Acervo da Abralin“Assim como o pintor é aquele que permaneceu criança diante de formas e cores, o poeta também é alguém que permanece criança diante da linguagem.” A frase proferida pelo linguista russo Roman Jakobson (1896-1982) durante seminário realizado na Universidade de São Paulo (USP), em 1968, marcou profundamente a trajetória acadêmica da linguista Cláudia Thereza Guimarães de Lemos e a levou a desenvolver uma escuta atenta da fala das crianças. O encontro com Jakobson nessa ocasião e as repercussões em seu percurso foram descritos pela pesquisadora no artigo “A criança e o linguista”, publicado em 2014 na revista Estudos Linguísticos. Considerada uma das pioneiras no Brasil em estudos de aquisição de linguagem na infância, Lemos trabalhou como docente na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) por cinco décadas. Morreu no sábado (31/1), aos 91 anos, de insuficiência respiratória.
Formada em letras clássicas pela USP em 1956, Lemos se interessou em pesquisar o processo de se tornar falante da língua materna no final dos anos 1960, quando trabalhava com crianças portadoras de deficiência auditiva na Divisão de Educação e Reabilitação de Distúrbios da Comunicação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde também foi professora. Ali, criou um instrumento de avaliação de linguagem para apoiar os diagnósticos dos problemas de comunicação na infância. “Ela se interessou em ouvir falas que fugiam da norma”, diz a linguista Maria Francisca Lier De-Vitto, professora da PUC-SP.
Lemos iniciou sua especialização em linguística na USP, em 1967. Na mesma época, a convite do editor Jacó Ginsburg (1921-2018), à frente da editora Perspectiva, e do poeta Haroldo de Campos (1929-2003), traduziu parte dos artigos do livro Linguística. Poética. Cinema. (Perspectiva, 1970), de Jakobson, um dos mais influentes autores da linguística moderna e precursor da análise estruturalista da linguagem, especialmente relacionada à literatura. Antes de começar sua trajetória na pós-graduação, ela havia atuado como leitora de língua portuguesa na Universidade de Tóquio, no Japão, em 1963, por meio de um programa do governo federal para divulgar o idioma em instituições de ensino estrangeiras.
Em 1975, a linguista ingressou como professora na Unicamp. No mesmo ano, defendeu sua tese na Universidade de Edimburgo, na Escócia, onde fazia o doutorado desde 1972. O trabalho, “The use of ‘ser’ and ‘estar’ in Brazilian Portuguese with particular reference to child language acquisition” (“O uso do ‘ser’ e do ‘estar’ no português brasileiro, especialmente na aquisição da linguagem pelas crianças”, em tradução livre), foi orientado pelo linguista britânico John Lyons (1932-2020), conhecido pelas contribuições ao ensino da linguística moderna. “A base da pesquisa foram gravações de interações verbais entre crianças e seus familiares, que ela havia registrado no Brasil”, conta a psicóloga e linguista Maria Fausta Pereira de Castro, professora do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp. “Cláudia aprofundaria essa metodologia em seus trabalhos posteriores.”
Castro figura entre as pesquisadoras do projeto “Relações entre desenvolvimento cognitivo e desenvolvimento pré-linguístico e linguístico em crianças brasileiras”, coordenado por Lemos. O estudo teve apoio da FAPESP de 1977 a 1979 e seguiu como grupo de pesquisa na Unicamp até 1995. Em 2013, o acervo de 423 horas de gravações de interações verbais de crianças de 1 a 5 anos, compiladas pela pesquisa, foi digitalizado, com o apoio da FAPESP, e hoje se encontra no Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio (Cedae), da Unicamp.
“As evidências desse estudo demonstram que a fala da criança é ‘ancorada’ na fala do adulto, especialmente na materna. Isso gerou inúmeros desdobramentos teórico-metodológicos que ainda hoje fundamentam análises sobre a aquisição da linguagem”, destaca a linguista Alessandra Del Ré, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara. Para a pesquisadora, as contribuições do grupo foram além da linguística. “O projeto influenciou a prática clínica na fonoaudiologia e na psicanálise, bem como abriu caminhos para o estudo da escrita inicial das crianças”, prossegue Del Ré.
Na década de 1990, o encontro com a psicanálise representou um divisor de águas na trajetória de Lemos. “Mesmo assim, ela não abandonou os estudos sobre aquisição de linguagem”, relata Castro. A pesquisadora realizou sua formação na Escola de Psicanálise de Campinas no início dos anos 2000 e desde então passou a conciliar a atividade docente com a clínica psicanalítica. “Cláudia renovou a questão da fala infantil com o aprofundamento na psicanálise, voltando-se para uma releitura do ‘erro’ na fala da criança e suas relações com as transgressões de linguagem presentes na literatura”, prossegue Castro.
A institucionalização da nova abordagem veio em 2007, quando participou da criação do Centro de Pesquisa Outrarte: Estudos entre Arte e Psicanálise, na Unicamp. “Isso reforçou o vínculo de suas pesquisas com a literatura”, comenta Flávia Trocoli, professora de teoria literária da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “As análises das relações entre Jakobson, o psicanalista francês Jacques Lacan [1901-1981] e o escritor irlandês James Joyce [1882-1941], que ela fez em cursos e artigos, são incontornáveis e podem ainda render muitos deslocamentos no modo como pensamos os entrecruzamentos entre a linguística, a psicanálise e a literatura.”
Lemos fez estágio de pós-doutorado na Universidade Sorbonne, na França, em 1992, e foi professora visitante em diversas instituições estrangeiras, como as universidades de Buenos Aires (Argentina), Tilburg (Holanda) e Católica de Louvain (Bélgica). Nos anos 1980, estabeleceu uma parceria com a psicóloga Luigia Camaioni (1947-2004), da Universidade La Sapienza di Roma, na Itália, e com Jerome Bruner, então docente da Universidade Oxford, no Reino Unido. Juntos, desenvolveram um projeto de pesquisa sobre aquisição da linguagem, coordenado pelo psicólogo e educador norte-americano. “Bruner citou, inclusive, um trabalho de Cláudia em um artigo de 1981 e reconheceu sua contribuição em um agradecimento no prefácio do livro Child’s talk: Learning to use language [Oxford University Press,1983]”, lembra Del Ré.
Para a pedagoga e linguista Núbia Faria, professora aposentada da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a trajetória de Lemos foi marcada por “uma inquietação constante, pela capacidade de rever posições e um frescor permanente na forma de pensar e de se encantar com a linguagem”. Aposentada na década de 2000, a pesquisadora lecionou na Unicamp até 2024, quando tinha 89 anos. Pouco antes de morrer, selecionou 22 artigos, que escreveu ao longo da trajetória acadêmica, para um livro dedicado à sua obra previsto para ser lançado este ano pela editora da Unicamp.
No final de 2025, a Unicamp concedeu a Lemos o título de professora emérita. A honraria será recebida neste ano pelos filhos Maria Teresa, Anamaria e José Augusto.
A reportagem acima foi publicada com o título “A escuta do começo” na edição impressa nº 361 de março de 2026.
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