O prêmio Ig Nobel chegou à sua 35ª edição na noite desta quinta-feira (18). A cerimônia que antecede o Nobel é uma sátira que celebra a criatividade e o bom humor na ciência. Ao contrário do Nobel, não tem categorias fixas: elas mudam anualmente de acordo com os estudos selecionados. O único critério da premiação é fazer o público rir e, depois, pensar.
Criado em 1991 pelo matemático norte-americano Marc Abrahams, editor da revista Annals of Improbable Research (Anais da Pesquisa Improvável), o Ig Nobel é entregue por laureados do Nobel. Neste ano, Esther Duflo (Economia, 2019), Eric Maskin (Economia, 2007), Svante Pääbo (Medicina, 2007), Moungi Bawendi (Química, 2023) e Robert Merton (Economia, 1997) entraram na brincadeira e estiveram presentes na cerimônia que aconteceu na Universidade de Boston, nos Estados Unidos. Em um quadro tradicional entre premiações, cientistas convidados se arriscam a apresentar um resumo técnico de sua pesquisa em 24 segundos e, depois, em sete palavras, arrancando risadas do público e dos colegas.
O tema central do ano foi digestão, celebrada em uma miniópera sobre situações enfrentadas por gastroenterologistas e pacientes. Nem todos os trabalhos premiados abarcam o assunto, mas, com esse enfoque, foi selecionado um estudo feito por japoneses que pintaram listras em vacas, como se fossem zebras, para saber se o padrão faz diferença em ataques de mosquitos (e faz, as disfarçadas são menos atacadas) e outro sobre qual tipo de pizza um lagarto africano (Agama agama) prefere. Diante dos sabores quatro queijos e quatro estações, os animais comeram apenas as primeiras, sugerindo que algo na composição possibilita uma melhor digestão para eles, de acordo com artigo de 2023 na revista African Journal of Ecology.
“Queríamos descobrir o que acontece com lagartos quando eles descobrem queijos e carboidratos, e agora sabemos: a resposta é que eles se comportam como italianos”, escreveu um dos autores, o ecólogo Luca Luiselli, do Instituto de Desenvolvimento, Ecologia, Conservação e Cooperação da Itália. Ele não pôde comparecer à cerimônia, mas teve seu discurso lido por Duflo.

ReproduçãoPesquisador recebe o prêmio de Física vestido de chef de cozinha e laureados do nobel recebem pratos de cacio e pepeReprodução
No campo da física, quatro cientistas buscaram desenvolver a receita perfeita de cacio e pepe, que, apesar de levar apenas três ingredientes (espaguete, queijo e pimenta), tem uma técnica de preparo que pode acabar com um molho empelotado e desagradável ao paladar. A receita baseada em evidências científicas está no artigo publicado em abril deste ano na revista Physics of Fluids. Um dos autores recebeu o prêmio vestido de chef de cozinha e o grupo ofereceu a iguaria aos laureados do Nobel.
Dois dos estudos homenageados exploraram os efeitos do álcool. Na categoria aviação, um grupo de pesquisadores foi premiado por uma avaliação sobre o que acontece com indivíduos embriagados – não seres humanos, mas morcegos. Segundo eles, o etanol está presente em frutas com polpa, as preferidas de algumas espécies. Assim como acontece com pessoas, as capacidades de voo e de ecolocalização dos animais “bêbados” são prejudicadas após a ingestão de frutas com maior teor de álcool. O experimento foi detalhado em artigo publicado em 2010 na revista Behavioural Processes.
O Ig Nobel da paz foi para uma equipe dos Países Baixos, Reino Unido e Alemanha, que demonstrou que a bebida alcóolica pode melhorar as habilidades de falar uma língua estrangeira. Em um experimento com 50 estudantes alemães que estavam aprendendo holandês, os que beberam antes de conversar com nativos se saíram melhor do que os sóbrios, indicando que pequenas doses podem ajudar na comunicação. Os autores não puderam comparecer à cerimônia, mas Merton e Pääbo leram o recado: “Não recomendamos o álcool como ferramenta para aprender uma nova língua: altas doses afetam a memória, a atenção e o comportamento, que são tudo o que você precisa para aprender um idioma”.
Já na lista de trabalhos que se conectam ao tema do ano por abordarem temas indigestos, está o prêmio de engenharia e design, que foi entregue a uma dupla de indianos, que propôs uma solução para acabar com o mau cheiro dos sapatos ao criar uma sapateira com luz UV-C capaz de matar as bactérias que causam o chulé.

ReproduçãoOs premiados em Biologia pintaram vacas como se fossem zebras para testar a preferência de mosquitosReprodução
No campo da literatura, o médico norte-americano William Bennett Bean (1909-1989) foi homenageado por sua obra detalhada sobre o crescimento das próprias unhas por 35 anos. Entre suas observações, ele destacou condições clínicas e variações sazonais que podem alterar a aparência e o tamanho das unhas ao longo do tempo. Bennett Bean, filho do médico, recebeu o prêmio em nome do pai durante a cerimônia.
Outras curiosidades alimentares sobre o corpo humano também inspiraram os cientistas premiados na categoria de pediatria. Uma dupla de norte-americanos foi reconhecida por um estudo de 1991 sobre o que acontece com o leite materno quando mulheres lactantes comem muito alho. A proposta foi investigar se a dieta afetaria características do leite e o comportamento dos bebês. A resposta foi sim para ambas as hipóteses: a ingestão de alho mudou o odor do leite e os bebês mamaram mais.
O fim da cerimônia foi marcado pela tradicional chuva de aviões de papel e o consolo de Abrahams para os cientistas: “Se você não ganhou um prêmio Ig Nobel este ano – e especialmente se você ganhou – tenha mais sorte no ano que vem!”.
Republicar