O crítico literário João Adolfo Hansen costumava se definir como um apaixonado por livros, plantas e animais. A curiosidade pelo mundo vegetal veio desde cedo, a ponto de hesitar entre os cursos de agronomia e letras na hora de escolher a graduação, como contou em entrevista a Pesquisa FAPESP em 2022 (ver Pesquisa FAPESP nº 316). A opção pela literatura, no entanto, acabou prevalecendo e o pesquisador se tornou um dos maiores especialistas do país na produção escrita do período colonial brasileiro. Professor emérito da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), ele morreu no dia 16 de fevereiro, aos 83 anos, em São Paulo, em decorrência de um câncer.
Natural de Cosmópolis (SP), Hansen formou-se em letras anglo-germânicas na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), em 1964. No mesmo ano, iniciou a carreira docente como professor de latim do curso clássico (atual ensino médio) do Instituto de Educação Presidente Kennedy, em Americana (SP). Em 1983, ingressou no mestrado em Literatura Brasileira na USP, sob orientação de José Carlos Garbuglio. A pesquisa rendeu a dissertação “A ficção da literatura em Grande sertão: Veredas”, publicada em 2000, pela editora Hedra.
“Nesse trabalho, Hansen foi contra a corrente da crítica especializada da época, que atribuía à obra de Guimarães Rosa [1908-1967] um viés místico e reacionário em termos políticos e sociais”, conta Cilaine Alves Cunha, professora de literatura brasileira da FFLCH-USP. “Ele evidenciou que a experimentação de linguagem do romance não era só ruptura estética, mas carregava um sentido político, ao desmontar as ideologias dominantes sobre o sertão”, prossegue a pesquisadora, uma das organizadoras do livro Agudezas seiscentistas e outros ensaios (Edusp, 2019), coletânea com textos do crítico literário sobre as práticas discursivas dos séculos XVI, XVII e XVIII.
No doutorado, também em literatura brasileira na USP, Hansen deu início à pesquisa que o consolidaria como uma das principais referências nos estudos sobre as letras coloniais no Brasil. Em 1988, defendeu a tese “A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do século XVII”, publicada no ano seguinte pela Companhia das Letras e agraciada com o Prêmio Jabuti, na categoria Estudos Literários, em 1990. “Ele demonstrou que a poesia satírica atribuída a Gregório de Matos [1636-1696] era considerada revolucionária de forma infundada, pois obedecia a preceitos retórico-poéticos e a convenções político-sociais que regulavam as práticas letradas na Bahia do século XVII”, afirma Marcelo Lachat, do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O trabalho de Hansen cotejou os textos atribuídos a Matos com tratados de retórica da época e documentos históricos, evidenciando os modos de circulação da cultura letrada do período. Para Guiomar de Grammont, da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), a pesquisa se contrapôs à tese do crítico literário Antonio Candido (1918-2017), da USP, hegemônica nos anos 1980, segundo a qual o sistema literário no Brasil só teria se consolidado em meados do século XVIII. “Hansen revelou que, embora não existisse um sistema editorial nos moldes em que conhecemos hoje, havia uma organização cultural estruturada pela retórica, pela religião e pela política luso-brasileira. Aplicar o conceito moderno de ‘literatura’ ao século XVII, segundo ele, era um anacronismo”, explica.
Mais tarde, o pesquisador organizou em parceria com Marcello Moreira, do Departamento de Estudos Linguísticos e Literários da Universidade do Sudoeste da Bahia (Uesb), os cinco volumes de Gregório de Matos: Poemas atribuídos – Códice Asensio-Cunha (Autêntica Editora), lançados em 2014.
O primeiro livro publicado por Hansen foi Alegoria: Construção e interpretação da metáfora (Atual, 1986). A obra explora o uso dessa figura de linguagem em textos da Antiguidade, da Idade Média e do Renascimento. Segundo Paulo Martins, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP, o autor primeiramente concebeu a obra como um material de apoio didático para professores de literatura. “Mas logo ficou claro que o domínio teórico ali demonstrado ia muito além: o livro já antecipava questões que ele aprofundaria na tese de doutorado sobre Gregório de Matos, tanto que foi relançado depois [2006] pela editora da Unicamp”, diz.
Ao longo da carreira, o pesquisador lançou 23 livros. Além da organização dos poemas atribuídos a Gregório de Matos, reuniu e editou coletâneas da obra do Padre Antonio Vieira (1608-1697), entre elas Antonio Vieira, cartas ao Brasil (Hedra, 2003). “Ele analisa a obra de Vieira a partir das questões de linguagem e da retórica, o que o distingue muito dos estudos marcados pelo positivismo e pelo romantismo do século XIX”, avalia Celso Favaretto, do Departamento de Filosofia da USP.
Hansen dedicou-se também à literatura dos séculos XIX e XX, analisando autores como Cecília Meireles (1901-1964) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), tema de seu último livro, Drummond e o livro inútil (Pequena Biblioteca de Ensaios, 2020). “Para Hansen, a obra de Drummond evidencia que o ‘eu’ poético não é um desabafo biográfico, mas uma construção ficcional que expõe as imposições do sistema”, diz Grammont. “Em suas aulas, ele recorria a Drummond para mostrar como a literatura é capaz de revelar que a vida vivida sob a lógica do capital pode assumir a forma de uma ‘falsidade’.”
Segundo a pesquisadora da Ufop, Hansen era crítico de leituras sentimentais ou nacionalistas do modernismo. De Cecília Meireles, dedicou-se especialmente a Solombra (1963), obra que analisou no livro Solombra, ou a sombra que cai sobre o eu (Hedra, 2003). “Ele mostrou que Cecília não se encaixava no modernismo ‘heróico’ ou folclórico. Para Hansen, sua poesia mantinha certa continuidade com formas tradicionais, como o romanceiro e a lírica clássica”, afirma Grammont.
No momento, uma coletânea de artigos de Hansen sobre Machado de Assis (1839-1908), Meireles, Drummond e outros autores da literatura brasileira está sendo organizada por Cilaine Alves Cunha e Mayra Laudanna, professora aposentada do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP). O livro deve ser lançado neste ano.
Hansen foi professor visitante em diversas instituições no exterior. Entre elas, as universidades Stanford e da Califórnia (Ucla), nos Estados Unidos, a École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), na França, e a Universidade do Chile (UC). Manteve interlocução com pesquisadores estrangeiros, como o historiador britânico Peter Burke, professor emérito da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, que teve um papel importante na tese de doutorado de Hansen – foi Burke quem chamou a atenção do brasileiro para o circuito internacional de modelos culturais articulado pela Companhia de Jesus nos séculos XVI e XVII.
“Nos anos 1980 iniciamos uma série de conversas sobre arte e literatura do século XVII, especialmente da Grã-Bretanha e do Brasil, que prosseguiram até há poucos meses, quando o vi pela última vez”, recorda o historiador britânico em entrevista a Pesquisa FAPESP. “No contexto brasileiro, o interesse de Hansen pelo século XVII era incomum, assim como a amplitude de seu conhecimento sobre literatura e arte francesas, italianas e espanholas.”
Hansen deixa a esposa, Marta Maria Chagas de Carvalho, professora de história da educação da USP, e os filhos Júlia, Laura, Alexandre e André.
A reportagem acima foi publicada com o título “Leitor atento” na edição impressa nº 361 de março de 2026.
Republicar