Ao analisar esse panorama, a cientista política Maria Paula Gomes dos Santos, do Ipea, explica que os conflitos no Norte do país são históricos e decorrem de disputas que se tornaram mais complexas com o passar dos anos. “No século XX, a região foi considerada um vazio demográfico por diferentes governos nacionais, pois não se levavam em conta as populações tradicionais nem os migrantes que chegaram em ondas diferentes e sucessivas. Entretanto, era tida também como a terra da superabundância, capaz de alavancar o desenvolvimento econômico brasileiro”, pontua Santos, coordenadora da pesquisa do Ipea de 2024.
Como exemplo, ela menciona o ciclo da borracha ocorrido no final do século XIX, quando o país investiu em políticas para incentivar a extração de látex, matéria-prima para produção do insumo. Naquele momento, populações empobrecidas, especialmente do Nordeste, deslocaram-se para a Amazônia para trabalhar em condições precárias e com baixos salários. “Quando o mercado da borracha entrou em colapso entre 1912 e 1914, essas pessoas foram abandonadas à própria sorte e tiveram de buscar alternativas de subsistência. Em muitas situações, essas possibilidades envolviam a extração predatória de recursos da floresta”, afirma a cientista política.

Raphael Alves / AFP via Getty ImagesPoliciais no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus, semanas após rebelião que resultou na morte de 56 pessoas, em 2017Raphael Alves / AFP via Getty Images
Além disso, durante a ditadura militar (1964-1985), o governo investiu na ampliação de rodovias para estimular o avanço da fronteira agropecuária e em projetos de extração mineral na região. “As intervenções não respeitaram o meio ambiente e as populações tradicionais amazônicas. Esse processo gerou um acúmulo de conflitos entre múltiplos atores, incluindo produtores rurais, camponeses, indígenas e garimpeiros. A colisão de interesses vem sendo agravada pela ausência de políticas capazes de mediá-los de forma efetiva e pacífica”, diz Santos.
Outro fato que ajuda a compreender o panorama atual de violência no Norte foi a promulgação do Decreto-lei nº 1.164, de 1º de abril de 1971. Com a medida, certas regiões amazônicas foram declaradas de interesse nacional e sua jurisdição passou dos estados à União, que se tornou responsável por sua administração. “Porém a ausência de políticas públicas na região gerou um vazio de governabilidade que transformou os territórios em alvo de disputa”, afirma o jurista Aiala Colares de Oliveira Couto, da Universidade do Estado do Pará (Uepa). Como reflexo do decreto, 50% da área do estado pertence hoje à União e grande parte dessa fatia abarca unidades de conservação, terras indígenas e quilombolas. “É justamente nesses lugares que atividades como garimpo ilegal e desmatamento são mais intensas”, destaca o pesquisador.
Dados do estudo de 2024 do FBSP e do IMC corroboram essa afirmação. O levantamento identificou a existência de 8,4 mil imóveis rurais registrados no Cadastro Ambiental Rural (CAR), que se sobrepõem ilegalmente a áreas legalmente protegidas, como Terras Indígenas e Unidades de Conservação. Couto nasceu no quilombo de Pitimandeua, no Pará, e pesquisa o narcotráfico na região desde 2010. Seu livro Geopolítica do narcotráfico na Amazônia (Appris Editora, 2023) foi finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico, no ano passado.
Nesse território marcado por conflitos fundiários, o avanço da presença de facções criminosas agravou o cenário de violência. De acordo com o Atlas da violência deste ano, o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, estão hoje presentes em todos os estados da região, articulando-se com organizações locais. Essa dinâmica envolve a disputa pela chamada Rota do Solimões, que escoa a cocaína vinda da Colômbia e do Peru, além da utilização de pontos estratégicos como o porto de Santana (AP) para exportar drogas e importar armas.
Pesquisador do assunto há mais de 10 anos, o sociólogo Pedro Henrique Coelho Rapozo, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), identificou que a chegada de organizações criminosas brasileiras à região coincide com a desmobilização de grupos colombianos envolvidos com o tráfico, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército de Libertação Nacional (ELN). Em 2016, essas duas organizações assinaram um acordo de paz com o governo daquele país e sua presença na Amazônia colombiana e em áreas de fronteira, que incluem o Brasil, perdeu força. “A mudança gerou um vácuo de poder que, nos anos seguintes, foi preenchido por facções do Sudeste brasileiro, sobretudo o CV e o PCC”, observa.
“O Brasil vem despontando como um país central no trânsito de cocaína para mercados internacionais”, diz a socióloga Isabela Vianna Pinho. Em 2025, ela defendeu doutorado na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com financiamento da FAPESP, sobre o mercado transnacional da droga. De acordo com a pesquisadora, o porto de Santos, no estado de São Paulo, constitui o maior e mais antigo ponto de escoamento do narcótico no país, com forte atuação do PCC. “No entanto, com o endurecimento da fiscalização do trânsito marítimo em Santos desde 2016, o grupo expandiu sua atuação para portos do Norte e Nordeste, onde o controle policial é menos intenso”, afirma a socióloga, que entrevistou agentes da alfândega, policiais, estivadores, funcionários do porto e pessoas que atuaram no tráfico. Também o estudo do FBSP e do IMC captou um aumento na circulação de drogas na Amazônia Legal. Entre outros dados, o documento mostra que, em relação à cocaína, as secretarias estaduais de segurança pública registraram um crescimento de 574,4% no volume apreendido na Amazônia Legal entre 2019 e 2024.
Para a socióloga Camila Nunes Dias, da Universidade Federal do ABC (UFABC), a atual onda de violência no Norte começou a ser observada em 2010 e se intensificou a partir de 2014. De acordo com a pesquisadora, esse processo coincide com a expansão territorial do PCC e do CV, ocorrida principalmente a partir do sistema prisional. Levantamento de 2024 da Secretaria Nacional de Políticas Penais, do Ministério da Justiça e Segurança Pública (Senappen-MJSP), mapeou a existência de 88 organizações criminosas no sistema penitenciário brasileiro.
Além disso, como observa a antropóloga Karina Biondi, da Universidade Estadual do Maranhão (Uema), parte dos encarcerados costuma aderir às facções como estratégia de sobrevivência. “Quando o detento quer ser transferido para um pavilhão onde tem conhecidos e estará mais seguro, a administração da unidade prisional o obriga a assinar um termo para afirmar que pertence a determinada facção. Muitas vezes, ele nem é de fato integrante do grupo, mas passa a ser definido assim em documentos oficiais”, conta. De acordo com a pesquisadora, o documento assinado é solicitado ao detento para justificar a mudança de pavilhão.

Sandro Pereira / FolhapressPichações do Comando Vermelho em prédios históricos no centro da capital amazonenseSandro Pereira / Folhapress
O sociólogo Fábio Candotti, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), explica que um dos casos mais emblemáticos do crescimento da violência dentro do sistema prisional foi o massacre em 2017, no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus. Na ocasião, 56 presidiários, muitos deles ligados ao PCC, foram assassinados por internos de grupos rivais. Após o episódio, a disciplina no presídio ficou mais rígida, passando a incluir o confinamento diário de presos em celas trancadas, o controle da correspondência e a proibição da entrega de mantimentos por familiares.
As medidas, contudo, não intimidaram o crime na região Norte. “Naquele mesmo momento, os homicídios explodiram e mercados ilegais como o garimpo aumentaram em toda a região”, informa o pesquisador. Ele considera que o episódio evidencia que o controle sobre o sistema carcerário não resulta na redução de mercados ilegais e violências. “É preciso, também, levar em consideração a hipótese do crescimento da participação de agentes do Estado, da segurança pública inclusive, nesses mercados”, sugere.
Nesse sentido, a edição de 2025 do Atlas da violência aponta como um dos fatores para o agravamento da situação a violência estatal. Segundo o estudo, o Amapá teve a maior taxa de mortes por intervenção policial do Brasil em 2023. Na cidade de Santana, uma das mais violentas do estado, 27% dos homicídios foram causados pela polícia. Outros motivos também contribuem para piorar o cenário no estado, como a localização estratégica de seus portos, a desigualdade social e os confrontos entre facções criminosas locais, a exemplo da Família Terror do Amapá, alinhada ao PCC, e da União Criminosa Amapaense, parceira do CV.
Na visão do sociólogo Fernando de Jesus Rodrigues, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a atenção excessiva dirigida às facções oriundas do Sudeste pode ocultar fatores que ajudam a compreender a violência na região. “Muitos homicídios têm origem em disputas por terras, ouro ou pesca e envolvem milícias, jagunços, empresas de segurança privada e outros grupos armados que não têm relação direta com as facções”, explica.

Ivan Valencia / Bloomberg via Getty ImagesLaboratório de produção de pasta base de cocaína na Colômbia: Brasil tornou-se rota do tráfico internacionalIvan Valencia / Bloomberg via Getty Images
Rodrigues, Candotti e Biondi integram o projeto de pesquisa “Políticas e fluxos prisionais: Experiências de vida em torno dos cárceres no Norte e Nordeste do Brasil”, que analisa o sistema penitenciário e suas conexões com mercados ilegais. O estudo é financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e resultou na publicação de um dossiê na Tomo, revista do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS), em 2022.
Dias, da UFABC, relata que redes criminosas nacionais com ênfase no tráfico de drogas juntaram forças com grupos locais que já atuavam em mercados ilícitos na Amazônia, como garimpo e extração de madeira ilegais, além da grilagem de terras. “Com isso, o crime se diversificou”, constata a socióloga, integrante de projeto de pesquisa do Ipea que desde 2022 analisa as estatísticas oficiais de violência no país.
Segundo Rapozo, no Amazonas há rotas consolidadas para o tráfico de peixes ornamentais retirados de áreas protegidas, incluindo, por exemplo, espécies como acarás-disco e alevinos de Aruanã, cujos valores individuais podem chegar a mais de US$ 1 mil em mercados internacionais. “Essas atividades aumentam os lucros das facções e incentivam a estruturação de redes de serviços, que contemplam desde casas de prostituição até restaurantes em acampamentos para alimentar os criminosos”, afirma o pesquisador, coordenador do Núcleo de Estudos Socioambientais da Amazônia (Nesam) da Ufam.
Nessas situações, o ouro funciona como moeda paralela na economia informal das fronteiras da Amazônia. Por exemplo: uma garrafa de cerveja pode ser vendida por 1 grama (g) de ouro, ou cerca de R$ 250; já um programa com uma profissional do sexo pode custar 4g de ouro, ou R$ 1,2 mil. “Isso representa a injeção direta de recursos extraídos de atividades ilícitas na economia local, sem nenhuma intermediação bancária ou regulação fiscal”, enfatiza Rapozo. O pesquisador realiza trabalhos de campo com organizações sociais, lideranças indígenas e moradores de comunidades e acompanha operações de desobstrução de garimpos ilegais conduzidas pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Além disso, desde 2017, o Nesan mantém um acordo de cooperação com a Polícia Federal, com o objetivo de compreender o fluxo da cocaína que circula no Brasil.
Nessa dinâmica de articulação entre facções, narcotráfico e crimes ambientais, Rapozo relata que, no vale do Javari, região no oeste do estado do Amazonas com alta densidade de povos indígenas isolados, o cenário é alarmante. “Há pessoas dessas comunidades indígenas sendo pagas por grupos criminosos para pescar em áreas protegidas e operar balsas de garimpo ilegal”, alerta. De acordo com o pesquisador, em algumas aldeias indígenas a presença de facções se consolidou e o consumo de crack está disseminado, especialmente entre os mais jovens.

Felipe Werneck / IbamaApreensão de toras extraídas ilegalmente da Terra Indígena Pirititi, em Roraima, em 2018Felipe Werneck / Ibama
Estudo publicado em 2025 pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pela Hutukara Associação Yanomami indica que a operação de garimpo ilegal se tornou mais complexa a partir de 2016 e se agravou após 2018. A pesquisa mostra que a área impactada pela atividade cresceu 300% na Terra Indígena Yanomami entre outubro de 2018 e dezembro de 2022, especialmente com a atuação do PCC na região. De acordo com o documento, jovens Yanomami passaram a ser cooptados pelas facções, recebendo em troca alimentos industrializados, celulares, bebidas alcoólicas, acesso à internet, dinheiro e armas de fogo. O levantamento informa, ainda, que o aliciamento confere status a esses jovens em suas comunidades, tensionando as relações intergeracionais e, em alguns casos, levando-os a ameaçar líderes contrários ao garimpo.
Outro fator que, segundo Raposo, vem contribuindo para o agravamento da violência na região é o enfraquecimento da fiscalização de crimes ambientais desde 2016. Naquele ano, a Base Anzol, por exemplo, instalada em uma balsa no rio Solimões, em Tabatinga (AM), foi desativada. Sua função era controlar crimes ambientais e interceptar a entrada de cocaína pelo rio. Com a retirada, novas rotas fluviais foram abertas, tornando-se corredores ativos para o narcotráfico. Nesse processo, o conhecimento geográfico de populações locais, sobretudo de povos indígenas, é frequentemente mobilizado. “Indígenas são contratados para ajudar a driblar barreiras de controle. No Solimões, o Brasil tem bases da Polícia Federal em apenas metade do rio e eles conhecem os pontos cegos”, assegura o pesquisador.
Para Couto, da Uepa, transformar esse cenário demanda a criação de medidas para garantir a titulação de territórios quilombolas e a demarcação de terras indígenas, incluindo iniciativas para assegurar a presença efetiva do Estado na região. “É preciso contar com estruturas de segurança pública aliadas a políticas sociais. A violência na Amazônia é a expressão de um projeto de ocupação que sempre tratou a floresta como fronteira a ser conquistada, e não como território a proteger”, sustenta o pesquisador.
Segundo Couto, há regiões do Norte em que a mineração legal e ilegal é o carro-chefe da economia, de forma que é necessário oferecer outras opções de renda para as comunidades. Nesse sentido, Rapozo conta que a UEA está criando um polo universitário na Terra Indígena de Belém do Solimões, em Tabatinga, com o objetivo de expandir o acesso da população local ao ensino superior. “No vestibular para o curso de pedagogia que será oferecido na unidade a partir de 2026, registramos 560 inscritos para somente 40 vagas. As comunidades querem e precisam de alternativas de sobrevivência ao garimpo e a outras atividades ilícitas”, afirma o pesquisador.
A reportagem acima foi publicada com o título “Crimes articulados” na edição impressa nº 358 de novembro de 2025.
Projeto
O mercado transnacional de cocaína no Brasil: Etnografia no porto e em uma favela de Santos (nº 20/14000-6); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisadora responsável Luana Dias Motta (UFSCar); Bolsista Isabela Vianna Pinho; Investimento R$ 313.072,64.
Artigos científicos
DIAS, C. C. N. “Dinâmicas da violência e políticas de segurança nas regiões brasileiras: O impacto das facções criminais – macrorregião Norte.” In: SANTOS, Maria Paula Gomes dos (Org.). Dinâmicas da violência e da criminalidade na Região Norte do Brasil. Brasília, DF: Ipea, 2024.
RAPOZO, P. et al. Dinâmicas dos mercados ilegais, criminalidade e representações sobre a violência: A cartografia dos conflitos na faixa de fronteira Brasil, Colômbia e Peru no estado do Amazonas. Boletim de análise político institucional. Brasília: Ipea, 2024.
RODRIGUES, F. de J. et al. Dossiê: Politicas e mercados criminais no Norte e Nordeste do Brasil. Revista do Programa de Pós-graduação em Sociologia. Universidade Federal de Sergipe, n. 40 (jan./jun. 2022).
Livros
COUTO, A. C. O. Geopolítica do narcotráfico na Amazônia. Curitiba: Appris Editora, 2023.
DE LIMA, R. S. et al. Cartografias da violência na Amazônia. 4a ed. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2025.
SANTOS, M. P. G. dos (org.). Dinâmicas da violência e da criminalidade na região Norte do Brasil. Brasília: Ipea, 2024.
Relatórios
CERQUEIRA, D. et al. Atlas da violência 2025 – Retrato dos municípios brasileiros e dinâmica regional do crime organizado. Versão preliminar. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 2025.
MACHADO, A. M. et al. e Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Infância e juventude Yanomami. O que significa ser criança e os desafios urgentes na Terra Indígena Yanomami. Brasília, 2025.
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