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Memória

Mal de amor e saudades

Disco pioneiro de modinhas coloniais e imperiais será relançado depois de 40 anos

EDUARDO CESAR Capa do disco original…EDUARDO CESAR

Uma feliz conjunção entre música e história se tornará acessível aos interessados nestes 200 anos da chegada da Corte portuguesa ao Brasil. O disco Modinhas coloniais e imperiais, esgotado desde 1967, será relançado em São Paulo no formato de CD. A obra é o primeiro registro gravado em longplay (LP) totalmente dedicado à modinha, que atravessou o período colonial, estendendo-se ao Império, sempre cultivada nos salões do país.

A gravação em longplay, o antigo disco de vinil, começou a tomar forma quando uma jovem pesquisadora em ciências sociais, a também cantora lírica paulistana Léa Vinocur Freitag, foi convidada para cantar modinhas coloniais acompanhada pelo pianista Osvaldo Lacerda no programa de televisão de Silveira Sampaio, em 1964. O convite partiu do pesquisador Mozart de Araújo, que lançava o livro Modinhas e lundus do século XVIII. Ele havia pesquisado em arquivos portugueses e brasileiros e incluiu no seu livro os versos de Marília de Dirceu, do desembargador e poeta árcade Tomás Antônio Gonzaga. Esses versos teriam sido musicados por Marcos Portugal, músico português que veio ao Brasil em 1811, nomeado por dom João VI mestre da Capela Real.

EDUARDO CESAR …e álbum de Mário de AndradeEDUARDO CESAR

A soprano Léa gostou da experiência e decidiu estudar esse gênero musical dos séculos XVIII e XIX. “As modinhas tinham uma grande influência da ópera”, explica. “O centro da vida social e musical, tanto de Portugal como do Brasil daquela época, concentrava-se na igreja, na ópera e nos salões.” As musas do movimento literário Arcadismo eram sempre Marílias, Tirces, Márcias, que aparecem em quase todos os poemas anônimos como musas do amor infeliz. No entanto, Mário de Andrade aconselhava que se cantassem as modinhas – “esses textos de mal de amor e saudades” – com o “rosto sorridente”. No prefácio de seu livro Modinhas imperiais o escritor comentava: “Não é possível tomar a sério toda essa choradeira sistematizada, e em nenhuma execução vai melhor do que nestas modinhas aquele sorriso aos ouvintes que o velho ‘mestre da solfa’ aconselhava os cravistas no tempo dele”.

Até 1966 as descobertas de Mozart de Araújo e a compilação de Mário de Andrade não haviam sido gravadas. À época Léa já estava na pós-graduação estudando sociologia da literatura sob orientação de Ruy Coelho, pesquisando sobre a modinha. “Foi então que tive a idéia de gravar parte desse material”, conta. Ela pediu e obteve financiamento da FAPESP para fazer um longplay inteiro com seu objeto de pesquisa. Convidou a pianista Maria do Carmo de Arruda Botelho, que já tinha uma carreira internacional, para acompanhá-la. No lado A, Léa gravou algumas “liras” de Marília de Dirceu, com harmonização de Osvaldo Lacerda e música de Marcos Portugal. No lado B, cantou as modinhas imperiais, que constam do álbum de Mário de Andrade. Em 1967 foram prensados 600 discos, distribuídos para pesquisadores, jornalistas e radialistas. O trabalho foi saudado pelo pioneirismo e qualidade artística.

EDUARDO CESAR Partitura de Marília de DirceuEDUARDO CESAR

Léa Freitag seguiu sua carreira musical, jornalística e universitária. Cantou em recitais no Brasil e no exterior, escreveu crítica em jornais e revistas, publicou o livro Momentos de música brasileira (Nobel, 1985), gravou o CD Sarau das musas e chegou a professora titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Aposentada, achou que era o momento de organizar e recuperar trabalhos importantes do passado. Quando gravou o disco de modinhas, ela queria apenas deixar registrado algo que nunca havia sido gravado. Agora transforma o velho LP em CD, para que todo o esforço despendido não fique perdido em velhas discotecas.

Dessa vez Léa vai pagar do próprio bolso a remasterização do disco, transformando-o em CD e colocando-o à venda na Livraria Cultura do shopping center Villa-Lobos, em São Paulo. O CD será relançado no dia 12 de junho. Terá a mesma capa de 1967, com desenho da pintora Yola Cintra, representando parte da antiga Vila Rica, com a casa de Dirceu. Léa quer deixar registrado, em definitivo, esse momento incipiente da vida musical brasileira de séculos passados.

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