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Carta da editora | 124

Em defesa da via normal de nascimento

Há algo de francamente espantoso em boa parte das discussões que neste país se processam sobre o melhor caminho para o nascimento de bebês humanos. Falo da estranha inversão que sofrem os conceitos de normal e de excepcional em relação a um dos mais fantásticos processos fisiológicos em que o corpo feminino é especializado: o parto.

De tanto que se banalizou a operação cesariana, há quem acredite, principalmente entre as novas gerações, que normal para nascer é essa alternativa cirúrgica, enquanto o parto normal, pela via vaginal, não passaria a essa altura de uma excrescência, um irremediável anacronismo. Brutal equívoco! O parto normal, ainda quando o corpo gaste mais de 24 horas num estupendo e insistente trabalho para fazê-lo finalmente acontecer, é um evento da ordem da fisiologia, do bom e saudável funcionamento do organismo feminino. Já o parto cesariano, embora devamos tomá-lo com justeza como uma bela construção da competência tecno-científica humana, aperfeiçoado passo a passo desde que foi tentado pela primeira vez há mais de 400 anos e, ressalte-se, fundamental desde então para salvar um número incalculável de vidas, é uma cirurgia – com os riscos inerentes a qualquer cirurgia, além de outros específicos. Cirurgia que deve, sim, ser realizada em todas as situações em que o processo fisiológico normal não tiver chances de seguir seu curso, em prol da vida de mulheres e bebês.

O problema são as cesarianas desnecessárias. E isso a bela reportagem de capa desta edição de Pesquisa Fapesp mostra com agudeza e profundidade, tomando como ponto de partida um estudo com participação importante de pesquisadores brasileiros publicado agora em junho na Lancet, uma das mais importantes revistas científicas da área de medicina. Os riscos desconhecidos das cesarianas, a conversão da obstetrícia brasileira ao parto cirúrgico e suas razões, as alterações nas taxas de mortalidade materno-infantil provocadas pelo abuso do parto não-fisiológico, tudo isso e muito mais está relatado no texto denso, vigoroso e ao mesmo tempo sensível do editor especial Ricardo Zorzetto. Ouso dizer até, muito à vontade em minha condição feminina, sendo mãe de três filhos nascidos todos de parto normal, que qualquer mulher bem consciente da importância social das lutas afirmativas de gênero assinaria com prazer essa reportagem, que é um verdadeiro trabalho de utilidade pública.

Para além de meu entusiasmo com a capa, no entanto, há muito a ler de novo e estimulante nesta edição. Vale destacar em tecnologia, por exemplo, a reportagem da editora assistente, Dinorah Ereno sobre os efeitos cicatrizante e regenerador de tecidos lesados de uma proteína encontrada no veneno da urutu. Estamos, portanto, diante da promessa de novos medicamentos baseados em venenos de cobras brasileiras.

E, nas humanidades, chamo a atenção para a reportagem do editor Carlos Haag sobre as análises mais sociológicas da explosão de violência que afetou São Paulo no meio do mês de maio e que teve seu momento mais dramático na segunda-feira, 15. Foi uma crise de grande amplitude, como observou um de seus analistas, e que pela forma como espalhou o terror entre policiais e outros agentes públicos, e para a população em geral, tem um caráter inédito.

Boa leitura e boas reflexões.

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