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Boas práticas

Contra a armadilha

Estudo propõe chamar periódicos predatórios de “revistas não recomendadas” para evitar processos judiciais

Um grupo internacional de pesquisadores propôs uma nova forma de se referir às revistas predatórias, publicações com práticas editoriais displicentes ou fraudulentas, que em geral aceitam divulgar papers em troca de dinheiro, sem submetê-los a uma revisão por pares genuína. A sugestão é passar a chamá-las de “revistas não recomendadas”. Em um artigo de revisão publicado no Barw Medical Journal, os autores argumentam que o novo termo, de caráter menos acusatório e pejorativo, pode cumprir mais adequadamente a missão de alertar os pesquisadores sobre os riscos de publicar nesses periódicos e, ao mesmo tempo, evitar conflitos e ameaças de processos judiciais. “A adoção dessa terminologia permite que pesquisadores e instituições continuem a abordar preocupações sobre práticas editoriais de baixa qualidade ou enganosas, fomentando, ao mesmo tempo, um diálogo mais construtivo”, escreveram os mais de 46 autores do estudo, na maioria médicos afiliados a instituições de países como Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Itália, África do Sul, Índia e Nigéria.

O artigo mostra como o termo “revista predatória”, embora sinalize com precisão a gravidade do problema, sempre esteve associado a controvérsias. Ele se tornou popular por conta de uma lista de periódicos com práticas questionáveis compilada entre 2008 e 2017 pelo bibliotecário Jeffrey Beall, da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, que se tornou uma referência mundial de publicações suspeitas. A lista original deixou de ser publicada depois que Beall enfrentou processos milionários movidos por editoras que discordavam de seus critérios e se diziam injustiçadas.

Outro problema é que sempre houve dificuldade de definir o que é uma revista predatória. Para além de títulos fraudulentos que aceitam publicar manuscritos sem sequer lê-los ou que têm práticas de marketing e cobrança agressivas e abusivas, frequentemente eram incluídas no guarda-chuva das revistas predatórias publicações de qualidade inferior, mas legítimas, ou mesmo periódicos de acesso aberto de uma forma ampla. “O contraste implícito (‘não recomendado’ versus ‘recomendado’) convida à reflexão crítica sobre os critérios de publicação de qualidade e mantém um grau de ambiguidade estratégica, o que pode fomentar um engajamento mais amplo das partes interessadas”, diz o artigo.

A busca por uma nomenclatura mais adequada não é nova. O estudo menciona um levantamento realizado em 2020 nos sites de bibliotecas de 20 universidades dos Estados Unidos e do Canadá, mostrando que a metade delas ainda usava o termo “predatório”, enquanto as demais recorriam a uma terminologia alternativa, usando adjetivos como enganoso, suspeito e indesejável.

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