Cerca de 10 anos após anunciar a intenção de construir um veículo elétrico de decolagem e pouso vertical (eVTOL), aeronave conhecida popularmente como carro voador, a Embraer realizou em 19 de dezembro o primeiro voo do protótipo em escala real, dando início à fase de testes em voo. O aparelho da Eve Air Mobility, startup de mobilidade aérea urbana criada pela fabricante brasileira, fez um voo pairado e remoto (sem piloto a bordo), com aproximadamente um minuto de duração, no complexo de testes de Gavião Peixoto (SP), unidade da Embraer usada para campanhas de ensaio em voo de novos projetos aeronáuticos.
Com o objetivo de obter a certificação do aparelho na Agência Nacional de Aviação (Anac), a empresa planeja realizar centenas de voos com o protótipo ao longo deste ano. A certificação comprova que o eVTOL é seguro para voar e operar comercialmente em larga escala, atendendo critérios de desempenho, gerenciamento de energia, emissões, entre outros. Se tudo correr como o planejado, o carro voador brasileiro deverá entrar em operação comercial em 2027.
A carteira de intenções de compra da aeronave gira hoje em torno de 3 mil unidades. O custo do modelo é estimado em aproximadamente US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 8 milhões). “A conversão das intenções de compra em contratos firmes depende de marcos importantes de credibilidade, como a realização do primeiro voo”, destaca Luiz Valentini, diretor de Tecnologia da Eve.
Durante o voo inaugural, foi testada a integração de sistemas essenciais da aeronave, como o conceito de fly-by-wire (sistema de controle de voo por computador) de quinta geração e os rotores (ou hélices) dedicados ao voo vertical. Também foram avaliados o gerenciamento de energia, a resposta dinâmica da aeronave e o nível de ruído.
Híbrido de avião e helicóptero, o eVTOL é uma nova modalidade de transporte aéreo ainda em desenvolvimento no mundo todo. Essas aeronaves são consideradas uma alternativa mais sustentável para a mobilidade aérea em centros urbanos. Dotadas de motores elétricos e sistemas avançados de automação, decolam e pousam na vertical, como os helicópteros, e fazem voos de cruzeiro na horizontal, como os aviões. Estão sendo projetadas para realizar trajetos curtos, de 20 a 100 quilômetros, dentro de cidades ou entre municípios próximos.
O protótipo da Eve fez o chamado hover flight, situação em que o eVTOL permanece imóvel no ar sobre um ponto fixo no solo, mantendo altitude e posição constantes. O voo, segundo a Eve, foi um sucesso. “Validamos elementos críticos, desde nossa arquitetura de rotores sustentadores até a mecânica de voo da aeronave. Agora seguimos para a fase de testes em voo com foco em evoluir a maturidade do produto”, declarou na ocasião Jorge Bittencourt, diretor de Produto da Eve.

EmbraerO voo pioneiro do aparelho ocorreu em dezembro de 2025Embraer
“O comportamento do protótipo em voo ficou dentro do esperado, conforme previsto pelos nossos modelos e em linha com os objetivos dessa etapa inicial”, completou Valentini. “Com esses dados, ampliaremos o envelope da aeronave e avançaremos para o voo de transição sustentado pelas asas.”
O envelope de voo mencionado por Valentini caracteriza os limites operacionais seguros de uma aeronave, ou seja, a faixa de parâmetros de operação na qual não há danos estruturais ou perda de controle. “Esses parâmetros incluem a velocidade mínima e máxima, a maior aceleração que a aeronave pode desenvolver durante manobras, a qual altitude chega, o peso que consegue carregar”, explica o engenheiro mecânico Domingos Rade, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos (SP). “Isso significa que os testes já realizados cobriram uma parte limitada do envelope de voo definido no projeto.”
Segundo Rade, que coordena o Centro de Pesquisa em Engenharia para a Mobilidade do Futuro (Flymov), criado em 2023 pela FAPESP e a Embraer, o primeiro voo de um protótipo é um passo de extrema importância porque, além de marcar a finalização da primeira parte do programa de desenvolvimento, permite avaliar diversas premissas adotadas no projeto, bem como verificar o funcionamento integrado de sistemas relevantes da aeronave. “No caso do aparelho da Eve, mesmo em voo pairado e com pilotagem remota, os testes permitem avaliar a performance dos propulsores elétricos, do fluxo de energia e gerenciamento térmico das baterias, o comportamento dos sistemas de controle, entre outros”, diz o pesquisador do ITA.
O engenheiro mecânico Marcelo Alves, do Departamento de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), avalia que o voo de dezembro foi um marco crítico na campanha de desenvolvimento do eVTOL. “Valida a arquitetura básica do produto, confirma a integridade estrutural e os sistemas de controle em condições reais”, diz. “Com esse voo experimental, a Eve demonstrou que o protótipo é capaz de operar de forma segura em um ambiente controlado, pavimentando o caminho para testes mais avançados e a certificação.”
Para dar sequência à campanha de ensaio em voo, a Eve construirá seis protótipos de certificação em sua fábrica em Taubaté (SP). “O uso de seis aeronaves permitirá realizar em paralelo atividades de teste, reduzir gargalos e aumentar a eficiência do programa rumo à certificação”, destaca Valentini. De acordo com ele, cada protótipo pode se dedicar a objetivos específicos, o que ajuda a acelerar o aprendizado e a evolução do projeto.
“Empregar múltiplos aparelhos em uma campanha oferece vantagens significativas em comparação ao uso de uma única aeronave experimental”, destaca Alves, que é também diretor do Centro de Engenharia Automotiva da Poli-USP. Ao fazer testes simultâneos, a empresa pode acelerar a coleta de dados e reduzir o tempo de desenvolvimento, ressalta o engenheiro. Além disso, distribui riscos, pois se um protótipo sofrer danos, os outros podem continuar os ensaios. “Outro benefício-chave é a possibilidade de ensaiar configurações distintas simultaneamente, como variações em sistemas de propulsão, aerodinâmica ou software”, declara.
Desafios pela frente
Apesar do sucesso do voo inaugural, vários desafios ainda precisam ser superados para que o carro voador da Eve possa ser visto cruzando os céus das cidades brasileiras. A aeronave ainda precisa ser homologada pela Anac e suas congêneres estrangeiras, como a Administração Federal de Aviação (FAA), dos Estados Unidos, e a Agência Europeia para a Segurança da Aviação (Aesa).
A principal dificuldade para obtenção da certificação do eVTOL na Anac, destaca Alves, envolve a novidade que representa essa modalidade de aeronave. Isso exige a criação de novos padrões regulatórios para segurança, aeronavegabilidade e integração com o espaço aéreo urbano. “O processo de certificação desses aparelhos ainda não está totalmente maduro. Não são conhecidos todos os requisitos que os fabricantes terão que cumprir”, complementa o engenheiro mecânico especialista em aerodinâmica Fernando Catalano, do Departamento de Engenharia Aeronáutica da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP.
Outros obstáculos para que os carros voadores se tornem realidade no país, elencam os especialistas ouvidos por Pesquisa FAPESP, incluem a construção de uma rede de vertiportos – nome dado às bases para pouso e decolagem dos eVTOL em aeroportos, terminais de transporte, shopping centers etc. –, a existência de uma sólida estrutura de carregamento elétrico e a criação de um sistema de gerenciamento de tráfego aéreo.
“Esses são grandes desafios, mas é preciso considerar que os pontos de partida e chegada e as rotas a serem percorridas poderão ser implementados inicialmente em pequeno número e expandidos progressivamente”, opina Rade. “Isso tornaria viável a criação programada da infraestrutura e facilitaria a implementação do gerenciamento operacional.” Para o engenheiro do ITA, em uma cidade como São Paulo faz sentido imaginar que rotas iniciais poderão ser criadas ligando os aeroportos de Congonhas, no sul da capital, e de Guarulhos, no município vizinho.
São Paulo, Rio de Janeiro e São José dos Campos, município-sede da Embraer e da Eve, deverão abrigar os primeiros vertiportos do país. A cidade do interior paulista foi escolhida pela Anac para abrigar um projeto experimental que deverá estar pronto em 2027. As unidades de São Paulo e Rio ainda não têm data para início de operação.
Será preciso também demonstrar a confiabilidade de tecnologias como baterias elétricas de alta densidade e sistemas autônomos de voo, além de garantir que os carros voadores operem com baixos níveis de ruído. “Se drones de pequeno porte geram todo o ruído que ouvimos, imagine veículos maiores, bem mais pesados”, alerta o engenheiro aeronáutico William Wolf, da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

EmbraerA aeronave vista por dentro: detalhes dos assentos para os passageiros, do rotor para voo vertical e do painel de controle (em sentido horário)Embraer
“Esse [o ruído dos rotores] é um ponto crítico, já que essas novas aeronaves farão trajetos basicamente em centros urbanos”, reitera Catalano, que liderou um projeto voltado a avaliar a emissão de ruídos pelos rotores que equiparão o eVTOL da Eve. “Foi uma espécie de prestação de serviços para a Embraer. Esse trabalho começou em 2019, foi interrompido na pandemia e retomado em 2021. Consistiu na realização de ensaios acústicos dos rotores. Medimos o ruído emitido e avaliamos diferentes configurações de rotores, a distância entre eles, o ângulo de inclinação e outros parâmetros”, afirma. O túnel de vento da EESC foi adaptado para a realização dos ensaios aeroacústicos e um novo, maior, está sendo construído com recursos da fabricante brasileira de aviões.
Os rotores dos eVTOL, de acordo com Catalano, são menos ruidosos do que as hélices dos helicópteros, mas não se sabe ainda os limites de ruído que os carros voadores terão que atender. “A regulamentação sobre emissão de ruído ainda está sendo desenvolvida”, informa.
Mercado e concorrentes
Em meados de 2025, a Eve divulgou um relatório com projeções financeiras e de operação do mercado de eVTOL. A empresa estima que até 2045 estarão em atividade no mundo 30 mil carros voadores. Essa frota transportará no período mais de 3 bilhões de pessoas, gerando uma receita de US$ 280 bilhões (mais de R$ 1,5 trilhão) resultante da venda e operação das aeronaves.
Especialistas projetam que o mercado global de eVTOL será bastante competitivo. Hoje, entre os principais concorrentes da Eve figuram as norte-americanas Joby Aviation e Archer, a chinesa EHang e a europeia Volocopter. Nenhuma delas tem aparelhos voando comercialmente, mas algumas estão em um nível de desenvolvimento mais avançado do que a Eve. A Joby, por exemplo, fez em agosto de 2025 o primeiro voo tripulado de seu eVTOL entre dois aeroportos da Califórnia. A viagem durou 12 minutos. A empresa planeja iniciar a operação de seu modelo como táxi aéreo em Dubai no fim deste ano.
A EHang está adiantada na comercialização e certificação de suas aeronaves, projetadas para voos autônomos (sem piloto). O carro voador chinês fez sua estreia no Brasil em novembro de 2024 com dois voos de demonstração não tripulados, o primeiro de 6 minutos e o segundo de pouco mais de 3 minutos (ver Pesquisa FAPESP no 345). Há cerca de um ano, a empresa iniciou voos experimentais com passageiros na China. O aparelho chinês custará o equivalente a US$ 410 mil (R$ 2,2 milhões) no mercado internacional, segundo a empresa.
“Embora, aparentemente, o desenvolvimento do eVTOL da Eve esteja atrasado em relação ao de alguns concorrentes, não creio que a empresa esteja em desvantagem”, avalia Rade. “A fabricante brasileira parece adotar uma abordagem que privilegia um tempo de desenvolvimento e certificação mais longo, porém com maior probabilidade de sucesso”, diz ele, destacando que alguns concorrentes ficaram pelo caminho, como a empresa alemã Lilium, que declarou falência em 2025.
Alves, da USP, tem opinião parecida. Para ele, sair na frente oferece vantagens como captura de mercado e atração de investimentos, mas priorizar segurança e homologação robusta é crucial em um setor tão regulado. “A posição da Embraer, via Eve, é forte devido ao respaldo técnico da empresa-mãe e foco em um caminho seguro e estável para certificação”, declara.
Republicar