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Meu reino por um ponto a mais

Pesquisas eleitorais, o mistério saboroso das eleições que faz mil falar por milhões

FERNANDO VILELATão inteligente quanto esperto, Leonel Brizola, numa de suas inúmeras campanhas, saía pelas ruas perguntando a cada passante se ele já fora entrevistado para uma pesquisa de opinião eleitoral. “Eu também nunca fui”, asseverava o gaúcho após ouvir, quase sempre, um ‘não’ do seu interlocutor. No mês passado, o candidato à Presidência Geraldo Alckmin igualmente preferiu desprezar os números ao classificar de ‘piada’ os resultados de uma pesquisa que não lhe era favorável. “Eu só falo de coisa séria e isso é uma piada. Você leva isso a sério?”, perguntou aos jornalistas que o acompanhavam. “A cada eleição se repete a controvérsia sobre o desempenho dos institutos de pesquisa durante a campanha eleitoral, questiona-se se os números afetam o voto etc. Isso ocorre pela diferença de ethos que move políticos, jornalistas e coordenadores de pesquisas sobre elas. Candidatos, por exemplo, tendem a desprezá-las quando o resultado não é bom e vice-versa”, explica o cientista político Alberto Almeida, diretor técnico da empresa Ipsos Opinion e autor do livro Como são feitas as pesquisas eleitorais e de opinião (Editora FGV) e que lança agora o estudo Por que Lula?.

Afinal, dá para confiar em pesquisas eleitorais? Elementar, meus caros Brizola e Alckmin, responderia Sherlock Holmes, que, em O signo dos quatro, revela o curioso mecanismo que movimenta as sondagens eleitorais. “Embora o homem individual seja um enigma insolúvel, o agregado humano representa uma certeza matemática. Nunca se pode predizer, por exemplo, o que fará um homem, mas é possível prever as atitudes de um certo número deles. Os indivíduos variam, mas as porcentagens permanecem constantes”, já entendia, no século XIX, o detetive. “Lembro, quando criança, de ter assistido a um comício do Jânio Quadros na eleição presidencial de 1960. Foi a última cena de campanha do Brasil rural. O país acordou do pesadelo militar, 29 anos depois, para eleição de 1989, urbano e telemaníaco. As campanhas deslocaram-se dos palanques para os estúdios de televisão, governadas pelas pesquisas eleitorais, que, em tese, expressariam os caprichos da opinião pública, um milagre estatístico que faz mil pessoas falar por milhões”, observa o jornalista Maurício Dias.

“Desde a democratização, as pesquisas indicam erros e acertos nas táticas de campanha, redirecionam estratégias, incentivam desistências, forçam alianças, fornecem elementos para programas de governo e alteram a agenda de candidatos”, analisa o sociólogo Antonio Teixeira Mendes, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). “Por tudo isso, elas não podem mais ser vistas como figurantes no cenário eleitoral. Os candidatos sofrem o impacto direto da ‘dança dos números’: bons resultados em pesquisa significam apoio político, contribuições financeiras da área empresarial, talvez mais espaço na mídia. O oposto pode representar perda de aliados, pressões intrapartidárias, apatia, crise e até mesmo desistência.” Ou na definição algo crua do ex-presidente norte-americano Richard Nixon: “Os agentes do serviço secreto protegem os candidatos contra os psicopatas e os pesquisadores de opinião os protegem contra os eleitores”. Apesar de todo esse poder, as pesquisas são um mistério para os eleitores e mesmo para muitos jornalistas que, muitas vezes, interpretam erradamente o gingado numérico. “Na verdade, não se acredita em pesquisa porque se sabe como ela funciona, mas simplesmente porque funciona”, lembra Mendes.

E que não se duvide disso. A média de acerto dos quatro grandes institutos brasileiros de pesquisa (Ibope, Datafolha, Vox Populi e Sensus) está em padrões internacionais: considerando os números referentes às eleições presidenciais a partir de 1989, a média de acerto é superior a 90%. A democracia agradece essa precisão. “Afinal, as pesquisas criam fatos políticos, na medida em que reduzem o custo da informação do que está ocorrendo politicamente no país. Ela virou um fenômeno importante para os cidadãos, ajudando-os a decidir, a refletir e a julgar aqueles que se apresentavam recomendando, desejando ou pedindo seu voto”, observa o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos. “Esses tipos de fatos criados pelas pesquisas são bem-vindos, porque são um ingrediente indispensável para tornar a democracia não apenas um bem coletivo, mas um bem barato tanto quanto possa ser”, assevera o pesquisador. Há, no entanto, quem considere o instrumento como uma “espetacularização” das eleições, transformadas em “corrida de cavalos” da qual se exclui a discussão política séria. “Mesmo que isso fosse verdade, temos que ponderar que essa conversão da política em esporte faz com que o público fique mais atento para o pleito e, nesse contexto, acabe se inteirando mais sobre plataformas de candidatos etc. Os eleitores ganham informação política com a divulgação e discussão das pesquisas pela mídia”, diz Lydia Miljan, da Windsor University, do Canadá. Informação é um bem precioso.

Bem, se concordamos que o ingrediente é indispensável, é preciso entender de que forma ele é usado na “cozinha” eleitoral. O primeiro mistério que ronda as pesquisas é a amostragem. Como poucos podem falar por tantos e, no final, tudo dar certo? “Tamanho não é documento”, responde Alberto Almeida. A mania por pesquisas iniciou-se em 1916, nos Estados Unidos, quando a revista The Literary Digest passou a enviar milhões de questionários para todos os eleitores que conseguiu listar (também de olho em futuros assinantes) e acertou, com precisão razoável, os resultados da eleição presidencial daquele ano em diante. Em 1936 repetiram (e aumentaram: enviaram 20 milhões de questionários) a dose, com um conceito de pesquisa que consistia em atingir o maior número de pessoas possível. Um ano antes, mais modesto, George Gallup fundou o American Institute of Public Opinion, onde desenvolveu um método mais científico de pesquisa, baseado em amostragem. Para conquistar os jornais prometeu prever o ganhador da eleição de 1936, em que concorriam Franklin Roosevelt e Alf Landon.

Digest, que enviara 20 milhões de questionários, afirmou que o último venceria o páreo. Gallup espalhou entrevistadores pela América, falou com 3 mil pessoas e apostou em Roosevelt, que venceu o concorrente por uma margem de 19 pontos. O que houve?

A Digest enviara seus questionários para todos os donos de carro e telefones, parcela importante mas nada representativa do país como um todo. “De nada adianta realizar milhões de entrevistas se os entrevistados não forem representativos da população. É melhor realizar poucas entrevistas representativas”, explica Almeida. Como fez Gallup, baseado na chamada amostra por cotas, o método adotado ainda hoje pelos institutos brasileiros de pesquisa. Nele, divide-se a população em subgrupos (homem e mulher, negro e branco, jovem e idoso etc.) e calcula-se o tamanho proporcional de cada um desses conjuntos. A partir disso, define-se o total de entrevistas a serem feitas, as quais serão divididas de acordo com as proporções encontradas para cada subgrupo. Quanto mais variáveis forem controladas na definição das cotas, melhor a representatividade da pesquisa, ou seja, o seu grau de similaridade com a população. O tamanho da amostra independe da população pesquisada. Esse sistema é barato, rápido e funcional. No Brasil, opta-se por um universo que gira em torno de 2 mil pessoas. Mas e a tal margem de erro?

Engana-se quem pensa que se trata de embromação dos pesquisadores, uma forma de se safar caso uma previsão não se confirme nas urnas. “Existe sempre uma chance de aqueles que foram incluídos na amostra não serem perfeitamente representativos da população toda. Assim, as estimativas estão sujeitas a diferenças entre os dados obtidos por meio da amostra e os da população pesquisada. Se estas diferenças forem aleatórias, são chamadas de erros amostrais, que podem ser calculados e controlados”, esclarece Márcia Cavallari, diretora do Ibope. A margem de erro diz o quão perto a estatística da amostra cai ou está em relação ao parâmetro da população. Entra em campo o segundo ethos da pesquisa, como observado por Alberto Almeida, o da mídia. “Para os jornalistas, nada mais frustrante do que uma campanha eleitoral em que os índices de intenção de voto dos candidatos não se alterem. A mudança é notícia e a continuidade não é. Muitas vezes, um candidato subiu de 30 para 32% em duas pesquisas com margem de erro de três pontos e, pela estatística, não houve alteração. Para o ethos do jornalista, isso é impossível de ser aceito e, provavelmente, a manchete do seu veículo será que o candidato X subiu 2% na corrida eleitoral. A mídia prefere correr o risco de ficar com uma hipótese errada do que perder uma notícia”, avisa Almeida. Para o coordenador de pesquisas, no terceiro ethos em cena, dá-se o inverso. Ele prefere não descobrir que houve uma mudança na tendência de votos a aceitar uma hipótese errada que colocaria sua confiabilidade em questão.

Mas não basta saber escolher, é preciso saber perguntar. “As perguntas de um questionário são o centro de um projeto de pesquisas”, assegura Márcia, que preconiza que elas sejam breves, objetivas, claras e num vocabulário acessível a qualquer eleitor. Há mesmo uma piada sobre isso. Um jovem monge foi advertido severamente por seu superior quando perguntou se poderia fumar enquanto rezava. Faça a pergunta diferente, sugeriu um amigo. Pergunte se você pode rezar enquanto fuma. “A formulação do questionário afeta os resultados de uma pesquisa e por isso, muitas vezes, os resultados podem ser fabricados de maneira sutil. É comum que a mídia não apresente as perguntas como foram feitas, mas apenas o seu resumo. O cidadão precisa ter cuidado com isso e sempre buscar saber a íntegra das questões”, adverte Almeida. “A pesquisa é um excelente instrumento de marketing, desde que se tenha consciência de seu poder e de seus limites”, adverte a diretora do Ibope. Afinal, por melhor que seja a pergunta, ela será feita por um humano. E errar é…

Opiniões
“De nada vale ter uma amostra perfeita e um questionário sem falhas se os entrevistadores erram ou fraudam os questionários. Eles estão apenas colhendo informações e isso não lhes dá o direito de expor suas idéias ou contrapor opiniões. Uma equipe de campo bem treinada e profissional é elemento-chave do sucesso de qualquer instituto de pesquisa”, avalia o pesquisador. Há regras para conduzir as entrevistas que incluem instruções como nunca entrevistar pessoas acompanhadas por terceiros (a tendência é responder o que o acompanhante gostaria de ouvir), não se entrevistar mais de uma pessoa de um grupo, não importando se o grupo é formado por duas ou mais pessoas etc. A vida de entrevistador não é nada fácil. “Em 1998 fizemos uma pesquisa no Rio de Janeiro. Na Zona Sul, por exemplo, foi preciso trazer entrevistadoras com a ‘cara’ para que os passantes evitassem segregá-las, como fizeram com profissionais de fenótipo mais popular. Já na favela da Rocinha, fomos abordados por homens armados e os entrevistados respondiam a questões de olho neles, assustados”, lembra Almeida. A modalidade do trabalho de campo, aliás, diferencia os institutos brasileiros.

FERNANDO VILELAO Datafolha, criado em 1983, como um departamento de pesquisas do Grupo Folha da Manhã para realizar sondagens de opinião com “rigor técnico e agilidade”, prefere pesquisar nas ruas. “Temos no nosso DNA o espírito do jornalismo. Além disso, hoje é difícil o acesso a condomínios de luxo e só se entra nas favelas após um acordo com o tráfico”, observa Mauro Paulino, há 20 diretor-geral do Datafolha, que, a partir, de 1995, foi transformado numa unidade de negócios. O Vox Populi, por sua vez, só faz entrevistas a domicílio. “Isso aumenta a possibilidade de controle de fluxos no campo. A pesquisa ideal é aquela que dá a mesma chance de um integrante de um determinado universo ser incluído na amostragem”, acredita Marcos Coimbra, diretor do instituto. Apesar da crença no instrumento de seu trabalho, o pesquisador tem ressalvas sobre o limite real das pesquisas. “Uma intenção de voto é apenas uma intenção de voto. Ainda não temos um número grande de eleições para entender o padrão de comportamento do eleitor brasileiro. Em 506 anos de história, essa é a quinta eleição direta seguida no Brasil”, lembra. Daí a “juventude” dos institutos de pesquisa.

O pioneiro dentre eles, o Ibope, foi criado em 1942 por Auricélio Penteado, contrariado dono da rádio Kosmos, de São Paulo, que, diziam pesquisas apócrifas da época, era a emissora menos ouvida. Usando as técnicas desenvolvidas por Gallup, Penteado logo descobriu que o seu futuro não estava nas ondas do rádio (efetivamente a Kosmos era um desastre), mas na crista das pesquisas. O primeiro teste do novo instituto foi dos mais inusitados: Ary Barroso, vereador carioca, disputava com Carlos Lacerda qual seria o melhor lugar para edificar o futuro Maracanã. O compositor defendia um terreno no Derby Club e o “Corvo”, a restinga de Jacarepaguá. O criador da Aquarela do Brasil sugeriu que o Ibope fizesse falar a voz popular e venceu a parada com 88% dos cariocas a seu lado. “A ação de Barroso colocou em suspenso a idéia de representação parlamentar, indicando, ainda que indiretamente, o fato de os representantes da população não se interessarem em conhecer a vontade daqueles que os haviam elegido. A grande maioria dos representados, evocados em discursos, mantinha-se restrita ao papel de eleitor/consumidor, devendo escolher os produtos políticos elaborados pelos produtores políticos”, nota o historiador Áureo Busetto, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A democracia nacional crescia com pesquisas.

Em 1953 veio o teste maior do Ibope, capaz de prever a vitória, em São Paulo, de Jânio Quadros. Como o eleito, o sucesso da pesquisa reviraria o Brasil pelo avesso. “Embora não fosse percebido pela maioria do eleitorado, o comprometimento entre órgãos e profissionais da imprensa era conhecido por grupos políticos e pelas elites intelectuais. Assim, as prévias eleitorais dadas pela imprensa, antes do Ibope, eram meras peças de propaganda partidária ou de candidaturas”, conta Busetto. “O prognóstico preciso do Ibope foi um passo importante para a redenção e a qualificação da pesquisa de opinião pública na seara político-eleitoral.” A reação veio com o jeitinho brasileiro. Se antes os jornais escancaravam “certezas” duvidosas e que se contradiziam nas suas capas (“Fulano tem tantos por cento do eleitorado e vai ganhar de barbada”), depois do Ibope, foi preciso maior cuidado para agradar ao leitor. Inventaram-se institutos de fachada, como o Epil ou o Ipê, que “garantiam” precisão científica de resultados, embora o método continuasse o mesmo: estava na frente quem pagasse mais ou cuja vitória interessasse ao jornal.

“Efetuamos duas pesquisas básicas com a finalidade de estabelecer as ‘áreas de conhecimento e ignorância’ do fato pesquisado (as eleições) e o estudo da opinião pública diante dos problemas que carecem de solução e os homens que seriam capazes de resolvê-los.” Esse era o “método” adotado pelo Ipê, nas palavras de seu diretor. Era só o começo dos problemas do Ibope. Em 1954, na eleição estadual paulista, estavam polarizados Jânio e Adhemar de Barros e todos queriam acertar o desenlace do pleito. Mesmo a Rádio Record arriscou o seu palpite: JQ. E, por uma coincidência infeliz, foi a única a acertar. O Ibope dera a vitória a Adhemar (que perdeu por apenas 1%) e caiu nas mandíbulas dos jornais. “Se nos fosse dado usar uma gíria, diríamos que o Ibope está avacalhado”, atacou o Diário da Noite, de Assis Chateaubriand, que temia a concorrência científica do instituto de Auricélio. Chegou mesmo a fazer uma série de reportagens com um vidente armênio, Sana-Khan, que profetizava coisas como “há três estrelas jupiterianas no destino de Jânio”, forma de açodar o Ibope e colocar em questão a pesquisa eleitoral por amostragem ao afirmar que o sobrenatural estava mais bem equipado do que ele.

Foi difícil recuperar a credibilidade da estatística eleitoral junto aos brasileiros para, em 1984, sofrer outro baque, desta vez com o Instituto Gallup. Jânio estava novamente em cena, desta vez enfrentando Fernando Henrique Cardoso. Para o Gallup havia um empate técnico. “A vontade política da mídia era a vitória de FHC e ela perdeu a aposta. Eles endoidaram o eleitorado”, observa Marcus Figueiredo, do Iuperj. Os institutos de pesquisa perceberam que era preciso cuidado com o andor e ainda mais com a imprensa, fechando-se mais na profissionalização para garantir a competitividade por competência. Seja como for, as pesquisas tinham chegado para ficar. “Desde o início dos anos 1980, as pesquisas políticas na América Latina têm se constituído num evento central ao processo de redemocratização”, afirma o cientista político Fabián Echegaray, da Market Analisys Brasil. Elas foram, observa, um veículo-chave para checar a limpeza do voto e desencorajar a fraude eleitoral, uma prática comum até então em vários países da América Latina. “Em casos como os da Argentina e Venezuela, a divulgação das pesquisas chegou mesmo a impedir tentativas de golpe; elas também desmistificaram o discurso ditatorial sobre o exagerado preço a pagar pela volta de um regime eleito e civil; e deram espaço para o povo, enfim, expressar seus desejos e vê-los respeitados”, analisa.

Reagan
Nem sempre porém. Foi baseado em pesquisas cujos supostos dados indicavam o desejo popular de romper com a Constituição que, em 1992, Fujimori deu um golpe de Estado no Peru. Durante a administração Reagan houve, conta Echegaray, também uma onda de pesquisas eleitorais fraudadas, patrocinadas pelo governo norte-americano para consolidar os interesses dos Estados Unidos em várias regiões. “Uma conseqüência direta deste mau uso das pesquisas foi a representação incorreta da verdadeira agenda política e um pobre conhecimento sobre quais eram os assuntos prioritários.” Daí a pergunta inevitável: as pesquisas afetam o voto? “Sim. É racional que o cidadão considere a escolha de uma opção com mais chances de vitória e a possibilidade de um segundo turno. O curioso é que a divisão em turnos foi feita justamente para incentivar as pessoas a expressarem suas preferências reais, ao menos no primeiro turno. No Brasil, por vezes, antecipa-se o voto útil para esta fase, sem dúvida alimentada pela valorização das pesquisas eleitorais”, acredita Alessandra Aldé, do Iuperj.

Há mesmo jargões para indicar esse movimento: os efeitos bandwagon (literalmente o carro abre-alas de um circo e indicativo do candidato com maiores chances de vencer e, logo, atrativo para a maioria que prefere seguir o movimento geral e apostar no vencedor) e underdog (o “pária”, o candidato C, “lanterninha”, em quem se vota para alavancar o B, que se deseja, e forçar a definição de uma eleição num segundo turno com o A, que não se quer). As pesquisas, então, empurrariam o eleitor para um lado ou outro e deveriam, por esta razão, ser submetidas a controles, como a proibição de sua divulgação num período de tempo anterior ao pleito (em vários países, elas são totalmente proibidas ou devem ser interrompidas várias semanas antes de uma eleição). “Um eleitor é submetido a um grande volume de informações sobre os candidatos, denúncias, feitos etc., e formará a imagem de cada um deles. Essas informações todas serão filtradas de acordo com as preferências, visões de mundo e simpatias dos eleitores. Uma das informações que pode (ou não) chegar ao eleitor é a pesquisa. Note-se: é uma dentre um vasto universo”, avalia Almeida. “A influência direta das pesquisas não é algo a ser suposto, mas provado. Afinal, o eleitor pode saber das pesquisas e duvidar da veracidade delas ou simplesmente desconhecê-las. Não é óbvio que pesquisas influenciem o voto e até hoje não houve uma pesquisa científica que provasse essa hipótese. Pode-se dizer que candidatos bem colocados nas pesquisas têm mais recursos, animam seus partidários etc., mas só isso.”

Para Almeida, o mesmo vale para a suposta manipulação de pesquisas feitas por institutos sérios e conhecidos. “Quando se levanta essa questão, é preciso gerar um dado público que comprove isso. Caso contrário, é mera suspeita, sem base científica.” Teixeira Mendes concorda com o pesquisador. “A avaliação do público e o confronto com os resultados finais tornam a manipulação um suicídio mercadológico.” Ele igualmente não vê possibilidade na determinação precisa do grau em que uma pesquisa afete a decisão de um votante, embora reconheça que ela tenha impactos na eleição. “Basta um candidato subir nas pesquisas para sofrer um bombardeio dos outros, que cessa assim que ele despenca nas intenções de voto.” No bom sentido, o preço da liberdade democrática é a eterna vigilância: entenda a “dança dos números”, mas não se afogue neles.

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