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Boas práticas

Exercício de narcisismo acadêmico

Índices elevados de autopromoção de editores convidados comprometem a integridade de números especiais de revistas científicas, mostra estudo

Bettmann / Getty Images

Uma equipe de pesquisadores da França e do Reino Unido revelou um novo problema associado a números especiais de revistas científicas: a prevalência exagerada de artigos escritos por seus próprios editores convidados, pesquisadores sem vínculo formal com os periódicos que são recrutados para organizar edições suplementares que tratam de temas específicos. O levantamento, divulgado no repositório de preprints ArXiv e ainda não avaliado por outros especialistas, escrutinou 110.912 edições especiais publicadas por periódicos de cinco grandes editoras entre 2015 e 2025. Desse universo, 1.339 – 1% do total – tinham mais de 75% de papers com a assinatura de algum de seus editores convidados, uma “taxa de endogenia” considerada extrema. Em 2.976 edições temáticas, o volume de artigos usados para esse tipo de autopromoção oscilou de 50% a 75% e, em outras 10.723, de 33% a 50%. Na avaliação dos autores do estudo, poderia ser tolerada uma taxa de até 33%. Eles consideram aceitável que, para cada manuscrito com a visão dos responsáveis pelo número especial, haja pelo menos outros dois com a perspectiva de outros especialistas. Nessa faixa de até 33% enquadraram-se 54 mil edições especiais da amostra. Por fim, em 42,6 mil edições temáticas não foi detectado nenhum trabalho escrito por editores convidados.

Os autores do levantamento – Paolo Crosetto, da Universidade Grenoble Alpes, na França, além de Mark Austin Hanson, da Universidade de Exeter, e Pablo Gómez Barreiro, do Jardim Botânico Real de Kew, ambos no Reino Unido – lembram que pesquisadores têm permissão para publicar artigos em revistas que editam, desde que não participem da avaliação do manuscrito e da decisão final de divulgá-lo. Os casos em que mais de 33% dos papers foram produzidos pelos próprios editores foram classificados no estudo com a sigla PISS, acrônimo para “publicar em apoio a si mesma” (publish in support of self).

“Níveis muito altos de endogenia são um exercício de narcisismo acadêmico e, como tal, podem ser considerados má conduta”, escreveram os autores. Os exemplos mais notórios dessa prática apontados no estudo apareceram nas editoras MDPI e Frontiers. A MDPI, sozinha, reuniu 87% das edições com indícios de endogenia. A editora, fundada em 1996 na Suíça, hoje tem um portfólio de 504 periódicos em diferentes áreas e se tornou uma das quatro maiores do mundo ao adotar de forma ostensiva o modelo de negócio dos números temáticos. Uma de suas revistas, a Energies, publicou 2.915 edições especiais entre 2015 e 2025, sendo 639 com taxa de endogenia superior a 33% dos artigos. Já a Materials teve 489 edições especiais consideradas PISS, de um total de 2.539 divulgadas no período.

Um porta-voz da MDPI disse à revista Times Higher Education que os editores convidados estavam autorizados a publicar nos números especiais, mas “tais contribuições devem ser limitadas” e não exceder 25% do conteúdo total. Segundo a fonte, os periódicos da MDPI atualmente monitoram esse limite, mas respeitá-lo pode ser desafiador em números temáticos com uma quantidade pequena de artigos. Embora em escala menor do que a da MDPI, a editora Frontiers, que publica mais de 230 títulos, ostenta casos como o da revista Frontiers in Built Environment, que teve 31% de suas 118 edições especiais com níveis de endogenia superiores a um terço de seus estudos.

A multiplicação de números especiais de periódicos foi uma forma adotada por muitas editoras para gerar receita extra – a taxa de publicação de cada paper vai de € 2.000 a € 3.400 (R$ 12 mil a R$ 21 mil). “O aspecto mais valioso das edições especiais, quando elas são verdadeiramente especiais, é que podem oferecer um formato mais descontraído para artigos de opinião, textos em tom coloquial e oportunidades para convidar grandes nomes da área para fazer revisões da literatura”, disse Mark Hanson, um dos coautores do estudo, à Times Higher Education. “É uma tragédia que as coletâneas editadas por convidados tenham sido sequestradas para fins lucrativos por certos grupos editoriais.”

O modelo já havia sido associado a outras formas de má conduta. Em 2023, 19 revistas da editora Hindawi e 2 da MDPI foram excluídas temporariamente do Journal Citation Reports (JCR), plataforma que determina o fator de impacto de periódicos, devido a falhas ou manipulação no processo de avaliação por pares em edições especiais que levaram à publicação de trabalhos fraudulentos (ver Pesquisa FAPESP nº 327).

A solução para o problema é relativamente simples, na avaliação dos autores. Bastaria seguir diretrizes já existentes, como a do Diretório de Periódicos de Acesso Aberto (Doaj), que limita a 25% a proporção de artigos de pesquisa de edições especiais em que ao menos um dos autores seja editor, membro do conselho editorial ou revisor. Órgãos de fomento à pesquisa podem ajudar, estabelecendo regras mais criteriosas para financiar a publicação de estudos. Em 2023, o Fundo Nacional de Ciência da Suíça (SNSF) deixou de pagar taxas de processamento de papers em números temáticos de periódicos.

Em resposta às preocupações com a integridade das edições especiais, o Comitê de Ética em Publicações (Cope), fórum sobre questões de integridade sediado no Reino Unido, publicou um documento de discussão sobre boas práticas para coletâneas editadas por convidados e organizou um fórum sobre o tema. Em meados do ano passado, complementou o material em uma publicação conjunta com a STM (Associação Internacional de Editores Científicos, Técnicos e Médicos). O objetivo geral é auxiliar as editoras no reconhecimento e na prevenção de atividades fraudulentas. As diretrizes sugerem, por exemplo, que as revistas devem considerar o potencial das edições especiais para comportamentos antiéticos, tais como a formação de cartéis de citações e fraude na revisão por pares. Também é importante avaliar minuciosamente o currículo dos editores convidados, verificando as suas qualificações e experiência.

Os autores do estudo do ArXiv destacam que o conjunto de dados levantados resultou de um esforço voluntário que enfrentou muitas dificuldades. Quando solicitações de informação não foram respondidas pelas editoras, eles extraíram dados da web ou realizaram uma curadoria manual trabalhosa. Por esse motivo, exortaram as editoras a disponibilizarem de modo transparente os metadados de suas edições especiais para ser possível avaliar com facilidade suas taxas de endogenia. “Periódicos que não fornecem esses dados protegem editores inescrupulosos de esforços de fiscalização e traem a confiança de editores convidados honestos”, escreveram.

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