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Fomento

Na fronteira do conhecimento

Parceria com Microsoft Research consolida novo modelo de apoio à pesquisa básica

JAIME PRATESO Instituto Microsoft Research-FAPESP de Pesquisas em TI (tecnologia da informação), criado no dia 10 de abril, vai formar uma rede de pesquisa básica em tecnologia da informação e comunicação (TIC) com o objetivo de criar novos conhecimentos que respondam aos desafios sociais e econômicos do país. O instituto contará com recursos iniciais de US$ 400 mil divididos entre os parceiros, para apoiar projetos direcionados para as áreas de ciências da saúde, psicologia, lingüística, antropologia, geografia e design. Os financiamentos se estenderão por um prazo de 36 meses. A primeira chamada de propostas, publicada no dia do lançamento do instituto, está disponível no site da Fundação. Os projetos serão recebidos até o dia 11 de junho.

O modelo de parceria é inédito no Brasil: promove a interseção entre as universidades e institutos de pesquisa paulista com uma empresa do porte da Microsoft Research para a realização de pesquisa básica, com a intermediação da FAPESP. “O nosso objetivo é avançar o conhecimento pensando nas aplicações futuras para a TIC”, explica Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP. Não se trata de resolver problemas tecnológicos da empresa, empreendimento que deve ficar a cargo de suas próprias áreas de pesquisa e desenvolvimento. “Isso ela mesma faz. Mas o que a empresa será em dez anos, será determinado pela relação que ela mantiver com a fronteira do conhecimento”, explica Brito. “O interesse de uma empresa em financiar projetos como esse é o de ter contato com essa fronteira.”

De acordo com Tomasz Kowaltowski, do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), cresce entre as empresas a “consciência” de que sua atuação não pode ser apenas comercial. “Não se trata de uma necessidade econômica. Elas já enxergam a importância de pesquisar com universidades para ajudar na solução de problemas sociais.”

Essa nova modalidade de colaboração universidade-empresa permitirá também que os pesquisadores estabeleçam canais de comunicação com parceiros em outros países e trabalhem com temas de pesquisas relevantes. “O conhecimento só avança quando os cientistas se comunicam e debatem sobre suas descobertas”, sublinha Brito. A chamada de propostas para o desenvolvimento de pesquisas no âmbito do Instituto Microsoft Research-FAPESP de Pesquisas em TI, na avaliação de Brito, intensificará a conexão entre os cientistas de São Paulo e o resto do mundo. “E ainda trará um novo grau de reconhecimento internacional para a pesquisa que se faz no estado.”

Nessa primeira chamada de propostas, a FAPESP está associando duas modalidades de financiamento, até então independentes. “Como contamos com recursos da Microsof Research, os pesquisadores poderão pleitear auxílios para custeio e para as bolsas necessárias ao andamento do projeto”, conta Brito. O incentivo, ele sublinha, é parte da estratégia da Fundação de criar “mais oportunidades” para a associação entre pesquisa acadêmica e empresarial.

A expectativa é selecionar, no primeiro edital, algo em torno de cinco projetos de pesquisa que devem ter como foco aumentar o acesso e os benefícios dos cidadãos às tecnologias da informação e comunicação. Deverá incluir, por exemplo, o desenvolvimento de tecnologias a serem utilizadas em serviços de saúde, educação, desenvolvimento econômico, entre outros.

A FAPESP consolida assim a sua estratégia de atuação que se ampara em três pilares. O primeiro, explica Brito, é o apoio à formação de recursos humanos e de cientistas no estado de São Paulo. “A Fundação usa quase um terço de seu orçamento no pagamento de bolsas de estudo de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado. É isso que vai criar a base de competência científica e traçar o futuro da pesquisa em São Paulo”, afirma.

O segundo pilar é o apoio à pesquisa básica, motivada e identificada pela curiosidade do cientista e do pesquisador. “Essa modalidade de apoio representa a enorme maioria dos projetos de pesquisa patrocinados pela Fundação. E é assim que deve ser, já que uma das funções mais importantes das universidades e institutos de pesquisa é explorar as idéias novas que, no futuro, vão constituir o acervo de conhecimento que fará desenvolver a humanidade”, acrescenta o diretor científico da FAPESP.

“O terceiro pilar é um conjunto de iniciativas e de projetos de pesquisa noqual a Fundação busca associar a investigação de excelência com a sua aplicação ou, pelo menos, a visualização dessa aplicação em um prazo não muito longo”, descreve Brito. Esse tipo de pesquisa freqüentemente é financiado em parceria com empresas. “O Instituto Microsoft Research-FAPESP de Pesquisas em Tecnologia da Informação (TI) se insere nessa estratégia.”

Parceria com a Telefônica
A parceria com a Microsoft Research não é o primeiro convênio de cooperação com empresas em projetos colaborativos. No ano passado a FAPESP e a Oxiteno, uma das maiores indústrias químicas do país, lançaram uma chamada pública de propostas para projetos de pesquisa na área de tecnologia de produção de açúcares, álcool e derivados. O objetivo é explorar a fronteira do conhecimento e buscar soluções inovadoras que ajudem a reduzir os custos de produção do etanol e permitam o seu uso competitivo na produção de produtos químicos. Os investimentos somam R$ 6 milhões, metade bancada pela Oxiteno e a outra metade dividida entre a FAPESP e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

JAIME PRATESNo dia 27 de abril a Fundação anunciou um acordo com o Grupo Telefônica com o objetivo de incentivar pesquisas científicas e tecnológicas em tecnologia da informação e telecomunicações. No mesmo dia foi publicada a chamada de propostas. A exemplo dos convênios com a Microsoft Research e a Oxiteno, as pesquisas devem ser de natureza básica e aplicada, voltadas para novos produtos e serviços.

O convênio FAPESP-Telefônica para Apoio à Pesquisa em Tecnologia da Informação e Telecomunicações vai garantir, por um período de três anos, o uso de uma rede dedicada de fibras ópticas com 3,3 mil quilômetros no estado de São Paulo – cedida integralmente pela empresa – para interligar pesquisadores numa plataforma experimental de alta velocidade, conhecida como testbed. Essa infra-estrutura de rede chegará até o interior dos laboratórios de todas as instituições participantes da plataforma.

Além da cessão da rede de fibras ópticas, a Telefônica aplicará R$ 390 mil em bolsas em nível de mestrado e doutorado voltados para os temas elencados no convênio. A FAPESP, em contrapartida, investirá R$ 4 milhões anualmente para apoiar projetos de pesquisa sobre tecnologias, produtos e serviços de internet do futuro.

Antonio Carlos Valente, presidente do Grupo Telefônica, sublinha que o valor estimado da rede dedicada que a empresa está oferecendo à comunidade científica tem valor estimado em R$ 30 milhões. “Para nós, porém, mais importante do que isso é que essa parceria promove a inovação científica e tecnológica, um dos princípios de atuação do Grupo Telefônica no Brasil e nos outros 22 países onde atua. Esse tipo de parceria pode ser, posteriormente, ampliado para todo o Brasil e demais países da América Latina”, afirma.

A intermediação da FAPESP é crucial para consolidar bons negócios na área de pesquisa. “Na medida em que a FAPESP negocia, consegue melhores condições para questões como patentes e propriedade intelectual do que se os entendimentos estivessem sendo feitos por pesquisadores individuais. A pesquisa colaborativa pode ser boa para as empresas, que entendem de inovação, como para a universidade, que entende de pesquisa básica”, argumenta Brito.

A Microsof Research também utiliza esse modelo de pesquisa colaborativa no desenvolvimento de projetos. A empresa investe US$ 7 bilhões anuais, cerca de 15% de seu faturamento, em pesquisa básica e desenvolvimento de novos produtos. “Temos 700 pesquisadores em cinco laboratórios em todo o mundo divididos em 55 grupos de investigação distintos”, explica Henrique Malvar, diretor-geral da Microsof Research. Investigam-se novas tecnologias em aprendizagem de máquinas, teoria matemática, análise de informações, entre outras. “Temos pesquisadores de padrão internacional, que buscam ampliar os limites do conhecimento na área da tecnologia da informação e, ao mesmo tempo, auxiliam no desenvolvimento de produtos da Microsoft”, ele diz. Apenas alguns projetos atingem o estado de produto. “O nosso horizonte é: como a vida pode estar melhor em dez anos.”

O esforço da Microsoft Research inclui convênios com universidades e institutos de pesquisa, seja por meio da publicação de trabalhos conjuntos, seja por meio de apoio direto à pesquisa. “Cerca de 15% do orçamento da Microsoft Research é destinado a patrocinar parcerias com universidades”, conta Malvar. Isso sem falar nos 250 estagiários que a empresa recebe anualmente, muitos deles da América Latina. “A parceria com a FAPESP se insere nesse escopo e se apóia na qualidade da comunidade acadêmica de São Paulo, notadamente da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)”, sublinha Malvar.

Quadrante de Pasteur
A Fundação e a Microsoft Research reproduzem assim o modelo sugerido por Donald E. Stoke no livro O quadrante de Pasteur – A ciência básica e a inovação tecnológica. Stoke propôs, em 1996, um novo modelo de classificação de pesquisa e inovação a partir de duas coordenadas: a primeira dimensiona o avanço do conhecimento e a segunda, a sua aplicação. Projetada num gráfico, a pesquisa básica sem nenhuma aplicação imediata – que tem seu melhor exemplo nas investigações do físico Niels Bohr sobre a estrutura do átomo – ocuparia o quadrante superior esquerdo. O quadrante inferior esquerdo, segundo classificação de Stoke, é ocupado pela pesquisa aplicada dirigida ao desenvolvimento tecnológico – é o exemplo, no caso, do sistema de iluminação elétrica desenvolvido por Thomas Edison.

Stoke reservou o quadrante inferior direito para as pesquisas motivadas pela curiosidade do cientista e destacou, no quadrante superior direito, as pesquisas que podem contribuir para o avanço do conhecimento – qualidade inerente da pesquisa básica – paralelamente ao seu grande potencial de aplicação prática. Esse foi o caráter das investigações de Louis Pasteur, por exemplo, na área de microbiologia que fizeram avançar o conhecimento ao mesmo tempo que beneficiaram os produtores de álcool de beterraba. É aí, no quadrante de Pasteur, que Stoke inscreve a pesquisa básica inspirada pelo uso enquanto expande as fronteiras do conhecimento e atende a demandas sociais. É no quadrante de Pasteur que a FAPESP busca inspiração para o novo diálogo entre as comunidades científicas e as empresas.

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