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Arqueologia

Fragmentos do passado

Cerâmica indígena revela que o coração da Amazônia, hoje um vazio demográfico, já abrigou comunidades vastas e complexas antes da chegada dos europeus

JOSÉ CALDAS / PETROBRÁSCerâmica fabricada pela cultura manacapuruJOSÉ CALDAS / PETROBRÁS

As comunidades indígenas que habitaram a Amazônia Central nos quase dois milênios que antecederam a chegada dos europeus eram formadas por grupos que se fixavam por dezenas a centenas de anos próximos às margens dos rios e já não perambulavam tanto pela floresta em busca de alimentos. Em uma forma inicial de agricultura, cultivavam mandioca, milho e possivelmente outras plantas domesticadas na Amazônia — como o abacaxi ou a pupunha. Também pescavam e caçavam pequenos animais no alto das árvores, uma vez que por ali ainda hoje são raros os bichos no nível do chão. Com interrupções mais ou menos breves, grupos de quatro culturas indígenas se sucederam em comunidades que, nos períodos mais prósperos, chegaram a reunir alguns milhares de pessoas.

Nessa época sobre a qual não há registros históricos, o grau de organização social dos grupos indígenas era bastante variável, como se pode inferir das escavações iniciadas em 1995 pela equipe de Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP). É certo que as culturas pré-coloniais que viveram entre 2.300 e 500 anos atrás na Amazônia Central, região que abrange os principais afluentes do rio Solimões no estado do Amazonas, jamais atingiram a estrutura e a sofisticação de outras civilizações contemporâneas como a maia e a asteca, na América Central, ou a inca, na cordilheira dos Andes, dizimadas pelos conquistadores espanhóis e pelas doenças que trouxeram para as Américas. No coração da Amazônia brasileira, nem sempre as comunidades indígenas se constituíam segundo um padrão de complexidade crescente — bandos, tribos, cacicados e civilizações “, proposto há mais de 50 anos por um ramo da antropologia norte-americana chamado neoevolucionismo, que via na civilização ocidental seu mais alto grau de desenvolvimento.

“Há sinais de que nesses dois milênios existiram por ali tribos e possivelmente cacicados, em que um líder exerceria poder sobre várias aldeias”, diz Neves. Na Amazônia Central, essa complexidade variou segundo a época. Alguns grupos cresceram e atingiram certo grau de organização, mas, próximo à chegada dos colonizadores, começaram a diminuir até quase desaparecer. “É um quadro bem mais complicado do que se imaginava, e essa é a beleza da Amazônia”, comenta Neves, que até recentemente trabalhou com os arqueólogos norte-americanos Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida em Gainesville, e James Petersen, morto em 2005 durante um assalto perto de Manaus.

Complexidade
Não se deveria estranhar tal variedade. Afinal, a Amazônia é um mundo de complexidade. Quem toma um avião de Brasília para Manaus sobrevoa por mais de duas horas a densa vegetação que se esparrama por todos os lados até onde a terra se confunde com o céu. É de 11 mil metros de altitude que se tem uma idéia mais precisa da imensidão da floresta: são 7 milhões de quilômetros quadrados de mata fechada que só deixa 10% da luz solar chegar ao chão. Metade dela está em território brasileiro — cobre pouco mais de um terço do país — e vem sendo vorazmente corroída em suas bordas por pastagens e plantações de soja que empurram madeireiras clandestinas mata adentro. Do alto, parece única e homogênea. Mas o que a ciência já descobriu mostra que não é. Como quase tudo no Brasil, a Amazônia é múltipla. São várias as formações florestais, que ora absorvem mais carbono do que lançam para a atmosfera, ora devolvem mais do que tomam para si. Também é diversa a distribuição de animais e a fertilidade do solo, assim como foi variado o padrão de ocupação humana da floresta antes da chegada dos europeus, como revelam as pesquisas de Neves.

Em 12 anos de trabalho em uma área de 900 quilômetros quadrados próxima a Manaus, o grupo do arqueólogo da USP vem ajudando a reescrever a história da Amazônia pré-colonial. Ou, ao menos, colocando em questão conceitos que prevaleceram por mais de meio século entre círculos da arqueologia e da antropologia no Brasil e no exterior. Com base no que encontrou, Neves já visualiza com bom nível de detalhe como foi entre 2.300 e 500 anos atrás a vida no interior da Amazônia, mais precisamente na calha do turbulento Solimões e do sereno Negro, pela primeira vez investigada em profundidade.

Essas novas informações devem contribuir para que os arqueólogos comecem a ver o passado da Amazônia brasileira — uma região que abarca os estados de Rondônia, Roraima, Amapá, Acre,  Pará e partes do Mato Grosso e Tocantins — como um mosaico de culturas com diversos graus de evolução, e não mais um gigantesco bloco homogêneo. Por muito tempo, prevaleceram visões antagônicas a respeito dos primeiros grupos humanos que viveram por ali. Segundo uma dessas visões, as comunidades ancestrais amazônicas jamais teriam reunido mais do que algumas dezenas de indivíduos. Embora rica em diversidade de plantas e animais, a floresta seria um ambiente com pouca disponibilidade de comida e desfavorável à agricultura, por causa do solo pobre em nutrientes, como defende desde os anos 1950 a norte-americana Betty Meggers, pioneira nas escavações da Amazônia.

EDUARDO GÓES NEVES / USPEssa escassez de alimento impediria as comunidades ancestrais de crescerem e se tornarem numerosas a ponto de as pessoas assumirem papéis sociais distintos e desenvolverem uma cultura mais sofisticada, capaz de produzir cerâmicas ricamente ornamentadas. Uma das principais autoridades na pré-história amazônica, Betty Meggers tirou suas conclusões a partir do que observou na Ilha de Marajó, no Pará, a cerca de 2 mil quilômetros de Manaus. Para ela, os índios marajoaras, autores de cerâmicas coloridas elaboradas, descenderiam de uma cultura original da Colômbia ou do Equador e seriam uma exceção à regra.

Na década de 1970, outro arqueólogo norte-americano, Donald Lathrap, sugeriu o oposto. Sem nunca ter pisado terras brasileiras, comparou cerâmicas produzidas nos Andes com a dos povos amazônicos, e propôs que a Amazônia Central tivesse sido o principal centro de inovação cultural sul-americano, com influência até sobre o desenvolvimento das primeiras civilizações andinas, além de ter sido o berço da agricultura nessa parte do continente.

As generalizações de Meggers e Lathrap geraram modelos panorâmicos para a ocupação da Amazônia, mas que deixam de lado detalhes importantes. “Ainda se sabe pouco sobre o passado da Amazônia”, reconhece Neves. “O que se diz de lá tem por base trabalhos feitos no Pará, no Amapá, no Mato Grosso e, mais recentemente, no Amazonas.”

Terra preta
Esse debate, um dos mais acirrados da arqueologia nacional, levou Neves, Heckenberger e Petersen a voltarem seus olhos para o coração da Amazônia. Numa viagem a Manaus em 1994, Heckenberger pediu a um barqueiro que lhe mostrasse o que geólogos e arqueólogos chamam de terra preta. Esse solo cinza-enegrecido, que se destaca da terra arenosa e pardacenta da Amazônia, é bastante fértil e costuma indicar áreas de ocupação humana antiga. Alguns minutos de barco pelo rio Negro, Heckenberger avistou uma imensa mancha de solo enegrecido, coberto por uma plantação de bananas e mandioca. No ano seguinte, o trio iniciou a exploração dessa área próxima ao igarapé Açutuba.

Ao longo de dois meses eles mapearam o sítio Açutuba, uma faixa de 3 mil metros de extensão por 300 de largura, tamanho de 90 quarteirões de uma cidade. De lá para cá, identificaram quase cem sítios arqueológicos de dimensões variáveis — os menores têm área de quatro quarteirões — e até o momento escavaram sistematicamente dez deles.

Camadas de terra preta com espessura entre 70 centímetros e quase 2 metros preservaram vasos, urnas funerárias e cacos de cerâmica fabricados por povos que viveram ali entre centenas e milhares de anos atrás — em alguns pontos, por até 300 anos seguidos. A análise de pouco mais de cem amostras pela técnica de datação por carbono 14, que permite estimar com uma precisão de dezenas de anos a idade do material, revela que a presença humana na Amazônia Central é antiga e descontínua. Uma ponta de lança esculpida em uma rocha muito dura amarelo-avermelhada, o sílex, tem cerca de 7.700 anos. Mas os vestígios das comunidades indígenas somem e só reaparecem cinco milênios mais tarde, quando surge uma cerâmica bastante elaborada — pintada em vermelho, preto e branco e com incisões próximas à borda “, típica de um povo que a equipe de Neves denominou cultura açutuba, que ocupou a região por quase dez séculos, até 1.600 anos atrás.

O ressurgimento da presença humana na Amazônia Central coincide com um período em que a temperatura do planeta aumentou e a Amazônia voltou a se expandir depois de ter encolhido por milhares de anos. “Nesse período os rios subiram, possivelmente ocultando áreas de ocupação mais antiga”, diz Neves.

EDUARDO GÓES NEVES / USPTúnel do tempo: arqueólogo escava tumba construída com cacos de cerâmicaEDUARDO GÓES NEVES / USP

Na mesma época em que começam a rarear os sinais da cultura açutuba, aumenta nos sítios uma cerâmica atribuída à cultura manacapuru, que durou até 1.100 anos atrás e deixou as cores de lado, enfeitando seu trabalho apenas com desenhos geométricos. Quase simultaneamente, um povo que fazia vasos e urnas sem cores, mas com bordas reforçadas e apliques em formas humanas ou de animais, ocupou por sete séculos a Amazônia Central até ser aparentemente expulso da região pelos autores de um quarto tipo de cerâmica chamada guarita — adornada em preto, branco e vermelho, semelhante à dos marajoaras. Os vestígios de cerâmica guarita indicam que, por volta de 1.800 anos atrás, esse povo migrou de uma região no Pará situada cerca de 300 quilômetros a leste de Manaus rumo à Amazônia colombiana, no extremo oeste. No caminho, afugentavam quem estivesse pela frente.

Na opinião de Neves, os índios guaritas podem ter visto na terra preta — formada pela deposição de restos de alimentos, excrementos e outros compostos orgânicos pelas três culturas que viveram antes por ali — o local ideal para plantar roças temporárias. Em três dos sítios escavados ele encontrou sinais de que pode ter havido conflito entre as culturas que viveram na região: valas com 2 metros de profundidade e até 150 metros de extensão protegiam as aldeias. Dois desses fossos ainda preservam indícios de cercas de estacas pontiagudas.

Em conjunto, os vestígios da região indicam presença humana por longos períodos, com apogeu entre 1.400 e 800 anos atrás. Nessa época, algumas comunidades podiam abrigar milhares de pessoas, até mesmo com diferenciação social — tumbas construídas com cacos de cerâmica sugerem divisão de trabalho, comum onde há hierarquia do poder.

O pesquisador da USP é o primeiro a reconhecer os limites do próprio trabalho. “É muito arriscado fazer essas afirmações para uma região tão vasta como a Amazônia Central com base nos achados de apenas dez sítios arqueológicos.” Mas é o que se conhece de mais preciso até o momento. “Estamos ajudando a construir um conhecimento que pode mudar daqui a dez ou vinte anos.”

Neves espera checar essa hipótese da chamada expansão guarita em outra área da Amazônia Central onde começou a trabalhar mais recentemente. Em 2002, ele foi convidado pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e pela Petrobras para acompanhar a instalação de um gasoduto de 400 quilômetros de extensão que liga a maior reserva de petróleo nacional em terra, no município de Coari, à cidade de Manaus. É que no início das obras equipes da Petrobras encontraram vestígios de um sítio arqueológico em Coari. Desde então foram identificadas outras 41 áreas ocupadas por antigos povos da Amazônia, que vêm sendo estudadas por um grupo coordenado por Neves no programa Potenciais Impactos e Riscos Ambientais na Indústria do Petróleo e Gás no Amazonas (Piatam), conduzido pela Ufam e pela Petrobras com o objetivo de reduzir possíveis impactos ambientais decorrentes do transporte de petróleo na Amazônia.

Se Neves estiver certo, a passagem dos guaritas varreu as outras comunidades de boa parte da Amazônia Central três séculos antes da descoberta das Américas. Quando Cristóvão Colombo alcançou o Caribe em 1492, a serviço da Coroa espanhola,  de 2 milhões a 4 milhões de nativos sul-americanos viviam na Amazônia. Hoje as comunidades indígenas na região devem somar umas 170 mil pessoas: a maior parte habita áreas próximas à Venezuela, ao norte, ou ao Mato Grosso, ao sul, e um terço se concentra em Manaus.

Ricardo Zorzetto viajou a convite da Petrobras e do projeto Piatam.

O Projeto
Cronologias regionais, hiatos e descontinuidades na história pré-colonial da Amazônia
Modalidade
Projeto Temático
Coordenador
Eduardo Góes Neves — MAE/USP
Investimento
R$ 735.437,12 (FAPESP)

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