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Medicamentos

Garantia de vida

Biofármaco para bebês será produzido em grande escala

MIGUEL BOYAYANRecém-nascido: plena respiração com surfactanteMIGUEL BOYAYAN

Um biofármaco produzido pelo Instituto Butantan em parceria com a Sadia, que tem como matéria-prima pulmões suínos, deve evitar a morte de cerca de 50 mil crianças recém-nascidas por ano, vítimas da síndrome do desconforto respiratório (SRD). A doença, típica de bebês prematuros, é causada pela deficiência de surfactante pulmonar, substância que se forma nos pulmões do bebê no final da gravidez e que serve para funcionamento pleno da respiração. Produzido naturalmente pelos pulmões, o surfactante age no interior dos alvéolos, permitindo que eles se mantenham abertos durante a expiração. Quanto menor o tempo de gestação, maior a incidência da SRD. O tratamento é feito com a aplicação de surfactante na traquéia do bebê, logo após o nascimento. A dose do medicamento importado custa R$ 700,00, o que torna inviável a distribuição na rede pública de saúde. Um problema que começa a diminuir com a fabricação em larga escala do primeiro surfactante produzido com tecnologia nacional a partir dos pulmões suínos, com custo previsto de cerca de 40% a 50% do valor do importado.

Atualmente, o Instituto Butantan produz 4 mil doses por ano. A meta é chegar a 200 mil. Para isso, a Sadia, que enviava os pulmões suínos em caminhões refrigerados para o instituto, vai se encarregar da primeira fase do processo, a extração do surfactante. Uma área com 40 metros quadrados foi montada pela empresa em sua unidade de Uberlândia, em Minas Gerais, onde serão preparados 500 quilos de pulmões de suínos por semana. Inicialmente, eles são lavados e moídos. Após a moagem, é adicionada uma solução salina aos pulmões, posteriormente filtrada. Em seguida, adiciona-se à mistura a celulose, responsável pela absorção do surfactante. Em vez de mandar os pulmões ao Butantan, a empresa enviará, por semana, 300 quilos de celulose com o surfactante. As outras duas etapas, de purificação e liofilização, ficarão por conta do instituto.

As pesquisas que deram início ao medicamento começaram em 1997 e resultaram em uma nova tecnologia de extração do surfactante de pulmões de suínos, que substitui o uso de centrífugas de alta velocidade por um tipo de papel chamado DEAE celulose (veja Pesquisa Fapesp 70). Depois de cumpridas todas as etapas de testes pré-clínicos, foi iniciado no ano passado o ensaio clínico para validação do medicamento, com 33 instituições de todo o Brasil. Os testes estão previstos para terminar na metade deste ano, mas os resultados mostram que tanto o surfactante importado quanto o nacional são igualmente eficazes. “A quantidade de produto necessária também é a mesma para a sobrevivência das crianças”, diz o professor Isaias Raw, presidente da Fundação Instituto Butantan.

A coordenação dos testes clínicos está a cargo do Instituto das Crianças do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). O financiamento da pesquisa desde o início contou com o apoio da FAPESP. O projeto mais recente é um projeto temático financiado também pelo Ministério da Saúde dentro de um convênio firmado em 2005. Numa primeira fase, toda a produção do biofármaco será distribuída a maternidades públicas do país.

O Projeto
Desenvolvimento industrial de surfactante pulmonar de origem animal
Modalidade
Projeto Temático
Coordenador
Isaias Raw – Instituto Butantan
Investimento
R$ 1.062.917,31, US$ 193.000,00 e € 145.000,00 (FAPESP e Ministério da Saúde)

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