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Cylon Gonçalves

Cylon Gonçalves: Físico, político, executivo

O físico Cylon Gonçalves fala de sua experiência na universidade, no governo e na iniciativa privada, e das dificuldades de produzir inovação

MIGUEL BOYAYANPersonagem polivalente nos últimos anos no âmbito científico e tecnológico do país, Cylon Gonçalves da Silva tem hoje uma bagagem de conhecimento e vivências que poucos possuem. Passou pela academia, pelo governo federal, criou e dirigiu um instituto de pesquisa e agora trabalha diretamente com a iniciativa privada. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) foi professor do Instituto de Física, onde ingressou em 1974 e recebeu o título de professor emérito em 2001. Em 1986 assumiu a coordenação da implantação do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), inaugurado em 1997, em Campinas. Até 2001 foi diretor da Associação Brasileira de Tecnologia Luz Síncrotron (ABTluS), mantenedora do laboratório para todos os pesquisadores brasileiros que estudam as estruturas atômicas de materiais por meio de radiação eletromagnética de alta intensidade.

Em 2000, Cylon foi um dos coordenadores da Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada no ano seguinte. Foi o responsável pelo Livro verde, lançado antes do evento para reflexões dos participantes sobre os temas da conferência. Aposentado da Unicamp, Cylon foi consultor do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) na área de nanotecnologia, durante o governo Fernando Henrique. No governo Lula, dirigiu a Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do MCT, onde ficou por quase dois anos. Em 2005, aos 59 anos de idade, assumiu a diretoria de tecnologia do Genius Instituto de Tecnologia, passando, como ele próprio diz, “para o outro lado do balcão.” A vida acadêmica começou na graduação, em física, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), estado onde nasceu na cidade de Ijuí. Fez mestrado e doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e foi professor da UFRGS, durante dois anos, antes de entrar na Unicamp. Como acadêmico publicou mais de 70 artigos científicos e livros na sua especialidade, a física da matéria condensada, estudando as propriedades eletrônicas e magnéticas de materiais. Também foi professor visitante da Universidade de Lausanne, na Suíça, entre 1978 e 1980, e da Universidade La Trobe, em Melbourne, na Austrália, entre 1999 e 2001. A entrevista que ele nos concedeu em sua sala no Genius, em São Paulo, vem a seguir, em seus principais momentos.

O senhor passou pela academia, criou o LNLS e foi seu diretor, depois passou pelo governo em duas ocasiões e agora está no Genius, um instituto privado de pesquisa. Como está se sentindo neste novo ambiente?
Costumo brincar que estou na minha quarta encarnação. E cada encarnação envolve um parto. É preciso aprender coisas novas, entender culturas institucionais diferentes. O que me motivou para essa experiência foi o fato de, nas minhas três encarnações anteriores, eu atuar basicamente do lado do balcão que cuida da geração e da oferta de conhecimento. E hoje o grande desafio do Brasil é a inovação. Sabemos perfeitamente como ofertar ciência e tecnologia e que botões apertar para o país produzir mais artigos científicos e produzir mais doutores. Mas nós não sabemos que botões apertar para gerar inovação. Aliás, eu suspeito que nós não tenhamos nem sequer as instituições adequadas para isso. Faltam marcos legais para estimular a inovação, porque muitos dos que existem são inadequados para a tarefa que se coloca a nossa frente. Um exemplo é a legislação brasileira sobre biodiversidade e biotecnologia. Só para dar um exemplo concreto, outro dia eu estava conversando com uma pessoa da Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] que recebeu a incumbência de montar uma sociedade de propósitos específicos para acelerar a transferência de conhecimento da Embrapa para o setor privado, num modelo de parceria público-privada. Depois de um ano de trabalho, ele não vê como fazer.

Quais são as dificuldades?
Hoje a Embrapa, como boa parte de nossas instituições de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) públicas, está completamente engessada. Foram transformadas, por contingências externas à empresa, numa grande repartição pública, no sentido pejorativo dessa expressão.

E a Lei de Inovação não veio justamente para suprir essa lacuna?
A Lei de Inovação e também a lei das organizações sociais são muito fracas em relação ao tamanho do problema. Existe no Estado brasileiro uma cultura de que tudo o que é público é ótimo e tudo o que é privado é ruim. Então, duas ou três leis isoladas, como essas, não vencem as barreiras. Elas conflitam com vários outros marcos legais, o que faz a delícia da burocracia que não quer transformar o país e perder os privilégios. Na aplicação da Lei de Inovação, isso vai aparecer cada vez com maior clareza. No caso das organizações sociais, a nossa esperança era elas serem um instrumento institucional para agilizar o setor público de P&D, e o que observamos, ao longo dos anos, é um engessamento progressivo dessas organizações.

Um dos exemplos dessas organizações seria o LNLS?
É um exemplo do modelo em que o Estado contrata uma entidade privada. A organização social é muito específica. Do ponto de vista legal, ela é como o Genius, uma associação civil sem fins lucrativos e de direito privado. Mas ela vai um passo além, é reconhecida como uma organização social por um decreto do presidente da República. A partir desse reconhecimento, ela se qualifica para fazer um contrato de gestão com o governo. A idéia é esse contrato estabelecer metas a serem cumpridas com um sistema de avaliação de resultados, e não de processos administrativos internos. A contrapartida seria uma grande agilidade no uso dos recursos públicos. O que vemos na prática é essa agilidade ser questionada constantemente pelos órgãos de fiscalização. Isso não é apenas um efeito de uma visão esquerdista retrógrada do Estado, mas está na essência da lógica burocrática, não importa qual o governo. As exceções que existem dentro da máquina do Estado perderam, no governo Lula, a capacidade de enfrentar essa questão, inclusive pela resistência da Casa Civil da Presidência.

As cobranças não são do jeito que deveriam ser, é isso?
Não. São coisas sutis, para quem não conhece o setor público em detalhes, e extremamente importantes. Por exemplo: o orçamento da União é dividido em dois grandes blocos, um de investimentos e um de custeio. As organizações sociais são financiadas com recursos orçamentários do bloco de custeio. Aí um auditor do Tribunal de Contas da União diz: “Não, a organização social não pode usar esses recursos para fazer investimento.” Então, a lei pode ser ótima, mas a forma como o Estado se comporta em relação a essas inovações institucionais é a velha forma.

E o que falta para avançarmos no caminho da inovação?
O problema é como transformar o conhecimento em riqueza, ou aquilo que chamamos de inovação. Inovação não é uma coisa simples, é um conjunto complexo de ações e resultados.

Mas sempre visando um produto?
Visando colocar alguma coisa no mercado. Se não está no mercado não é uma inovação, não está gerando riqueza. Acho que o teste mais simples é esse. Se não gerar riqueza, levando um novo produto ao mercado, um novo serviço, ou um novo processo, o objetivo da inovação não foi atingido.

E, pelo lado das empresas, os passos ainda não estão certos, correto?
Não estão. Mas o setor privado não existe num vácuo, ele existe dentro de um Estado. E os marcos institucionais desse Estado balizam as possibilidades do setor privado. Uma vez perguntei para um empresário, quando eu ainda estava do outro lado do balcão: por que as empresas desenvolvem tão pouca tecnologia no país? A resposta foi a seguinte: “Tecnologia envolve risco, mão-de-obra altamente qualificada e muito cara, os encargos são enormes. Então, eu prefiro comprar uma coisa lá fora que já está pronta e testada, em que meu risco diminui, a manter um departamento caro de P&D, onde o risco é elevado.”

Esse problema não pode ser amenizado por instituições como o Genius e outros institutos independentes?
Aí voltamos então à primeira questão. Por que me interessei por esse desafio? Para nós fazermos a inovação decolar vamos precisar ter P&D pelo lado do setor privado. É aí que vem o atrativo do Genius. Porque é exatamente o que ele e outras instituições similares se propõem a fazer: agilizar o processo de transferência do conhecimento do laboratório para as prateleiras das lojas.

Quais seriam essas outras instituições similares?
São o César [Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife] e tantos outros. Em Manaus, existem os institutos da Samsung, da Nokia, além da Fundação Paulo Feitoza e da Fucapi [Fundação Centro de Análise, Pesquisa e Inovação Tecnológica], e outros mantidos pelos recursos da Lei de Informática.

O Genius instituto funciona por solicitações de empresas ou vocês desenvolvem pesquisa aqui ou trazem da universidade?
O Genius tem várias modalidades de atuação. A primeira modalidade é a solução de problemas colocados pelas empresas. Elas têm um problema e os recursos próprios para resolver e precisam de uma solução rápida. Por exemplo, em Manaus, o instituto trabalha muito na área de telefonia celular, desenvolvendo softwares. Nesse caso, o objetivo é simples: a empresa lança um modelo novo a cada seis meses e o consumidor precisa, por exemplo, transferir a agenda telefônica do telefone velho para o novo. Nosso trabalho é desenvolver uma série de softwares para servir de interface entre telefone e computador.

O Genius ficou com a imagem ligada à Gradiente (empresa que o criou pela Lei de Informática). Hoje também ele presta serviço para a Gradiente?
Nós temos um conjunto de clientes corporativos e um desses clientes é a Gradiente. Às vezes tem um problema num produto da linha Gradiente, que precisa ser resolvido rapidamente, isso vem para cá, o pessoal resolve, devolve, a empresa paga, encerra o assunto. A segunda modalidade que, num certo sentido, a longo prazo traz mais benefícios para o Genius é quando uma empresa quer desenvolver alguma coisa nova, mas o risco tecnológico é muito elevado para ela. Então a empresa se junta a um instituto de pesquisa, por exemplo, o Genius, e juntos fazem o projeto e o levam a um órgão de financiamento como a Finep [Financiadora de Estudos e Projetos]. Qual é a vantagem para a empresa? É que ela entra com uma contrapartida no projeto, mas o restante dos recursos representa custo zero para ela. Com isso, o investimento que ela faz, o de risco, cai. Normalmente são projetos de longo prazo, de um a dois anos.

Longo prazo aqui é um ou dois anos?
É. Os outros que eu falava são de três meses. Quando não são de três semanas, para apagar incêndio. Então, por que os projetos de longo prazo são mais interessantes para o Genius? Porque, enquanto na primeira modalidade, se existir alguma propriedade intelectual desenvolvida, ela fica completamente com a empresa, que pagou 100% do projeto, na segunda a propriedade intelectual é negociada tripartite: Finep, Genius, empresa. E aí há uma possibilidade de o Genius ir aos poucos construindo um portfólio de propriedade intelectual. Mas existe uma terceira modalidade de atuação, que é a pesquisa própria. E aqui o forte do instituto é o reconhecimento automático de voz. Estamos investindo, buscando recursos públicos porque o Genius em si não gera lucros. Ele depende, para fazer suas pesquisas, como qualquer outro instituto, de financiamento público. E hoje, depois de alguns anos de investimentos, essa tecnologia já está madura para ir para o mercado. Mas como levá-la para o mercado a partir de um instituto como o Genius? No fundo, não é diferente de qualquer outro instituto de pesquisa. Vai desde licenciar essa tecnologia para parceiros que estão no mercado, adaptá-la às necessidades desses parceiros, até – uma coisa que nós estamos considerando hoje – criar uma empresa para levar essa tecnologia diretamente ao mercado.

O senhor falou da necessidade da rapidez de um produto chegar ao mercado. Mas há exemplos demorados como o sistema flex fuel. A Bosch, no Brasil, já tinha esse sistema em 1996, em testes pelas montadoras. Por que alguns produtos demoram tanto para chegar ao mercado?
Por isso é que a gente faz a distinção entre o risco tecnológico e o risco comercial. O primeiro é aquele que não sabemos se o produto vai dar certo do ponto de vista tecnológico. No comercial, o produto pode ser excelente do ponto de vista tecnológico e não vender. A história está cheia de exemplos. Enquanto ferramenta de trabalho, o Macintosh é muito melhor que qualquer PC Windows. Mas quem domina o mercado? O PC Windows.

Por que é mais barato?
Porque a estratégia comercial dele foi completamente diferente. A tecnologia do Mac é muito melhor do que a tecnologia do PC Windows, mas a estratégia comercial foi errada. Ou foi certa, depende do ponto de vista. Esse produto pior conquistou o mercado. Lembremos no começo do videocassete, tinha pelo menos dois produtos: o VHS e o Betamax. O Betamax, na parte técnica, era superior ao VHS, mas não sobreviveu.

Mesmo pertencendo a uma grande empresa, a Sony, ele não colou.
Não colou por razão de preço ou por estratégia da empresa. A Sony não é uma empresinha qualquer. Então, pergunto, por que o iPod colou e tantos outros produtos similares não têm esse sucesso? Na verdade, ninguém sabe por que uma coisa dá certo no mercado.

E o flex fuel?
Nesse caso dá para entender. O Brasil passou por um problema de desabastecimento de álcool. Ninguém queria carro a álcool. O flex fuel permitiria resolver esse problema, como permite hoje. Mas o petróleo e a gasolina estavam baratos. Não valia a pena correr o risco comercial. O risco tecnológico estava sob controle, o produto estava resolvido. Mas na ponta do lápis, para lançar esse produto no mercado, iria custar muito para fazer toda a engenharia final de industrialização. Mais recentemente, veio a crise do petróleo, a gasolina subiu de preço, o álcool baixou, e o flex fuel se tornou atraente para o mercado.

Não basta só a tecnologia ser avançada, tem que ter uma situação comercial?
Esse é o problema de trabalhar do outro lado do balcão. Você tem um produto genial que ninguém quer comprar.

O senhor foi secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do MCT. Como se situou dentro desse cargo e como percebeu o Brasil do ponto de vista das condições de pesquisa científica e até da inovação?
Em relação a P&D, foi mais no sentido acadêmico. Foi uma experiência muito interessante porque a maior parte das áreas de atuação são sobre as quais eu sabia muito pouco antes, porque nessa secretaria as principais áreas são biotecnologia, biodiversidade, mudanças climáticas, meteorologia, recursos do mar. A nanotecnologia, por exemplo, era uma fração nanométrica das minhas atribuições.

Naquele momento, o senhor falou que o Brasil tinha condições de se tornar um líder mundial em biotecnologia.
Com certeza. Acho que, de novo, o Brasil empaca na questão institucional.

MIGUEL BOYAYANEm que sentido?
Uma coisa que não aprendemos ainda no Brasil é que as instituições precisam ser tão bem projetadas quanto uma ponte. As instituições são coisas abstratas e quando eu falo delas não estou me referindo às organizações. As instituições da democracia, por exemplo, são os três Poderes: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Essas instituições são entidades abstratas de um regime democrático e se materializam na prática por meio de certas organizações. Por exemplo: o Poder Legislativo se materializa em uma organização chamada Congresso Nacional. As instituições são como um projeto de engenharia da ponte. As organizações são a ponte construída e a materialização dessa ponte. Então, quando um projeto é ruim, por melhor que seja o engenheiro, por melhores que sejam os materiais, a ponte não vai parar em pé. Mas se o projeto é bom, pode ter erros de execução. O engenheiro pode ser ruim, em vez de cimento, usar areia, a ponte cai, mas a instituição, o projeto está correto. O problema é consertar a execução do projeto. Na democracia, o Poder Legislativo está correto. A implementação às vezes se revela problemática, mas nem por isso elimina-se o projeto.

O que precisamos então?
Para as coisas funcionarem neste país, nós precisamos fazer instituições bem projetadas. A área de biotecnologia, por exemplo, é insana. Ela tem à frente a CTNBio [Comissão Técnica Nacional de Biossegurança]. Ela pretende ser, simultaneamente, um órgão normativo, executivo, fiscalizador e consultor, tudo ao mesmo tempo. Não pode funcionar! Por melhores que sejam as pessoas que estiverem na comissão, a ponte vai cair. O projeto está errado.

Gostaria de falar sobre um tema de que o senhor gosta bastante: a nanotecnologia. Como começou o seu interesse?
O meu interesse pela nanotecnologia começou em 2001, quando nós estávamos preparando o Livro verde e organizando a Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia. O professor Celso de Melo, da Universidade Federal de Pernambuco, era diretor do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], me procurou e disse: “O CNPq deve lançar um edital para redes na área de nanotecnologia.” Aí eu disse para ele: “Ótimo. Me envie alguma coisa por escrito sobre isso, que eu encaixo no Livro verde.”

O seu trabalho no LNLS e o seu trabalho acadêmico também influenciaram?
Tudo isso tinha a ver com a nanotecnologia. Mas, há dez anos, isso não estava no caminho. Não se chamava nanotecnologia. Mas nos documentos iniciais do LNLS nós queríamos construir um laboratório que disponibilizasse instrumentos capazes de estudar matéria no nível atômico em escala nanométrica. Por isso foi tão fácil desenvolver a nanotecnologia no Brasil. Porque ao longo dos anos o país investiu em laboratórios capazes de fazer nanotecnologia e nanociência, sem usar esse termo. A FAPESP investiu pesadamente, o CNPq e a Finep também. Mas o que chamou a atenção do mundo para a nanotecnologia foi o programa americano, lançado pelo governo Clinton em 2000.

E como ela evolui no Brasil agora?
Olha, eu acho que, de novo, do ponto de vista de pesquisa, vai bem. Do ponto de vista de inovação, poderia ir muito melhor.

Falta mais envolvimento das empresas?
Sim. Existem algumas pequenas empresas sendo criadas, algumas poucas grandes começam a se interessar pelo assunto, sobretudo a área de petroquímica, como a Petrobras, por exemplo, e grupos privados também, como a Oxiteno e a Brasken.

Sobre a conferência: o senhor foi convidado para fazer o Livro verde, falou com bastante gente neste país. O que aconteceu após aquela conferência que se reflete agora, principalmente na inovação?
Quando o professor Carlos Pacheco foi para o MCT (como secretário executivo), numa certa ocasião, ele disse que o ministério estava interessado em fazer planejamento para ciência e tecnologia no Brasil e citou como exemplo planejamentos anteriores, como os PNDs [Planos Nacionais de Desenvolvimento], que foram feitos nas décadas de 1970, 80. Eu respondi que esse modelo já não era mais adequado para o país, que havia avançado muito, e não adiantava fazer um planejamento como em épocas passadas. Eu disse para ele: “Nós temos que criar um processo de discussão que se perpetue.” A partir daí, comecei a tentar imaginar o que poderíamos fazer nesse sentido. Existiam vários esforços de planejamento em curso no ministério. Uma das coisas que eu propus é que fizéssemos um Livro verde, mobilizássemos as pessoas para a discussão.

E a inovação?
Em relação à inovação, que eu saiba, foi a primeira vez que o MCT assumiu tão fortemente o comprometimento com ela porque foi a conferência de ciência, tecnologia e inovação. Mas eu sentia bastante, naquela época, que faltava uma política de Estado que realmente incorporasse essa questão da inovação. E acho que esse passo foi dado no governo Lula, com o lançamento da política industrial, tecnológica e de comércio exterior. Por mais incipiente que ela seja, por mais problemas que ela tenha em se viabilizar completamente, o importante foi o fato de o governo chegar e dizer: “Nós precisamos ter uma política industrial, tecnológica e de comércio exterior.” Acho que esse foi o passo que ficou faltando em 2001. Naquele ano se levantou a questão da inovação. Em 2002 se criaram instrumentos importantes, como os fundos setoriais, o Centro de Gestão em Estudos Estratégicos [CGEE], mas não se fez a amarração com a questão industrial e com o comércio exterior. Esse passo foi dado agora.

Voltando à nanotecnologia. O senhor tem também uma abordagem filosófica sobre ela. Como é isso?
Eu continuo convencido que a nanotecnologia é um reconhecimento prático de que o mundo é feito de átomos. E isso é uma coisa muito recente na nossa cultura. Os gregos já falavam em átomos 2.500 anos atrás, e essa noção de átomo foi retomada, do ponto de vista científico, no final do século XVIII, e reforçada pelos químicos ao longo do século XIX, e terminou encampada com toda a força pelos físicos e pelos biólogos, com o estudo do DNA, no século XX. Mas a idéia de que tudo o que existe é feito a partir de pequenas partículas invisíveis, extremamente numerosas, que obedecem às leis da natureza, e nós sabemos quais são essas leis, nos situa num processo de, cada vez mais, descobrir coisas novas, sobre quais são as conseqüências dessas leis e entender como o próprio ser humano é constituído a partir dessas estruturas nanoscópicas. Isso poderá ter um impacto enorme sobre a cultura humana. Quanto tempo vai demorar isso, se vai acontecer? Não sei.

Outro aspecto da nanotecnologia é o aspecto ambiental.
Em setembro deste ano eu estive numa reunião em Paris, convocada pelo programa de meio ambiente das Nações Unidas. Uma vez por ano eles publicam uma espécie de “O estado do mundo” e nesse livro eles gostam de colocar um capítulo sobre desafios emergentes. E no livro de 2006 esse desafio é a nanotecnologia. Mas o que ficou claro ali é o seguinte: não se sabe o futuro impacto ambiental da nanotecnologia. As pesquisas ainda são muito incipientes. Existem alguns resultados, mas as metodologias são questionáveis.

Quais os problemas principais?
Um dos problemas é elementar: o monitoramento. Não existem instrumentos disseminados para você monitorar nanopartículas no meio ambiente. Hoje esses instrumentos estão confinados a laboratórios de pesquisa. As nanopartículas existem na natureza. Elas estão conosco desde que estourou o primeiro vulcão e se acendeu o primeiro fogo. Um dos desafios atuais é aprender a monitorá-las. Existe também a preocupação com as nanopartículas artificiais, ou produzidas industrialmente. Acreditamos que elas são boas para a medicina, por exemplo. Porque tem a possibilidade de direcioná-las para um órgão específico e fazê-las carregar um fármaco e entregar esse fármaco no lugar certo, na hora e na quantidade certas. Mas isso pressupõe que elas possam ir a qualquer lugar do corpo e se acumular em qualquer órgão. Tudo bem quando você faz isso intencionalmente. Mas e sem a intenção de fazer? Quais podem ser as conseqüências? Não sabemos. Mas nós temos também que relativizar tudo isso. O risco hoje é zero. Uma sugestão seria, num futuro não muito remoto, aproximar os órgãos ambientais dos centros de pesquisa onde existe o conhecimento em nanotecnologia para eles aprenderem sobre nanopartículas, inclusive a usar esses instrumentos.

Quais foram as motivações para a criação do LNLS?
Foram duas principais motivações: uma muito clara na época, a vontade de dotar o país de um instrumento que estimulasse a pesquisa experimental no país. Eu, como físico teórico, sei como é importante a pesquisa experimental. A idéia de projetar, construir no país um instrumento científico de grande porte e colocá-lo em operação era realmente um desafio bonito demais para resistir. E a segunda coisa, a minha grande preocupação com a questão institucional. Eu via o Síncrotron como um novo modelo de fazer ciência no país. Um laboratório grande demais para ter dono.

O senhor propôs um instituto nacional para a nanotecnologia, mas a idéia foi contestada por pesquisadores contrários à proposta de concentrar investimento em apenas um instituto. Como foi isso?
Há uma diferença de visão. O Brasil opera muito num modo: ou é uma coisa, ou é outra. Ou temos tudo espalhado, ou temos tudo concentrado. A idéia de um sistema que, ao mesmo tempo, tenha um componente abrangente e reúna num local uma grande concentração de instrumentos e de pessoas capazes de alavancar o crescimento mais rápido de uma área não passa pela cabeça da comunidade brasileira. Se olharmos outros países, mais avançados, é assim. Existe uma ecologia institucional do setor de P&D, que vai desde laboratórios universitários espalhados, bem equipados, funcionando adequadamente, até grandes centros onde se concentram as pesquisas. A concentração, por mais que a internet permita trabalhar a distância, é benéfica. Os economistas chamam esse benefício de ganhos crescentes com escala. Acima de um certo limiar, você realmente acelera o desenvolvimento.

Por que não aconteceu?
Não houve, até o momento, condições políticas. Quando eu estava no ministério, procurei implementar essa política. O programa que montamos era amplo e incluía até um edital do CNPq para bolsas, auxílios à pesquisa para jovens doutores, com, no máximo, cinco anos de doutorado, para evitar a competição com pesquisadores com 20 anos de carreira. A idéia era criar um novo modelo de financiamento para a solução de problemas. O ministério colocaria quatro ou cinco problemas para solução e identificaria os melhores grupos no tema. Precisamos ter um foco de financiamento. E não apenas o financiamento difuso, um pouquinho para todo mundo.

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