hospedeiras, onde permanecem até a fase adulta. Lá, eles geram as galhas que levam ao apodrecimento das raízes, comprometem o crescimento e a produção da planta. Estima-se que a produção agrícola tenha uma perda de rendimento de mais de 10% em razão da ação dos nematóides.

Fera nos testes
Embora os resultados promissores do coquetel de fungos ainda se restrinjam a um tipo de flor e a locais de cultivo controlado (estufas), o pesquisador da Unesp se mostra feliz em saber que seu produto será uma alternativa viável, pelo menos, para os cultivos protegidos. “Às vezes, o fungo é uma fera nos testes de laboratório, mas decepciona quando o levamos a campo”, pondera Santos, que se deu conta da eficácia desses microrganismos na luta contra os nematóides há cerca de cinco anos, quando tentava controlar infestações desses vermes em seringais em Mato Grosso.

Com um pouco de sorte e muita observação, o agrônomo chegou aos fungos nematófagos. O pesquisador não estava obtendo muito sucesso no controle da praga, quando percebeu que, de forma aparentemente espontânea, sem a ajuda de nenhum produto químico, algumas seringueiras se livraram dos nematóides enquanto outras nunca logravam tal feito. O dado o intrigou e, depois de uma série de análises, Santos identificou uma grande população de fungos na terra junto às raízes das árvores que haviam se livrado da praga. Surgia assim a idéia de usar os fungos encontrados nos seringais de Mato Grosso (presentes também em outras partes do país) como controle biológico em outras plantas.

Nematóides dos citros
Num outro trabalho executado por um membro da equipe de Santos na Unesp de Jaboticabal, o biólogo Anderson Soares de Campos fez um levantamento nas principais zonas de laranjais do Estado sobre a incidência do chamado nematóide dos citros (Tylenchulus semipenetrans e Pratylenchus spp.) em viveiros fechados, a céu aberto e em pomares comerciais. Os resultados foram preocupantes.

Pouco mais de um terço dos viveiros a céu aberto, além de três protegidos e quase três quartos dos pomares comerciais estavam infestados pelo nematóide dos citros, que parasitam as raízes das laranjeiras e dos limoeiros e lhes rouba água e nutrientes, reduzindo, em média, a produtividade do cultivo em 14%. No mesmo trabalho, também foi constatado que pouco menos de 20 pomares e, pelo menos, sete viveiros abertos estavam infestados por Pratylenchus jaehni, uma espécie nova, descrita na literatura científica apenas no ano passado por pesquisadores do exterior, com a participação de Santos.

Para verificar a incidência de nematóides em viveiros, Campos recolheu 2.518 amostras de 595 viveiros localizados em 99 municípios paulistas. No caso de pomares comerciais, o biólogo analisou 1.078 amostras coletadas em pomares de 86 municípios. “A principal forma de infestação dos laranjais por nematóides é por meio do uso de mudas já infestadas com o verme”, diz Santos. A partir do próximo ano, serão proibidos a produção, comercialização e o transporte de mudas de citros produzidas a céu aberto no Estado de São Paulo.

“Essa medida, aliada ao combate da praga nos laranjais, deve ajudar a reduzir os danos causados pelos nematóides”, avalia Santos. O apoio à implementação dessa iniciativa é mais uma luta abraçada pelo grupo de Jaboticabal, que espera disponibilizar, em breve, para os agricultores, os fungos predadores de vermes.

Os projetos
1. Caracterização Morfológica e Bioquímica de Populações de Pratylenchus coffeae do Brasil (nº 99/09565-1); Modalidade
Linha regular de auxílio à pesquisa; Coordenador Jaime Maia dos Santos – Unesp; Investimento R$ 44.463,93
2. Eficácia do Controle Biológico do Nematóide dos Citros (Tylenchulus semipenetrans) com Fungos Nematófagos (nº 00/15040-8); Modalidade Linha regular de auxílio à pesquisa; Coordenador Jaime Maia dos Santos – Unesp; Investimento R$ 46.485,00

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