Imprimir Republicar

Boas práticas

Dinheiro de volta

Ghostwriters que ajudaram a escrever tese são processados e devolvem quantia paga por aluna de doutorado

Terminou de forma amigável um processo judicial movido por uma estudante alemã que encomendou a uma agência de ghostwriters um texto de 130 páginas para compor sua tese de doutorado, mas ficou insatisfeita com o resultado. A aluna acabou retirando o processo depois que a agência aceitou devolver os € 16.900, o equivalente a R$ 105 mil pagos pelo trabalho. Segundo reportagem publicada no site jornalístico Die Tageszeitung, a estudante, identificada no processo como Hatice A., trabalhava havia três anos no projeto de doutorado, conduzindo e transcrevendo entrevistas com alunas de uma escola profissionalizante – o objetivo era explorar suas motivações para buscar a qualificação para o ingresso na universidade por meio da educação de adultos. Trabalhando em dois empregos e vendo o prazo para concluir o projeto se esgotar, ela resolveu buscar ajuda externa.

Comprou o pacote de uma agência de ghostwriters, que cobrava € 2.500 por produzir a análise encomendada, acrescido de € 120 por página escrita. Ela forneceu material que já tinha produzido, incluindo bibliografia, e, cinco meses depois, recebeu um texto de 130 páginas, mas não gostou. “Tive a impressão de que eles haviam inserido um monte de tabelas criadas por eles mesmos no texto, unicamente para preencher páginas”, disse, segundo o Die Tageszeitung. Pediu ajustes, novamente ficou insatisfeita e decidiu não apresentar o trabalho.

Embora pudesse ser acusada de má conduta, ela resolveu levar o caso ao Tribunal Regional de Luneburgo, cidade onde fica a agência de ghostwriters, pedindo o dinheiro de volta. A juíza que recebeu o caso, Christina Edinger, observou que estudantes de doutorado se comprometem a produzir trabalhos originais de forma independente e que a aluna poderia ser responsabilizada por quebrar essa regra. Hatice A. alegou que encomendou à agência apenas serviços de apoio, como compilação de material, edição e criação de rascunhos, que não comprometeriam a originalidade da obra. A agência, que a princípio propusera restituir apenas € 2 mil, acabou aceitando devolver a quantia total, depois que a aluna retirou a ação.

Um estudo apresentado em outubro por duas pesquisadoras da Universidade de Pretória, na África do Sul, na 2ª Conferência Internacional sobre Pesquisa em Educação, que aconteceu em Lisboa, Portugal, sugere que a contratação desse tipo de serviço pode estar se tornando ainda mais comum e difícil de detectar graças ao uso de programas de inteligência artificial generativa. No trabalho, Brenda van Wyk e Lesego Makhafola afirmam que, além de representar uma ameaça à integridade acadêmica e à qualidade da pesquisa, a tendência é preocupante por favorecer o “desengajamento moral dos estudantes”. Fatores como imaturidade e falta de letramento acadêmico podem contribuir para essas práticas, mas elas também não descartam que a carga de trabalho imposta aos estudantes e até mesmo a falta de interesse e a negligência dos professores contribuam para o comportamento antiético.

Republicar