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Boas práticas

Erros e inconsistências

Revista publica correção em artigo que dizia ter obtido consentimento informado de uma paciente já morta

Um leitor da revista Annals of Medicine and Surgery alertou os editores da publicação sobre as inconsistências em um relato de caso publicado pelo periódico, como a obtenção de um Termo de Consentimento Informado (TCI) de uma paciente já morta e o registro de sua pressão arterial quando já não tinha mais pulso. A paciente em questão era uma parturiente de 38 anos que sofreu uma ruptura de aneurisma da aorta três dias após a cesárea do segundo filho. O artigo afirmava que o “consentimento informado por escrito foi obtido da paciente para publicação”. Mas a mulher morreu menos de duas horas após chegar ao pronto-socorro, segundo o relato. Outra preocupação apontada pelo reclamante, que assinou sob pseudônimo, foi a afirmação dos autores do artigo de que “o monitoramento cardíaco revelou atividade elétrica sem pulso (aesp) com frequência cardíaca de 120 batimentos por minuto e pressão arterial de 90/60 mmHg”. No e-mail enviado aos editores da revista, o leitor advertiu que “uma pressão arterial de 90/60 mmHg implica perfusão organizada, o que contradiz o diagnóstico de aesp. Esse erro revela uma profunda incompreensão da fisiologia básica da ressuscitação”. Também foram apontados problemas como cronologias contraditórias, uma “narrativa cirúrgica implausível”, terminologia médica inventada e referências bibliográficas irrelevantes.

Após ser consultada pelo site Retraction Watch, a revista publicou uma correção na versão on-line do artigo, informando que o consentimento informado “foi obtido do representante legal da paciente”, e não da própria. A errata também corrigiu o nome de um procedimento. Trocou a inexistente “incisão de Feinstein” por “incisão de Pfannenstiel”, corte transversal curvo na parte inferior do abdômen classicamente realizado nas cesarianas. Uma referência bibliográfica foi substituída. Não houve menção, contudo, à falta de pulso da paciente. O autor correspondente do artigo, Zatollah Asemi, é um pesquisador de nutrição na Universidade de Ciências Médicas de Kashan, no Irã, que já se envolveu em casos de má conduta cientifica. Seu grupo já teve 34 artigos retratados, ou seja, considerados inválidos após a publicação, na maioria por trazerem resultados implausíveis em ensaios clínicos: há evidências de distribuição enviesada de pacientes em grupos de tratamento e de controle, de discrepâncias em registros dos experimentos, entre outros problemas. Asemi não respondeu a pedidos de comentário feitos pelo Retraction Watch.

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