Há mais de 100 milhões de anos, pterossauros – alguns gigantescos, outros com centenas de dentes parecidos com os das baleias e uma dieta similar à dos flamingos ou com uma grande crista sobre a cabeça – viveram, respectivamente, no que hoje é o Rio Grande do Norte, São Paulo e o litoral da Síria. Os achados foram descritos em uma série de artigos publicados por pesquisadores brasileiros durante o ano de 2025.
Naquela época, o centro-leste paulista era um grande deserto com dunas de areia, e foi por ali que um pterossauro acabou deixando a marca de uma pata dianteira e uma traseira durante suas andanças. As pegadas – as primeiras de um réptil alado descrita no Brasil – foram preservadas porque a depressão deixada na areia pelo peso do animal foi coberta por outros sedimentos.
O paleontólogo Marcelo Fernandes, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), foi o primeiro a descrever o rastro fóssil em sua tese de doutorado, defendida em 2005 na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas na época a identificou como pegadas deformadas de dinossauro. Vinte anos depois, decidiu aplicar novas tecnologias na revisão do material com o paleontólogo Mauro Lacerda, pesquisador de pós-doutorado na UFSCar, com bolsa da FAPESP, e concluíram que poderia ser um rastro de pterossauro.

LACERDA, M. B. S. et al. Anais da Academia Brasileira de Ciências. 2025Reconstrução 3D de pegadas traseira (à esq.) e dianteira permitiu entender como o animal pisava: mais profundo em azul, elevado em vermelhoLACERDA, M. B. S. et al. Anais da Academia Brasileira de Ciências. 2025
Na nova análise, os pesquisadores fizeram modelagem 3D das peças e pediram ajuda ao paleontólogo italiano Giuseppe Leonardi, aposentado pelas universidades Federal do Paraná (UFPR) e Estadual de Ponta Grossa (UEPG), para identificar o material, dada a sua experiência com registros de pegadas. “Essa ferramenta permite observar detalhes que antes não eram vistos”, comenta Fernandes sobre o salto tecnológico em sua pesquisa. “Na época da minha tese, usei fotos com sombreamento, uma técnica para ressaltar detalhes da peça, com uma máquina fotográfica de 4 megapixels [mp], uma tragédia”, brinca ele. As câmeras de celulares modernos têm no mínimo 8 mp e alguns modelos superam 200 mp.
Com base nas pegadas, os paleontólogos verificaram que o animal se apoiava sobre os dedos das patas da frente, integradas nas asas, e com toda a sola das patas de trás. Também usaram o tamanho dos rastros para inferir suas medidas – aproximadamente 2,5 metros (m) de envergadura – e concluíram que se tratava de um pterossauro aparentado de Tupandactylus, um gênero que viveu no que hoje é o Nordeste do Brasil há 112 milhões de anos.
Foi justamente no Nordeste que uma equipe coordenada pela paleontóloga Aline Ghilardi, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), descreveu uma nova espécie de pterossauro a partir de fósseis preservados no vômito fossilizado de um dinossauro predador. O nome técnico para esse tipo de fóssil é regurgitólito.
Julio LacerdaA história por trás da identificação lembra um pouco o caso das pegadas: o fóssil de vômito estava guardado há décadas no Museu Câmara Cascudo, da UFRN, mas nunca havia sido identificado formalmente. Durante as análises, o estudante de biologia William Bruno de Souza Almeida identificou fósseis de peixe no aglomerado, mas percebeu outras estruturas estranhas e pediu ajuda para Ghilardi, sua orientadora. “Dias antes, eu tinha lido um artigo sobre um pterossauro argentino que, por coincidência, era muito parecido com o que vimos naquele fóssil”, conta a pesquisadora. “Na hora, percebi que podia ser um exemplar de um pterossauro muito raro.” Ela então convidou especialistas em pterossauros, entre eles a paleontóloga Rubi Pêgas, pesquisadora de pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP).
A raridade do achado consiste no fato de que a espécie, com idade calculada em 110 milhões de anos e nomeada Bakiribu waridza, tinha uma arcada dentária de 450 a 500 dentes que parecia um pente-fino, similar à das baleias e dos flamingos, usada para filtrar pequenos animais invertebrados que vivem na água. “É uma espécie muito especializada e inédita no Brasil”, diz Ghilardi. Até hoje, espécies desse grupo, Ctenochasmatidae, já foram encontradas na Argentina, no Uruguai e no Chile. A espécie argentina, batizada de Pterodaustro guinazui, é a recordista no número de dentes, com cerca de mil deles.
Segundo o artigo, publicado em novembro na revista Scientific Reports, o réptil alado com dentes de baleia foi vítima de um ataque voraz de algum megapredador, provavelmente um espinossauro. Por algum motivo a refeição não teria caído bem e o carnívoro acabou regurgitando a presa. “Como o vômito é coberto de muco, os ossos ficaram protegidos tempo suficiente para acabarem cobertos pelo sedimento, o que levou à sua fossilização”, explica Ghilardi.

Aline Ghilardi / UFRNUma profusão de dentes permitia que o animal filtrasse alimento na água; fóssil foi encontrado no Nordeste em vômito fossilizadoAline Ghilardi / UFRN
Na Síria, pterossauros litorâneos
Bem longe da América do Sul, a paleontóloga sírio-brasileira Wafa Adel Alhalabi, da USP, publicou a primeira descrição de fósseis de vertebrados da Síria em mais de duas décadas. O estudo revelou parte do úmero de um pterossauro gigantesco encontrado em 2003 na região de Palmyra, em depósitos de fosfato marinho.
As estimativas indicam que, com 10 m de envergadura, o animal era apenas 10% menor que o maior pterossauro já registrado, o colossal Quetzalcoatlus northropi. “O tamanho foi muito surpreendente para nós”, conta Alhalabi. “Os pterossauros identificados no Líbano e na Jordânia são menores.” Inabtanin alarabiam, encontrado na Jordânia, tinha cerca de 5 m de envergadura. Já Microtuban altivolans, que viveu no que hoje é o Líbano, tinha menos de 2 m.
O achado sírio muda a compreensão sobre os hábitats dos pterossauros. “É mais uma evidência que sustenta a teoria de que esses animais frequentaram também os ambientes marinhos e viveram no litoral”, diz Alhalabi. Isso poderá ser confirmado com novas pesquisas, incluindo outros sete achados paleontológicos que aguardam financiamento para serem estudados.
O fóssil sobreviveu às dificuldades de pesquisa na Síria, onde a falta de laboratórios especializados e os impactos da guerra limitaram o acesso ao material por anos. “Examinar o fóssil foi muito difícil, porque não há laboratórios específicos nem equipamentos”, conta Alhalabi. Na USP, ela usa uma máquina de pressão de ar para limpar o sedimento dos fósseis, mas na Síria só contava com a tradicional escova de dentes. Apesar das restrições, a equipe conseguiu examinar a peça e avançar na identificação do pterossauro.
Caetano SoaresOrigem explicada
Além das novidades sobre a diversidade do grupo, pesquisadores brasileiros evoluíram no entendimento sobre a origem desses répteis alados. Um estudo publicado em fevereiro nos Anais da Academia Brasileira de Ciências defende que os lagerpetídeos – pequenos répteis terrestres do Triássico – foram ancestrais diretos dos pterossauros (ver reportagem sobre evolução do voo). A conclusão se diferencia da de análises de parentesco dessas espécies feitas entre 2020 e 2023 (ver Pesquisa FAPESP n° 299) que apontava as espécies como grupos irmãos, mas sem uma relação de ascendência e descendência.
“Eram bons estudos, mas decidimos aprimorar a análise com mais fósseis, incluindo exemplares muito bem preservados, alguns dos quais encontrados por nós em sítios do Rio Grande do Sul”, conta o paleontólogo Maurício Garcia, estudante de doutorado na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), um dos autores do artigo. O trabalho consistiu na análise de mais de 300 características e de mais de 80 espécies de lagerpetídeos, de dinossauros próximos dos répteis alados e de outros ancestrais dos pterossauros encontrados em países como Brasil, Argentina, Itália e Estados Unidos.
Os lagerpetídeos surgiram e começaram a se desenvolver nas paisagens áridas de clima quente e seco que predominavam no supercontinente Pangeia durante o Triássico, período geológico datado entre 251,9 milhões e 201,4 milhões de anos atrás. Entre os mais antigos representantes do grupo estava Ixalerpeton, com ossos longos e finos e hábitos terrestres consolidados.
Com a dispersão desses répteis pelo mundo, outras espécies surgiram. Uma delas foi Venetoraptor gassenae, que tinha a parte frontal da mandíbula sem dentes e coberta por queratina, lembrando um bico, e uma pélvis bem estruturada, que facilitava saltos longos. Além disso, o quarto dedo da pata dianteira era bem maior que os outros, uma inversão rara nunca antes vista entre os pré-pterossauros, mas típica dos primeiros voadores.
Essas duas espécies foram algumas das incluídas pelos pesquisadores na nova análise. Ao todo, o acréscimo incorporou seis lagerpetídeos bem preservados do Rio Grande do Sul – Ixalerpeton polesinensis, Venetoraptor gassenae, Faxinalipterus minimus e três ainda não identificados – e sete espécies de pterossauro do Triássico, dos gêneros Carniadactylus, Seazzadactylus, Arcticodactylus, Austriadactylus, Austriadraco, Caelestiventus e Peteinosaurus.
“Com essa atualização na base de dados, vimos que os lagerpetídeos têm mais similaridades com os pterossauros do que com os dinossauros”, conta Garcia. Parte das semelhanças são as estruturas pélvicas, o quarto dedo alongado e a estrutura bucal similar com um bico. “Venetoraptor é crucial, porque mostra essa transição gradual.” Ghilardi resume: “Esse conjunto de descobertas mostra que os pterossauros atingiram um nível muito grande de diversidade e adaptação e conquistaram vários nichos do planeta. Era um grupo fantástico”.
A empolgação não é à toa. Normalmente, fósseis de pterossauros são difíceis de encontrar, porque seus ossos eram ocos e finos para o voo, tornando-os frágeis e propensos à fragmentação. Mas, por uma junção de investimento, novas pesquisas, revisões em fósseis já estudados e uma dose de sorte, o ano de 2025 foi uma bela exceção.
A reportagem acima foi publicada com o título “Nas asas dos pterossauros” na edição impressa nº 359 de janeiro de 2026.
Projeto
Explorando a diversidade dos dinossauros do Cretáceo Sul-americano e suas faunas associadas (n° 20/07997-4); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Max Cardoso Langer (USP); Investimento R$ 5.204.941,88.
Artigo científico
BRONZATI, M. et al. Neuroanatomical convergence between pterosaurs and non-avian paravians in the evolution of flight. Current Biology. v. 35, p. 1-8. 26 nov. 2025.
