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Resenha

Gerações em movimento

Juventudes e velhices: Uma história de práticas saudáveis de educação física | Edivaldo Góis Junior | Editora Unicamp | 326 páginas | R$ 122,00

A relação entre educação física e saúde aparece em diferentes contextos, entretanto muitas vezes em discursos direcionados aos ciclos da vida humana de forma naturalizada. O livro Juventudes e velhices: Uma história de práticas saudáveis de educação física se inicia lembrando que “mais do que etapas da vida biológica, juventude e velhice são construções sociais”, assim como as compreensões de saúde.

Essa perspectiva justifica também o uso do plural em seu título, pois as realidades são diversas, bem como suas representações. A obra de Edivaldo Góis Junior, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), busca descrever e analisar as relações entre “práticas de educação física” e representações sobre juventudes e velhices, acompanhando o processo de modernização das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro no século XX.

O estudo combina a pesquisa documental, o diálogo atualizado com a produção acadêmica da educação física e as referências clássicas da história, filosofia e sociologia. As análises partem de periódicos acadêmicos e textos jornalísticos veiculados nas duas cidades, vislumbrando orientações, serviços e produtos voltados aos jovens e idosos.

O recorte temporal orienta a organização das análises em quatro capítulos. O primeiro direciona-se às juventudes e velhices em face de “práticas de educação física” na década de 1930, no período Vargas. Esse é um contexto de urbanização, inspirado pela modernidade europeia e norte-americana, em meio a aspirações nacionalistas. São criados os primeiros cursos de formação em educação física no país, sob a orientação de médicos, educadores e militares.

Discursos higienistas e eugênicos são direcionados à juventude. Tal ênfase na saúde e na ordem, com destaque para o potencial da ginástica, contrasta com os conflitos na popularização dos esportes. A representação da velhice, por sua vez, é moldada por um olhar pessimista, caracterizado pela solidão e busca pelo rejuvenescimento por meio de dietas, medicamentos e, apenas de forma secundária, ginástica.

O segundo e terceiro capítulos se centram nas juventudes e velhices, respectivamente, dos anos 1960 e 1970. No cenário mundial de Guerra Fria, propagam-se discursos conservadores e progressistas entre as juventudes no Brasil. Em meio à repressão e autoritarismo do Estado, práticas esportivas ganham protagonismo, embora ainda associadas à masculinidade. Entre usos ideológicos e disputas de espaço, esportes com maior apelo midiático são questionados pelos movimentos de contracultura, protagonizados por jovens. Discursos sobre atividades físicas e esportivas ampliam seu escopo e as representações sugerem idosos mais ativos, produtivos e saudáveis.

Juventude e velhice constantemente remetem um ao outro, relação que recebe maior destaque no quarto capítulo: “O envelhecimento que enaltece a juventude e a juventude que administra o envelhecimento nos anos de 1980”. No contexto da redemocratização do país, observa-se a ampliação dos discursos sobre o envelhecimento ativo e as contradições entre os direitos coletivos às políticas de saúde e perspectivas individualistas.

O autor identifica um deslocamento das “práticas de educação física” orientadas por um discurso coletivo dirigido a uma juventude saudável para a crescente responsabilização dos indivíduos pela própria saúde, articulada com a busca por um envelhecimento bem-sucedido. A leitura nos ajuda a identificar uma realidade multifacetada, e os campos de disputa que se abrem com a riqueza da educação física e dos esportes enquanto fenômenos culturais complexos, que ampliam horizontes ao longo do século XX.

O historiador francês Marc Bloch, no livro Apologia da história (1949), sugere que a ignorância da história compromete nossas ações no presente. Felizmente contamos com os estudos da história para nos percebermos para além de determinismos justificados biológica ou socialmente. Ao posicionar as juventudes e velhices como objetos da história, em categorias marcadas pelas diferenciações socioculturais, o livro propõe a ampliação da sensibilidade para a diversidade de representações que as práticas de educação física podem acolher.

Ana Cristina Zimmermann é professora da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP).

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