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Carta do editor | 62

Exemplo de como apoiar a pesquisa

Quando o governador Mário Covas morreu, no dia 6 de março, sua vida pública e privada foi repassada de alto a baixo. Todas as vozes ouvidas foram unânimes em lembrar a extrema retidão com que ele se portou durante a carreira política, sua coragem na luta contra a ditadura e de como agiu, na medida certa, para reerguer São Paulo nos seis anos em que governou o Estado. Mas o que pouco se falou é de sua atuação a favor da ciência e tecnologia paulista. Sem hesitação e com entusiasmo, Covas valorizou a produção científica das universidades e institutos de pesquisa. E soube ver, como nenhum outro antecessor, a importância do trabalho dos pesquisadores para o desenvolvimento pleno do país. Em outubro de 1999, durante cerimônia para o anúncio dos primeiros projetos aprovados no programa de pesquisas em políticas públicas, ele ressaltou a importância da “sintonia do sistema de pesquisa com a promoção do bem-estar e da justiça social”. A revista Pesquisa FAPESP substitui nesta edição a seção Memória pela homenagem ao homem público que sempre enxergou a ciência e tecnologia com clareza, sem subestimar seu papel, prática tão comum em outros governantes (página 6). Exemplo que certamente será seguido pelo governador Geraldo Alckmin, que, por formação, sempre esteve perto e atento às coisas do setor.

A capa da edição deste mês é um exemplo perfeito de como a ciência deve servir ao bem-estar da sociedade, como pregava Covas. Um projeto temático financiado pela FAPESP possibilitou a criação de um serviço que, certamente, já salvou muitas vidas em toda a costa brasileira. Do interior de São Paulo, a partir do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o matemático Valdir Innocentini criou um serviço de previsão de ciclones. Quando o Sistema de Previsão de Ondas, desenvolvido por ele e sua equipe, detecta o fenômeno se formando no Atlântico Sul, emissoras de rádio, televisão e jornais do litoral brasileiro são informados para avisar a população da possibilidade da propagação de ondas gigantes nas regiões costeiras. Informados, os pescadores não saem para o mar e as pessoas ficam longe dos penhascos. Em duas ocasiões em 1999, os alertas do time de Innocentini ajudaram a evitar mortes. A reportagem sobre a pesquisa e este belo serviço começa na página 50.

A comemoração na divulgação do seqüenciamento do genoma humano causou uma certa frustração ao fim do anúncio dos dois grupos que trabalhavam no projeto. As equipes de Francis Collins e Craig Venter – respectivamente, líder do consórcio público internacional e da empresa privada norte-americana Celera Genomics – mapearam 95% dos genes humanos e concluíram que eles são em muito menor número do que se pensava. Temos, segundo os dados divulgados, por volta de 30 mil genes, apenas o dobro do que possuem vermes e moscas. Um golpe no orgulho do homo sapiens, como conta a reportagem que detalha o grande trabalho dos dois grupos (página 24).

Em entrevista exclusiva à Pesquisa FAPESP (página 28), o polêmico Craig Venter esquece a decepção e joga a bola para a frente. Ele acha que o número de genes é uma excelente base para os pesquisadores seguirem adiante e tentar entender melhor como o genoma humano funciona. “Quem só enxerga os genes ou o ambiente sai perdendo”, disse. “É preciso ver os dois juntos.” Resta aos pesquisadores continuar com as mangas arregaçadas.

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